Léxico: «arremprar»

«Arrempra-se»

Li no Destak e arrepiei-me: «Em tempos de crise há que ser imaginativo. Foi com essa premissa em mente que a Sociedade Gestora da Alta de Lisboa (SGAL) criou o conceito imobiliário de “arremprar”, ou seja, conjuga o arrendamento com a possibilidade de comprar o imóvel até ao 60.º mês de contrato» («Em tempo de crise ‘arremprar’ uma casa na Alta de Lisboa», Inês Santinhos Gonçalves, Destak, 27.05.2009, p. 2). É um neologismo rebarbativo, é certo, mas em termos gramaticais de formação irrepreensível: é mais uma amálgama: arre(ndar) + (co)mprar. E já temos sorte não lhes ter saído alumprar, que soaria muito mais sinistro.

Sobre «restaurador»

Conservação e restauro

Já tínhamos restauração na acepção, que eu detesto particularmente, de sector de actividade relacionado com a exploração de restaurantes e outros estabelecimentos afins, do francês restauration. Agora, Miguel Esteves Cardoso foi mais longe: foi buscar ao francês restaurateur a acepção de pessoa que tem um restaurante («personne qui tient un restaurant; traiteur chez lequel on trouve des aliments servis par portions et dont l’espèce et le prix sont indiqués sur une sorte de pancarte», in TLFI) e traduziu-a: eis aí restaurador: «Daí que diga já: são estúpidas (e perdulárias) as pessoas que comem robalos, sargos e douradas antes de Setembro. E são maus os restauradores que os recomendam» («As novidades do peixe», Miguel Esteves Cardoso, Público, 27.05.2009, p. 39). A juntarem-se a D. João IV e ao Restaurador Olex, temos agora milhares de restauradores pelo País fora. Só por uma dessas coincidências raras é que algum será formado pela Escola Superior de Artes Decorativas (ESAD) da Fundação Ricardo do Espírito Santo Silva.

«Há anos atrás»…

Poupem-nos

«Há semanas atrás, no início do novo ano, Malcolm enviou-me um mensageiro com uma peça de seda verde, bordada a ouro, e potes de especiarias e perfumes, juntamente com um pedido da minha mão em casamento» (Lady Macbeth, Susan Fraser King. Tradução de Maria José Santos e revisão de Duarte Camacho. Lisboa: Bertrand Editora, 2009, p. 15). Independentemente de considerações sobre a correcção gramatical desta construção, verdadeira praga dos últimos anos, a que poucos se mostram imunes, parece-me inequívoco que é deselegante. Até, como se vê, em obras revistas ela surge. Recentemente, Ferreira Fernandes assestou-lhe o seu olhar de jornalista sensível à língua: «Há uns anos (há tantos que ainda não se dizia “há uns anos atrás”), eu e uns maduros fomos a Barcelona prestar homenagem ao nosso prazer» («Se o futebol não é um prazer, para que serve?», Notícias Sábado, 9.05.2009, p. 4).

«Reboliço» e «rebuliço»

Colarense ou colarejo?

A colareja



      «Sabe apenas que o computador “é daqueles mesmo originais, que o Ministério da Educação dá aos miúdos”. E, para que não restem dúvidas, liga o aparelho, no meio do reboliço da feira, só para o comprovar» («Computador ‘Magalhães’ é estrela do mercado negro», Joana Pereira Bastos, Expresso, 1.05.2009, p. 22). No campo das homófonas, é um dos erros mais comuns. Já o vi em traduções e mesmo em autores portugueses habitualmente cuidadosos. Reboliço é o que tem forma de rebolo, arredondado; que rebola. Quando me vem à mente a palavra «colareja», é sempre encarnada por uma matrona reboliça, dada, pois claro, a grandes rebuliços: grandes bulícios; grandes desordens e vozearia; balbúrdia, confusão, agitação. «Venha cá, ó freguês!»

«Banco de baleias»?

Outros bancos



      «Ao largo das costas da Cornualha, na Inglaterra, os bancos de baleias e de orcas coabitavam com os tubarões azuis. Isso acabou» («Já não há pescadas nem bancos de baleias como havia, afirmam investigadores», Público, 25.05.2009, p. 13). Os dicionários que consultei afirmam que um banco é um «cardume de peixes à superfície da água». Há, assim, bancos de sardinhas — mas haverá bancos de baleias e de orcas? Tratando-se de cetáceos, isto é, mamíferos adaptados ao meio aquático, não se aplica o termo com propriedade. Não é por acaso que o colectivo de baleia não é cardume (como se pode dizer «cardume de tubarões»), mas baleal. Neste caso, dado o uso, creio que é a definição desta acepção do vocábulo «banco» que precisa de uma redacção diferente e mais abrangente.
      As baleias já antes, a propósito de do termo «recolho», tinham passado pelo Assim Mesmo.

Léxico: «bosquete»

Em Queluz

«O que foi determinante para avançar com a reabertura, há pouco mais de uma semana, foi o trabalho feito no chamado coberto vegetal — os bosquetes foram limpos, os buxos aparados, houve uma tentativa de recuperar algumas espécies e outras novas forma introduzidas, na zona dos jardins superiores, os mais próximos do palácio» («Jardins de Queluz», Alexandra Prado Coelho, Público/P2, 25.05.2009, p. 6). É palavra rara e nem todos os dicionários a registam. Designa o aglomerado artificial de árvores de tipo florestal e arbustos silvestres em jardins, casas de campo, etc. Pequeno bosque.

«Quintaneiro»?

Trocar os enes pelos eles

      «A colega [do arquitecto-paisagista Gonçalo Ribeiro Telles] de profissão Margarida Cancela d’Abreu conta que uma das excepções [à inexistência de hortas urbanas] ocorre em Évora, onde aos sábados e domingos há bancadas de madeira à porta do mercado para os “quintaneiros” que cultivam hortas à volta da cidade e que ali comercializam os seus produtos, por sinal muito procurados» («Lisboa vai ter mais e melhores hortas urbanas até 2011», Inês Boaventura, Público, 25.05.2009, p. 14). Nunca antes ouvi ou li o vocábulo «quintaneiro». Ainda me ocorreu que pudesse ser um regionalismo, mas o facto de «quintaleiro», que significa «hortelão», existir e estar registado levou-me a crer que terá sido erro da jornalista.


Ortografia: «anoréctico»

Mudo mas firme


      «Os Santos Populares que tenham paciência. Troquem-se bulímicos carapaus pelas sardinhas anoréticas» («Não à piscipedofilia», Miguel Esteves Cardoso, Público, 25.05.2009, p. 31). A propósito de torácico/toráxico, referi aqui os pares anoréctico/anoréxico e disléctico/disléxico. Como se pode ver, a partir de substantivos com x, formam-se adjectivos com ct, o que também se verifica em sintaxe/sintáctico, profilaxia/profiláctico, etc. Só depois de estar em vigor o Acordo Ortográfico de 1990 é que se passará a poder escrever sem o c mudo: anorético.

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