«Reboliço» e «rebuliço»

Colarense ou colarejo?

A colareja



      «Sabe apenas que o computador “é daqueles mesmo originais, que o Ministério da Educação dá aos miúdos”. E, para que não restem dúvidas, liga o aparelho, no meio do reboliço da feira, só para o comprovar» («Computador ‘Magalhães’ é estrela do mercado negro», Joana Pereira Bastos, Expresso, 1.05.2009, p. 22). No campo das homófonas, é um dos erros mais comuns. Já o vi em traduções e mesmo em autores portugueses habitualmente cuidadosos. Reboliço é o que tem forma de rebolo, arredondado; que rebola. Quando me vem à mente a palavra «colareja», é sempre encarnada por uma matrona reboliça, dada, pois claro, a grandes rebuliços: grandes bulícios; grandes desordens e vozearia; balbúrdia, confusão, agitação. «Venha cá, ó freguês!»

«Banco de baleias»?

Outros bancos



      «Ao largo das costas da Cornualha, na Inglaterra, os bancos de baleias e de orcas coabitavam com os tubarões azuis. Isso acabou» («Já não há pescadas nem bancos de baleias como havia, afirmam investigadores», Público, 25.05.2009, p. 13). Os dicionários que consultei afirmam que um banco é um «cardume de peixes à superfície da água». Há, assim, bancos de sardinhas — mas haverá bancos de baleias e de orcas? Tratando-se de cetáceos, isto é, mamíferos adaptados ao meio aquático, não se aplica o termo com propriedade. Não é por acaso que o colectivo de baleia não é cardume (como se pode dizer «cardume de tubarões»), mas baleal. Neste caso, dado o uso, creio que é a definição desta acepção do vocábulo «banco» que precisa de uma redacção diferente e mais abrangente.
      As baleias já antes, a propósito de do termo «recolho», tinham passado pelo Assim Mesmo.

Léxico: «bosquete»

Em Queluz

«O que foi determinante para avançar com a reabertura, há pouco mais de uma semana, foi o trabalho feito no chamado coberto vegetal — os bosquetes foram limpos, os buxos aparados, houve uma tentativa de recuperar algumas espécies e outras novas forma introduzidas, na zona dos jardins superiores, os mais próximos do palácio» («Jardins de Queluz», Alexandra Prado Coelho, Público/P2, 25.05.2009, p. 6). É palavra rara e nem todos os dicionários a registam. Designa o aglomerado artificial de árvores de tipo florestal e arbustos silvestres em jardins, casas de campo, etc. Pequeno bosque.

«Quintaneiro»?

Trocar os enes pelos eles

      «A colega [do arquitecto-paisagista Gonçalo Ribeiro Telles] de profissão Margarida Cancela d’Abreu conta que uma das excepções [à inexistência de hortas urbanas] ocorre em Évora, onde aos sábados e domingos há bancadas de madeira à porta do mercado para os “quintaneiros” que cultivam hortas à volta da cidade e que ali comercializam os seus produtos, por sinal muito procurados» («Lisboa vai ter mais e melhores hortas urbanas até 2011», Inês Boaventura, Público, 25.05.2009, p. 14). Nunca antes ouvi ou li o vocábulo «quintaneiro». Ainda me ocorreu que pudesse ser um regionalismo, mas o facto de «quintaleiro», que significa «hortelão», existir e estar registado levou-me a crer que terá sido erro da jornalista.


Ortografia: «anoréctico»

Mudo mas firme


      «Os Santos Populares que tenham paciência. Troquem-se bulímicos carapaus pelas sardinhas anoréticas» («Não à piscipedofilia», Miguel Esteves Cardoso, Público, 25.05.2009, p. 31). A propósito de torácico/toráxico, referi aqui os pares anoréctico/anoréxico e disléctico/disléxico. Como se pode ver, a partir de substantivos com x, formam-se adjectivos com ct, o que também se verifica em sintaxe/sintáctico, profilaxia/profiláctico, etc. Só depois de estar em vigor o Acordo Ortográfico de 1990 é que se passará a poder escrever sem o c mudo: anorético.

«Castle Stream»?

Stream of consciousness

O meu olhar pousou na palavra «rio» e foi imediato: lembrei-me logo do que tinha anotado há dias. Mas comecemos pelo princípio: se numa obra que estivessem a traduzir aparecesse o nome de um curso de água, Castle Stream, digamos, o que fariam? Deixavam assim, no original? Sim? Então também ficaria por traduzir, em qualquer texto, River Cam ou River Thames, é isso? (Ah, gostava mesmo de viver num narrowboat ancorado no Cam!) Vejo frequentemente este erro nas traduções: «Oferecera-me uma cana de bambu na semana anterior — não porque eu tivesse feito anos ou algo no género, mas apenas porque às vezes gostava de me oferecer coisas — e eu estava mortinho por experimentá-la em Castle Stream, que era de longe o riacho com mais trutas que conhecia» (Tudo É Fatal, Stephen King. Tradução de Luís Santos e revisão de Manuela Ramos. Lisboa: Círculo de Leitores, 2008, p. 50).

«Fiscal» e «fiscalizador»


Caso único

A generalidade da imprensa prefere designar os agentes de fiscalização Empresa Municipal de Estacionamento de Lisboa (EMEL) como fiscalizadores, talvez porque ache que já há muitas entidades com fiscais. Embora sejam ambos substantivos, a verdade é que fiscal, que também é adjectivo (vide locuções conselho fiscal e paraíso fiscal, v. g.), tem um âmbito de aplicação mais abrangente.

Ortografia: «ai-jesus»

Ai-ai

      «Ou o de Patrícia Bragança, advogada, formada em Toulouse (França) e o “ai Jesus” dos empresários com negócios em Andorra e Portugal» («Andorra, o país dos portugueses», Filipe Luís, Visão, 2.04.2009, p. 60). Está mal, caro Filipe Luís: escreve-se ai-jesus e significa «o mais querido, o predilecto». Como interjeição, escreve-se da mesma maneira.

Actualização em 26.2.2010

      «O bombeiro José Manuel Ferreira é, por estes dias, o herói da aldeia. Desde segunda-feira que as águas do rio Tejo inundaram os campos e as estradas de acesso. “Somos o ai-jesus destas pessoas, quase todas já muito idosas e a precisarem de atenção, por isso, fazemos tudo para que as pessoas possam manter a sua vida o mais normal possível e não se deixem desanimar pelo isolamento”, diz ao DN o bombeiro de 52 anos. Vai buscar botijas de gás, avia receitas na farmácia, vai às compras à mercearia, regista o Euromilhões…» («Tejo transformou Reguengo em ilha sem qualquer ponte», João Baptista, Diário de Notícias, 26.2.2010, p. 21).

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