Léxico: «bosquete»

Em Queluz

«O que foi determinante para avançar com a reabertura, há pouco mais de uma semana, foi o trabalho feito no chamado coberto vegetal — os bosquetes foram limpos, os buxos aparados, houve uma tentativa de recuperar algumas espécies e outras novas forma introduzidas, na zona dos jardins superiores, os mais próximos do palácio» («Jardins de Queluz», Alexandra Prado Coelho, Público/P2, 25.05.2009, p. 6). É palavra rara e nem todos os dicionários a registam. Designa o aglomerado artificial de árvores de tipo florestal e arbustos silvestres em jardins, casas de campo, etc. Pequeno bosque.

«Quintaneiro»?

Trocar os enes pelos eles

      «A colega [do arquitecto-paisagista Gonçalo Ribeiro Telles] de profissão Margarida Cancela d’Abreu conta que uma das excepções [à inexistência de hortas urbanas] ocorre em Évora, onde aos sábados e domingos há bancadas de madeira à porta do mercado para os “quintaneiros” que cultivam hortas à volta da cidade e que ali comercializam os seus produtos, por sinal muito procurados» («Lisboa vai ter mais e melhores hortas urbanas até 2011», Inês Boaventura, Público, 25.05.2009, p. 14). Nunca antes ouvi ou li o vocábulo «quintaneiro». Ainda me ocorreu que pudesse ser um regionalismo, mas o facto de «quintaleiro», que significa «hortelão», existir e estar registado levou-me a crer que terá sido erro da jornalista.


Ortografia: «anoréctico»

Mudo mas firme


      «Os Santos Populares que tenham paciência. Troquem-se bulímicos carapaus pelas sardinhas anoréticas» («Não à piscipedofilia», Miguel Esteves Cardoso, Público, 25.05.2009, p. 31). A propósito de torácico/toráxico, referi aqui os pares anoréctico/anoréxico e disléctico/disléxico. Como se pode ver, a partir de substantivos com x, formam-se adjectivos com ct, o que também se verifica em sintaxe/sintáctico, profilaxia/profiláctico, etc. Só depois de estar em vigor o Acordo Ortográfico de 1990 é que se passará a poder escrever sem o c mudo: anorético.

«Castle Stream»?

Stream of consciousness

O meu olhar pousou na palavra «rio» e foi imediato: lembrei-me logo do que tinha anotado há dias. Mas comecemos pelo princípio: se numa obra que estivessem a traduzir aparecesse o nome de um curso de água, Castle Stream, digamos, o que fariam? Deixavam assim, no original? Sim? Então também ficaria por traduzir, em qualquer texto, River Cam ou River Thames, é isso? (Ah, gostava mesmo de viver num narrowboat ancorado no Cam!) Vejo frequentemente este erro nas traduções: «Oferecera-me uma cana de bambu na semana anterior — não porque eu tivesse feito anos ou algo no género, mas apenas porque às vezes gostava de me oferecer coisas — e eu estava mortinho por experimentá-la em Castle Stream, que era de longe o riacho com mais trutas que conhecia» (Tudo É Fatal, Stephen King. Tradução de Luís Santos e revisão de Manuela Ramos. Lisboa: Círculo de Leitores, 2008, p. 50).

«Fiscal» e «fiscalizador»


Caso único

A generalidade da imprensa prefere designar os agentes de fiscalização Empresa Municipal de Estacionamento de Lisboa (EMEL) como fiscalizadores, talvez porque ache que já há muitas entidades com fiscais. Embora sejam ambos substantivos, a verdade é que fiscal, que também é adjectivo (vide locuções conselho fiscal e paraíso fiscal, v. g.), tem um âmbito de aplicação mais abrangente.

Ortografia: «ai-jesus»

Ai-ai

      «Ou o de Patrícia Bragança, advogada, formada em Toulouse (França) e o “ai Jesus” dos empresários com negócios em Andorra e Portugal» («Andorra, o país dos portugueses», Filipe Luís, Visão, 2.04.2009, p. 60). Está mal, caro Filipe Luís: escreve-se ai-jesus e significa «o mais querido, o predilecto». Como interjeição, escreve-se da mesma maneira.

Actualização em 26.2.2010

      «O bombeiro José Manuel Ferreira é, por estes dias, o herói da aldeia. Desde segunda-feira que as águas do rio Tejo inundaram os campos e as estradas de acesso. “Somos o ai-jesus destas pessoas, quase todas já muito idosas e a precisarem de atenção, por isso, fazemos tudo para que as pessoas possam manter a sua vida o mais normal possível e não se deixem desanimar pelo isolamento”, diz ao DN o bombeiro de 52 anos. Vai buscar botijas de gás, avia receitas na farmácia, vai às compras à mercearia, regista o Euromilhões…» («Tejo transformou Reguengo em ilha sem qualquer ponte», João Baptista, Diário de Notícias, 26.2.2010, p. 21).

Léxico: «molinologia»

Ao vento

«Esta explicação é-nos dada por Jorge Miranda, 44 anos, um especialista nacional em molinologia, com formação em Antropologia, e um apaixonado por tudo o que diz respeito a estas máquinas» («Velas ao vento», Susana Lopes Faustino, Visão/suplemento «Visão Sete», 2.04.2009, p. 3). A molinologia é uma área de estudo da etnotecnologia que se dedica ao conhecimento dos moinhos tradicionais nos seus aspectos técnicos, sociais e culturais. Há mesmo uma rede portuguesa de moinhos (ver aqui), que edita uma revista anual. Sempre senti um grande fascínio por moinhos. O único tipo de moinhos com que estou familiarizado é o moinho de armação, ou do tipo americano, como também é designado.

«Riviera Inglesa»


Já vimos isto

      A ilustrar uma fotografia de António Cluny, até agora presidente do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público, lê-se na revista Tabu: «Aos 16 anos, num Verão em que foi com um amigo trabalhar em Inglaterra, como empregado num hotel de luxo — o Imperial, em Torquay (na região sudeste, a chamada Riviera inglesa)» («“Sentimos que o PS ia vingar-se», Ana Paula Azevedo, Tabu, 10.04.2009, p. 27). Na verdade, a cidade de Torquay, onde Agatha Christie nasceu em 1890, no litoral sudeste de Inglaterra, é conhecida como Riviera Inglesa. Agatha Christie, a Rainha do Crime (Queen of Crime ou Queen of the Whodunnit, em inglês), não é assim? Dois prosónimos: Riviera Francesa e Rainha do Crime.

Arquivo do blogue