«Castle Stream»?

Stream of consciousness

O meu olhar pousou na palavra «rio» e foi imediato: lembrei-me logo do que tinha anotado há dias. Mas comecemos pelo princípio: se numa obra que estivessem a traduzir aparecesse o nome de um curso de água, Castle Stream, digamos, o que fariam? Deixavam assim, no original? Sim? Então também ficaria por traduzir, em qualquer texto, River Cam ou River Thames, é isso? (Ah, gostava mesmo de viver num narrowboat ancorado no Cam!) Vejo frequentemente este erro nas traduções: «Oferecera-me uma cana de bambu na semana anterior — não porque eu tivesse feito anos ou algo no género, mas apenas porque às vezes gostava de me oferecer coisas — e eu estava mortinho por experimentá-la em Castle Stream, que era de longe o riacho com mais trutas que conhecia» (Tudo É Fatal, Stephen King. Tradução de Luís Santos e revisão de Manuela Ramos. Lisboa: Círculo de Leitores, 2008, p. 50).

«Fiscal» e «fiscalizador»


Caso único

A generalidade da imprensa prefere designar os agentes de fiscalização Empresa Municipal de Estacionamento de Lisboa (EMEL) como fiscalizadores, talvez porque ache que já há muitas entidades com fiscais. Embora sejam ambos substantivos, a verdade é que fiscal, que também é adjectivo (vide locuções conselho fiscal e paraíso fiscal, v. g.), tem um âmbito de aplicação mais abrangente.

Ortografia: «ai-jesus»

Ai-ai

      «Ou o de Patrícia Bragança, advogada, formada em Toulouse (França) e o “ai Jesus” dos empresários com negócios em Andorra e Portugal» («Andorra, o país dos portugueses», Filipe Luís, Visão, 2.04.2009, p. 60). Está mal, caro Filipe Luís: escreve-se ai-jesus e significa «o mais querido, o predilecto». Como interjeição, escreve-se da mesma maneira.

Actualização em 26.2.2010

      «O bombeiro José Manuel Ferreira é, por estes dias, o herói da aldeia. Desde segunda-feira que as águas do rio Tejo inundaram os campos e as estradas de acesso. “Somos o ai-jesus destas pessoas, quase todas já muito idosas e a precisarem de atenção, por isso, fazemos tudo para que as pessoas possam manter a sua vida o mais normal possível e não se deixem desanimar pelo isolamento”, diz ao DN o bombeiro de 52 anos. Vai buscar botijas de gás, avia receitas na farmácia, vai às compras à mercearia, regista o Euromilhões…» («Tejo transformou Reguengo em ilha sem qualquer ponte», João Baptista, Diário de Notícias, 26.2.2010, p. 21).

Léxico: «molinologia»

Ao vento

«Esta explicação é-nos dada por Jorge Miranda, 44 anos, um especialista nacional em molinologia, com formação em Antropologia, e um apaixonado por tudo o que diz respeito a estas máquinas» («Velas ao vento», Susana Lopes Faustino, Visão/suplemento «Visão Sete», 2.04.2009, p. 3). A molinologia é uma área de estudo da etnotecnologia que se dedica ao conhecimento dos moinhos tradicionais nos seus aspectos técnicos, sociais e culturais. Há mesmo uma rede portuguesa de moinhos (ver aqui), que edita uma revista anual. Sempre senti um grande fascínio por moinhos. O único tipo de moinhos com que estou familiarizado é o moinho de armação, ou do tipo americano, como também é designado.

«Riviera Inglesa»


Já vimos isto

      A ilustrar uma fotografia de António Cluny, até agora presidente do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público, lê-se na revista Tabu: «Aos 16 anos, num Verão em que foi com um amigo trabalhar em Inglaterra, como empregado num hotel de luxo — o Imperial, em Torquay (na região sudeste, a chamada Riviera inglesa)» («“Sentimos que o PS ia vingar-se», Ana Paula Azevedo, Tabu, 10.04.2009, p. 27). Na verdade, a cidade de Torquay, onde Agatha Christie nasceu em 1890, no litoral sudeste de Inglaterra, é conhecida como Riviera Inglesa. Agatha Christie, a Rainha do Crime (Queen of Crime ou Queen of the Whodunnit, em inglês), não é assim? Dois prosónimos: Riviera Francesa e Rainha do Crime.

«Mestrar-se»?

Culpa de Bolonha


      A jornalista afiança que ela fala «num português que domina perfeitamente, com travo algarvio», e nós acreditamos: «Não se queixa, sabe exactamente o que quer: uma licenciatura. “Tenciono mestrar-me, doutorar-me e ser pianista”, afirma [Alena Khmelinskaia, melhor aluna do País, com média de 19,7 valores, em 2007/2008]» («Uma aluna com nota máxima», Ana Cristina Câmara, Tabu, 10.04.2009, p. 17). Se temos os verbos pronominais licenciar-se e doutorar-se, não vejo porque não criar um mestrar-se.

Compostos

Isto é cor de terra-de-siena queimado (diz-se)

Tons compostos

«A cera de abelhas e a goma-laca (uma substância segregada por uma árvore que cresce no Extremo Oriente) são os produtos mais usados, mas por vezes também se recorre às terras de Siena ou da Úmbria (Itália), consoante o tom pretendido» («Artesãos à moda antiga», João Cabrita Saraiva, Tabu, 10.04.2009, p. 51). Consigna o Acordo Ortográfico de 1945, na Base XXVIII: «Emprega-se o hífen nos compostos em que entram, foneticamente distintos (e, portanto, com acentos gráficos, se os têm à parte), dois ou mais substantivos, ligados ou não por preposição ou outro elemento, um substantivo e um adjectivo, um adjectivo e um substantivo, dois adjectivos ou um adjectivo e um substantivo com valor adjectivo, uma forma verbal e um substantivo, duas formas verbais, ou ainda outras combinações de palavras, e em que o conjunto dos elementos, mantida a noção da composição, forma um sentido único ou uma aderência de sentidos.» E seguem-se dezenas de exemplos. Terra-de-siena, pelo menos, está registado em alguns dicionários, e decerto que, por analogia, será legítimo e até conveniente grafar também terra-de-úmbria. Como também se grafa terra-de-siena, terra-inglesa, terra-de-sevilha e terra-japónica.

«Colete-de-forças» e «camisa-de-forças»

Imagem: http://madmaxine.files.wordpress.com/


Vais para o Telhal…


      Uma camisa é o mesmo que um colete? É uma pergunta doida, é isso que estão a pensar? Há dias, uma leitora, M. A., perguntou-me como se diz (mas está nos dicionários…) «camisa-de-forças» em inglês. Comecei a pensar na questão e ocorreu-me que em português tanto se diz colete-de-forças como camisa-de-forças. Quanto à língua inglesa, vi que também há dois termos: strait-waistcoat e straitjacket. E agora a quem é que eu pergunto se «camisa-de-forças» e «colete-de-forças» designam o mesmo? Será que o guia do Museu S. João de Deus — Psiquiatria e História, a funcionar na Casa de Saúde do Telhal, em Sintra, me pode ajudar? Ah, a propósito, gostava de ter conhecido o poeta António Gancho (que morreu três dias depois de o Assim Mesmo ter nascido, e só espero que não tenha havido nenhuma relação de causa-efeito). Mas conheço um enfermeiro que conheceu o poeta (como conheço uma pessoa que conhece Nelson Mandela), o que quase me faz acreditar naquela teoria, inventada por algum ocioso, que afirma que entre quaisquer pessoas se interpõem, no máximo, sete (ou serão quatro?) pessoas.

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