«Mestrar-se»?

Culpa de Bolonha


      A jornalista afiança que ela fala «num português que domina perfeitamente, com travo algarvio», e nós acreditamos: «Não se queixa, sabe exactamente o que quer: uma licenciatura. “Tenciono mestrar-me, doutorar-me e ser pianista”, afirma [Alena Khmelinskaia, melhor aluna do País, com média de 19,7 valores, em 2007/2008]» («Uma aluna com nota máxima», Ana Cristina Câmara, Tabu, 10.04.2009, p. 17). Se temos os verbos pronominais licenciar-se e doutorar-se, não vejo porque não criar um mestrar-se.

Compostos

Isto é cor de terra-de-siena queimado (diz-se)

Tons compostos

«A cera de abelhas e a goma-laca (uma substância segregada por uma árvore que cresce no Extremo Oriente) são os produtos mais usados, mas por vezes também se recorre às terras de Siena ou da Úmbria (Itália), consoante o tom pretendido» («Artesãos à moda antiga», João Cabrita Saraiva, Tabu, 10.04.2009, p. 51). Consigna o Acordo Ortográfico de 1945, na Base XXVIII: «Emprega-se o hífen nos compostos em que entram, foneticamente distintos (e, portanto, com acentos gráficos, se os têm à parte), dois ou mais substantivos, ligados ou não por preposição ou outro elemento, um substantivo e um adjectivo, um adjectivo e um substantivo, dois adjectivos ou um adjectivo e um substantivo com valor adjectivo, uma forma verbal e um substantivo, duas formas verbais, ou ainda outras combinações de palavras, e em que o conjunto dos elementos, mantida a noção da composição, forma um sentido único ou uma aderência de sentidos.» E seguem-se dezenas de exemplos. Terra-de-siena, pelo menos, está registado em alguns dicionários, e decerto que, por analogia, será legítimo e até conveniente grafar também terra-de-úmbria. Como também se grafa terra-de-siena, terra-inglesa, terra-de-sevilha e terra-japónica.

«Colete-de-forças» e «camisa-de-forças»

Imagem: http://madmaxine.files.wordpress.com/


Vais para o Telhal…


      Uma camisa é o mesmo que um colete? É uma pergunta doida, é isso que estão a pensar? Há dias, uma leitora, M. A., perguntou-me como se diz (mas está nos dicionários…) «camisa-de-forças» em inglês. Comecei a pensar na questão e ocorreu-me que em português tanto se diz colete-de-forças como camisa-de-forças. Quanto à língua inglesa, vi que também há dois termos: strait-waistcoat e straitjacket. E agora a quem é que eu pergunto se «camisa-de-forças» e «colete-de-forças» designam o mesmo? Será que o guia do Museu S. João de Deus — Psiquiatria e História, a funcionar na Casa de Saúde do Telhal, em Sintra, me pode ajudar? Ah, a propósito, gostava de ter conhecido o poeta António Gancho (que morreu três dias depois de o Assim Mesmo ter nascido, e só espero que não tenha havido nenhuma relação de causa-efeito). Mas conheço um enfermeiro que conheceu o poeta (como conheço uma pessoa que conhece Nelson Mandela), o que quase me faz acreditar naquela teoria, inventada por algum ocioso, que afirma que entre quaisquer pessoas se interpõem, no máximo, sete (ou serão quatro?) pessoas.

«Pastorear» e «pastar» (II)

Até o cão fica perplexo...


      «Além dos estudos, Nuno dedicou-se ao futsal, como guarda-redes, e começou a trabalhar. Esteve no armazém e na brigada geral, onde fez “de tudo um pouco”, de jardinagem a trabalhos de limpeza, passou pelo bar dos presos — “com mais responsabilidade porque mexe com dinheiro” —, e até pastou cabras» («Do lado de fora», Alexandra Simões de Abreu, Única, 25.04.2009, p. 30). Um dia, a propósito do mesmo erro noutro texto, pedi uma ilustração a José Bandeira. Lá estão os pastores a pastar, uma ovelha a pastorear e o cão, perplexo mas, valha-nos isso, a fazer de cão. Deixo o mesmo comentário: Até à 4.ª classe era compreensível — mas depois disso?...

De «bowling» a «bólingue»

É que se são…

      «É o Colombo que procuram em tempo de férias, porque querem ir ao cinema, jogar bowling no Funcenter e almoçar por pouco dinheiro nos vários espaços de fast food da Praça da Alimentação, piso 2» («A minha rua é o Colombo», Maria Barbosa, Única, 25.04.2009, p. 35). Muito me estranha que na Única não se escreva bólingue: «Agora que os dias começam a ficar mais pequenos estou a pensar em recomeçar a jogar bólingue» (Tudo É Fatal, Stephen King. Tradução de Luís Santos e revisão de Manuela Ramos. Lisboa: Círculo de Leitores, 2008, p. 99). «“Bólingue”, que horror!», exclamarão alguns — mas não serão os mesmo que ignoram que já no tempo dos pais (!) se passou a escrever, por exemplo, Sara em vez (ou com mais frequência) de Sahara ou Saara? «Hélder Ferreira e Fernando Silva querem sobreviver à aventura do Sara» («Dois portugueses no Sara para a maratona mais dura do mundo», António Pedro Pereira, Diário de Notícias, 30.3.2008, p. 47). Por outro lado… Bem, por outro lado, nas traduções publicadas pelo Círculo de Leitores, nunca se lê uísque, aportuguesamento proibido.

Léxico: «libra-peso»

Adivinhamos, é?

E a propósito de os jornalistas nem sempre explicarem vocábulos que utilizam, estava aqui a ler que «o lançamento do peso foi integrado nos Jogos Olímpicos (JO) da era moderna na primeira edição, em Atenas 1896, seguindo as regras britânicas, incluindo o peso, correspondente a 16 libras inglesas [7,26 quilos], precisamente o que pesavam os projécteis dos famosos canhões britânicos do início do século XIX» (texto da autoria do jornalista Luís Óscar que irá sair na próxima edição da revista Além-Mar), e lembrei-me do termo «libra-peso», utilizado na semana passada no Diário de Notícias — não tendo o jornalista explicado a quanto equivale: «Desta vez, o aumento não foi tão acentuado, fechando o mês de Abril acima de 1,11 dólares por libra-peso» («Café aumenta, preço da bica não», António Rodrigues, Diário de Notícias, 18.05.2009, p. 32). Cada libra-peso tem 453,597 g, e o jornalista devia tê-lo indicado. (Vejam as definições relativas ao comércio de café neste diploma legal.)

Função fática

Pois, sim, sim, ai é?

A propósito (às vezes escrevo a propósito) de Os Dias do Futuro. É quase intuitivo, mas mais apurado e intencional num profissional da rádio, usar-se a função fática da linguagem, isto é, assegurar ao interlocutor que se está a manter o contacto, que se está atento. Contudo, se isso é imprescindível numa conversa telefónica, não tenho assim tanta certeza se é útil na rádio. Edgar Canelas, vi-o agora mais uma vez, atira «exactos» a esmo para cima dos entrevistados. Não no fim de afirmações — mas no início ou a meio. É até perigoso. Imaginem que um entrevistado lunático começava por dizer: «Todas as crianças com quociente de inteligência…» E aqui Edgar Canelas interrompia, jovial e solícito: «Exacto.» E o lunático eugenista concluía, estimulado pelo encorajamento do precipitado jornalista: «… inferior a 120 deviam ser internadas num campo de concentração.» Maria Flor Pedroso não pontua as intervenções dos entrevistados com «exactos», mas com deselegantes «huns». Se fosse eu a emiti-los, diria que se assemelhariam aos simpáticos grunhidos de um tatu. Assim, não me atrevo.

Léxico: «zoótipo»

Homem-Aranha

Na emissão de ontem do programa da Antena 1 Os Dias do Futuro, Edgar Canelas entrevistou Luís Crespo, o biólogo que descobriu no Jardim Botânico da Universidade de Coimbra duas novas espécies de aranhas, a Tegenaria barrientosi e a Parapelecopsis conimbricensis. (O nome da primeira é uma homenagem ao entomólogo espanhol José Antonio Barrientos.) A determinada altura da entrevista, usou um termo técnico, zoótipo, mas, ao contrário de muitos jornalistas, que deviam estar sensibilizados para o fazerem, explicou o que significa: «Nós, aqui em Portugal, estamos um bocado limitados a nível tanto de bibliografia como de acesso a colecções de museu, a colecções referenciadas que tenham os zoótipos da espécie. Os zoótipos são os espécimes nos quais se baseou a descrição da espécie.» Quando não explicou, a culpa foi do jornalista: «Já agora: o tamanho da aranha mede-se sem contar com as patas. Mede-se do início do cefalotórax [parte anterior do corpo de alguns animais, que corresponde à fusão, entre si, da cabeça e do tórax] ou do prossoma [parte anterior do corpo de diversos invertebrados] [...] até ao final do abdómen.»

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