«Pastorear» e «pastar» (II)

Até o cão fica perplexo...


      «Além dos estudos, Nuno dedicou-se ao futsal, como guarda-redes, e começou a trabalhar. Esteve no armazém e na brigada geral, onde fez “de tudo um pouco”, de jardinagem a trabalhos de limpeza, passou pelo bar dos presos — “com mais responsabilidade porque mexe com dinheiro” —, e até pastou cabras» («Do lado de fora», Alexandra Simões de Abreu, Única, 25.04.2009, p. 30). Um dia, a propósito do mesmo erro noutro texto, pedi uma ilustração a José Bandeira. Lá estão os pastores a pastar, uma ovelha a pastorear e o cão, perplexo mas, valha-nos isso, a fazer de cão. Deixo o mesmo comentário: Até à 4.ª classe era compreensível — mas depois disso?...

De «bowling» a «bólingue»

É que se são…

      «É o Colombo que procuram em tempo de férias, porque querem ir ao cinema, jogar bowling no Funcenter e almoçar por pouco dinheiro nos vários espaços de fast food da Praça da Alimentação, piso 2» («A minha rua é o Colombo», Maria Barbosa, Única, 25.04.2009, p. 35). Muito me estranha que na Única não se escreva bólingue: «Agora que os dias começam a ficar mais pequenos estou a pensar em recomeçar a jogar bólingue» (Tudo É Fatal, Stephen King. Tradução de Luís Santos e revisão de Manuela Ramos. Lisboa: Círculo de Leitores, 2008, p. 99). «“Bólingue”, que horror!», exclamarão alguns — mas não serão os mesmo que ignoram que já no tempo dos pais (!) se passou a escrever, por exemplo, Sara em vez (ou com mais frequência) de Sahara ou Saara? «Hélder Ferreira e Fernando Silva querem sobreviver à aventura do Sara» («Dois portugueses no Sara para a maratona mais dura do mundo», António Pedro Pereira, Diário de Notícias, 30.3.2008, p. 47). Por outro lado… Bem, por outro lado, nas traduções publicadas pelo Círculo de Leitores, nunca se lê uísque, aportuguesamento proibido.

Léxico: «libra-peso»

Adivinhamos, é?

E a propósito de os jornalistas nem sempre explicarem vocábulos que utilizam, estava aqui a ler que «o lançamento do peso foi integrado nos Jogos Olímpicos (JO) da era moderna na primeira edição, em Atenas 1896, seguindo as regras britânicas, incluindo o peso, correspondente a 16 libras inglesas [7,26 quilos], precisamente o que pesavam os projécteis dos famosos canhões britânicos do início do século XIX» (texto da autoria do jornalista Luís Óscar que irá sair na próxima edição da revista Além-Mar), e lembrei-me do termo «libra-peso», utilizado na semana passada no Diário de Notícias — não tendo o jornalista explicado a quanto equivale: «Desta vez, o aumento não foi tão acentuado, fechando o mês de Abril acima de 1,11 dólares por libra-peso» («Café aumenta, preço da bica não», António Rodrigues, Diário de Notícias, 18.05.2009, p. 32). Cada libra-peso tem 453,597 g, e o jornalista devia tê-lo indicado. (Vejam as definições relativas ao comércio de café neste diploma legal.)

Função fática

Pois, sim, sim, ai é?

A propósito (às vezes escrevo a propósito) de Os Dias do Futuro. É quase intuitivo, mas mais apurado e intencional num profissional da rádio, usar-se a função fática da linguagem, isto é, assegurar ao interlocutor que se está a manter o contacto, que se está atento. Contudo, se isso é imprescindível numa conversa telefónica, não tenho assim tanta certeza se é útil na rádio. Edgar Canelas, vi-o agora mais uma vez, atira «exactos» a esmo para cima dos entrevistados. Não no fim de afirmações — mas no início ou a meio. É até perigoso. Imaginem que um entrevistado lunático começava por dizer: «Todas as crianças com quociente de inteligência…» E aqui Edgar Canelas interrompia, jovial e solícito: «Exacto.» E o lunático eugenista concluía, estimulado pelo encorajamento do precipitado jornalista: «… inferior a 120 deviam ser internadas num campo de concentração.» Maria Flor Pedroso não pontua as intervenções dos entrevistados com «exactos», mas com deselegantes «huns». Se fosse eu a emiti-los, diria que se assemelhariam aos simpáticos grunhidos de um tatu. Assim, não me atrevo.

Léxico: «zoótipo»

Homem-Aranha

Na emissão de ontem do programa da Antena 1 Os Dias do Futuro, Edgar Canelas entrevistou Luís Crespo, o biólogo que descobriu no Jardim Botânico da Universidade de Coimbra duas novas espécies de aranhas, a Tegenaria barrientosi e a Parapelecopsis conimbricensis. (O nome da primeira é uma homenagem ao entomólogo espanhol José Antonio Barrientos.) A determinada altura da entrevista, usou um termo técnico, zoótipo, mas, ao contrário de muitos jornalistas, que deviam estar sensibilizados para o fazerem, explicou o que significa: «Nós, aqui em Portugal, estamos um bocado limitados a nível tanto de bibliografia como de acesso a colecções de museu, a colecções referenciadas que tenham os zoótipos da espécie. Os zoótipos são os espécimes nos quais se baseou a descrição da espécie.» Quando não explicou, a culpa foi do jornalista: «Já agora: o tamanho da aranha mede-se sem contar com as patas. Mede-se do início do cefalotórax [parte anterior do corpo de alguns animais, que corresponde à fusão, entre si, da cabeça e do tórax] ou do prossoma [parte anterior do corpo de diversos invertebrados] [...] até ao final do abdómen.»

Pontos invertidos (II) e curva tonal

Devolvam-no-los




      Já aqui lembrei que só com o Acordo Ortográfico de 1945, e mais precisamente com a sua Base XLIX, é que foram expressamente abolidas as formas invertidas do ponto de interrogação e do ponto de exclamação, que passaram a ser apenas usados nas suas formas normais (? e !) para assinalar o fim de interrogações ou exclamações. Vejam agora este exemplo: «Pois bem: ¿há quem possa formar qualquer ideia clara do que seja um meio termo entre uma coisa e a outra?» (Odes Modernas, Antero de Quental. Edição fac-símile da edição organizada, prefaciada e anotada por António Sérgio [1943], Sá da Costa Editora, 2009, p. 206). Não é — por, sendo embora uma interrogativa parcial, ter os dois-pontos a indicar o fim da prótase, ou primeira parte do período gramatical — o melhor exemplo, mas serve para aferir da utilidade quando a frase for parcialmente interrogativa, pois na leitura em voz alta, se não conhece o texto, quem lê não sabe onde começa a curva ascendente na entoação.
      Nem todas as mudanças são boas, é o que se pode concluir. Afinal, os Espanhóis passaram por uma evolução diferente, já que somente no século XVIII passaram a usar os pontos invertidos.


Plural de palavras estrangeiras (II)

Imagem: http://www.ci.santa-ana.ca.us/

Nem pensar



      Já aqui alertei para a formação do plural de palavras estrangeiras. Até escrevi: «Também acontece muitas vezes, para formar o plural, juntar-se-lhe um s, o que pode não se adequar ao original (pensemos no italianismo graffiti).» Eis que leio no Público: «Damos a volta ao quarteirão. Nas traseiras, a onda que o Bonjour Tristesse [nome dado ao edifício, em Berlim, que constituiu o primeiro projecto arquitectónico de Siza Viera fora de Portugal] desenha na sua fachada principal, enrola-se ao contrário, para dentro, e os grafittis ainda não invadiram muito a pintura» («“Obrigada, arquitecto Siza, por ter feito uma casa tão bonita”», Alexandra Prado Coelho, 8.03.2009, Público/P2, p. 8). Para agravar, a palavra não tem dois tês, mas sim dois efes. Erro que também se lê num texto, «Ortografia, a nossa impressão digital», de Lídia Jorge: «Procuraria evitar a todo o custo que a única assinatura de um jovem, num futuro próximo, fosse apenas um grafitti na parede.»

Espécies botânicas e zoológicas (II)

Qual o critério?



      Ainda a propósito da grafia dos nomes das espécies botânicas e zoológicas, vejam a completa incoerência neste texto publicado no jornal Público: «Entramos no Jardim Botânico do Porto como quem embarca numa volta ao mundo. Ali, (quase) tudo tem nomes que evocam terras longínquas: madressilva dos Himalaias, cedro do Líbano, freixo dos Himalaias, tamareira-das-Canárias, feto-arbóreo-da-Tasmânia, medronheiro-do-Texas, hibisco rosa da Síria (que, por acaso, é da China e Taiwan» («Jardim Botânico do Porto», Andreia Marques Pereira, Público/suplemento «Biodiversidade», 22.05.2009, p. 16).


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