Função fática

Pois, sim, sim, ai é?

A propósito (às vezes escrevo a propósito) de Os Dias do Futuro. É quase intuitivo, mas mais apurado e intencional num profissional da rádio, usar-se a função fática da linguagem, isto é, assegurar ao interlocutor que se está a manter o contacto, que se está atento. Contudo, se isso é imprescindível numa conversa telefónica, não tenho assim tanta certeza se é útil na rádio. Edgar Canelas, vi-o agora mais uma vez, atira «exactos» a esmo para cima dos entrevistados. Não no fim de afirmações — mas no início ou a meio. É até perigoso. Imaginem que um entrevistado lunático começava por dizer: «Todas as crianças com quociente de inteligência…» E aqui Edgar Canelas interrompia, jovial e solícito: «Exacto.» E o lunático eugenista concluía, estimulado pelo encorajamento do precipitado jornalista: «… inferior a 120 deviam ser internadas num campo de concentração.» Maria Flor Pedroso não pontua as intervenções dos entrevistados com «exactos», mas com deselegantes «huns». Se fosse eu a emiti-los, diria que se assemelhariam aos simpáticos grunhidos de um tatu. Assim, não me atrevo.

Léxico: «zoótipo»

Homem-Aranha

Na emissão de ontem do programa da Antena 1 Os Dias do Futuro, Edgar Canelas entrevistou Luís Crespo, o biólogo que descobriu no Jardim Botânico da Universidade de Coimbra duas novas espécies de aranhas, a Tegenaria barrientosi e a Parapelecopsis conimbricensis. (O nome da primeira é uma homenagem ao entomólogo espanhol José Antonio Barrientos.) A determinada altura da entrevista, usou um termo técnico, zoótipo, mas, ao contrário de muitos jornalistas, que deviam estar sensibilizados para o fazerem, explicou o que significa: «Nós, aqui em Portugal, estamos um bocado limitados a nível tanto de bibliografia como de acesso a colecções de museu, a colecções referenciadas que tenham os zoótipos da espécie. Os zoótipos são os espécimes nos quais se baseou a descrição da espécie.» Quando não explicou, a culpa foi do jornalista: «Já agora: o tamanho da aranha mede-se sem contar com as patas. Mede-se do início do cefalotórax [parte anterior do corpo de alguns animais, que corresponde à fusão, entre si, da cabeça e do tórax] ou do prossoma [parte anterior do corpo de diversos invertebrados] [...] até ao final do abdómen.»

Pontos invertidos (II) e curva tonal

Devolvam-no-los




      Já aqui lembrei que só com o Acordo Ortográfico de 1945, e mais precisamente com a sua Base XLIX, é que foram expressamente abolidas as formas invertidas do ponto de interrogação e do ponto de exclamação, que passaram a ser apenas usados nas suas formas normais (? e !) para assinalar o fim de interrogações ou exclamações. Vejam agora este exemplo: «Pois bem: ¿há quem possa formar qualquer ideia clara do que seja um meio termo entre uma coisa e a outra?» (Odes Modernas, Antero de Quental. Edição fac-símile da edição organizada, prefaciada e anotada por António Sérgio [1943], Sá da Costa Editora, 2009, p. 206). Não é — por, sendo embora uma interrogativa parcial, ter os dois-pontos a indicar o fim da prótase, ou primeira parte do período gramatical — o melhor exemplo, mas serve para aferir da utilidade quando a frase for parcialmente interrogativa, pois na leitura em voz alta, se não conhece o texto, quem lê não sabe onde começa a curva ascendente na entoação.
      Nem todas as mudanças são boas, é o que se pode concluir. Afinal, os Espanhóis passaram por uma evolução diferente, já que somente no século XVIII passaram a usar os pontos invertidos.


Plural de palavras estrangeiras (II)

Imagem: http://www.ci.santa-ana.ca.us/

Nem pensar



      Já aqui alertei para a formação do plural de palavras estrangeiras. Até escrevi: «Também acontece muitas vezes, para formar o plural, juntar-se-lhe um s, o que pode não se adequar ao original (pensemos no italianismo graffiti).» Eis que leio no Público: «Damos a volta ao quarteirão. Nas traseiras, a onda que o Bonjour Tristesse [nome dado ao edifício, em Berlim, que constituiu o primeiro projecto arquitectónico de Siza Viera fora de Portugal] desenha na sua fachada principal, enrola-se ao contrário, para dentro, e os grafittis ainda não invadiram muito a pintura» («“Obrigada, arquitecto Siza, por ter feito uma casa tão bonita”», Alexandra Prado Coelho, 8.03.2009, Público/P2, p. 8). Para agravar, a palavra não tem dois tês, mas sim dois efes. Erro que também se lê num texto, «Ortografia, a nossa impressão digital», de Lídia Jorge: «Procuraria evitar a todo o custo que a única assinatura de um jovem, num futuro próximo, fosse apenas um grafitti na parede.»

Espécies botânicas e zoológicas (II)

Qual o critério?



      Ainda a propósito da grafia dos nomes das espécies botânicas e zoológicas, vejam a completa incoerência neste texto publicado no jornal Público: «Entramos no Jardim Botânico do Porto como quem embarca numa volta ao mundo. Ali, (quase) tudo tem nomes que evocam terras longínquas: madressilva dos Himalaias, cedro do Líbano, freixo dos Himalaias, tamareira-das-Canárias, feto-arbóreo-da-Tasmânia, medronheiro-do-Texas, hibisco rosa da Síria (que, por acaso, é da China e Taiwan» («Jardim Botânico do Porto», Andreia Marques Pereira, Público/suplemento «Biodiversidade», 22.05.2009, p. 16).


«Chef» e «chefe»

Estamos na cozinha




      «O conceituado chefe de cozinha Vítor sobral deixa por agora o restaurante Terreiro do Paço, encerrado desde Fevereiro por causa das obras na Praça do Comércio, para se dedicar a um novo projecto, desta vez em Campo de Ourique» («Vítor Sobral troca Terreiro do Paço por um espaço de petiscos em Campo de Ourique», Ana Henriques, Público, 22.05.2009, p. 24). A locução chefe de cozinha ocorre com frequência. Já apenas chefe para designar o «grande cozinheiro encarregado da direcção da cozinha de um restaurante, um hotel, uma residência, notáveis pela qualidade da alimentação» (na definição do Dicionário Houaiss) é muito raro, preferindo-se-lhe o galicismo chef. (Em espanhol também se usa o galicismo chef ou, como única alternativa, maestro de cocina.) Durante muito tempo, na língua francesa apenas se usava a locução chef de cuisine, e só no século XIX se passou a usar em termos absolutos chef na mesma acepção. Talvez esteja na hora de fazermos o mesmo.


Pronome relativo sem antecedente

Inédito

«Quem quiser fazer cortes de árvores nas suas terras, em áreas superiores a cinco hectares e que não tenham plano de gestão florestal — ainda a maioria dos casos —, terão de pedir autorização à Autoridade Florestal Nacional» («Produtores receiam que novo Código Florestal paralise mercado de madeira», Ana Fernandes, Público, 22.05.2009, p. 37). A língua é inesgotável, e os erros também. Quem é, na frase, um pronome relativo sem antecedente, e, quando ocorre este emprego absoluto, é considerado como sendo do género masculino e de número singular, pelo que se terá de fazer a concordância verbal: tenha e terá.

Léxico: «serra de Gigli»

Imagem: http://img.tfd.com/

Não queiram senti-la


«É uma serra Gigli. Usam-na para serrar a parte de cima do crânio, depois de puxarem a nossa cara como se fosse uma máscara da Noite das Bruxas, claro, com cabelo e tudo» (Tudo É Fatal, Stephen King. Tradução de Luís Santos e revisão de Manuela Ramos. Lisboa: Círculo de Leitores, 2008, p. 28). Em todo o lado leio «serra de Gigli». A imagem e a explicação de Stephen King são sugestivas. A serra ou fio-serra de Gigli deve o nome ao ginecologista italiano Leonardo Gigli (1863–1908).

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