«Chef» e «chefe»

Estamos na cozinha




      «O conceituado chefe de cozinha Vítor sobral deixa por agora o restaurante Terreiro do Paço, encerrado desde Fevereiro por causa das obras na Praça do Comércio, para se dedicar a um novo projecto, desta vez em Campo de Ourique» («Vítor Sobral troca Terreiro do Paço por um espaço de petiscos em Campo de Ourique», Ana Henriques, Público, 22.05.2009, p. 24). A locução chefe de cozinha ocorre com frequência. Já apenas chefe para designar o «grande cozinheiro encarregado da direcção da cozinha de um restaurante, um hotel, uma residência, notáveis pela qualidade da alimentação» (na definição do Dicionário Houaiss) é muito raro, preferindo-se-lhe o galicismo chef. (Em espanhol também se usa o galicismo chef ou, como única alternativa, maestro de cocina.) Durante muito tempo, na língua francesa apenas se usava a locução chef de cuisine, e só no século XIX se passou a usar em termos absolutos chef na mesma acepção. Talvez esteja na hora de fazermos o mesmo.


Pronome relativo sem antecedente

Inédito

«Quem quiser fazer cortes de árvores nas suas terras, em áreas superiores a cinco hectares e que não tenham plano de gestão florestal — ainda a maioria dos casos —, terão de pedir autorização à Autoridade Florestal Nacional» («Produtores receiam que novo Código Florestal paralise mercado de madeira», Ana Fernandes, Público, 22.05.2009, p. 37). A língua é inesgotável, e os erros também. Quem é, na frase, um pronome relativo sem antecedente, e, quando ocorre este emprego absoluto, é considerado como sendo do género masculino e de número singular, pelo que se terá de fazer a concordância verbal: tenha e terá.

Léxico: «serra de Gigli»

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Não queiram senti-la


«É uma serra Gigli. Usam-na para serrar a parte de cima do crânio, depois de puxarem a nossa cara como se fosse uma máscara da Noite das Bruxas, claro, com cabelo e tudo» (Tudo É Fatal, Stephen King. Tradução de Luís Santos e revisão de Manuela Ramos. Lisboa: Círculo de Leitores, 2008, p. 28). Em todo o lado leio «serra de Gigli». A imagem e a explicação de Stephen King são sugestivas. A serra ou fio-serra de Gigli deve o nome ao ginecologista italiano Leonardo Gigli (1863–1908).

Advérbio interrogativo de causa

Ora aqui têm

      «Porque, pois, trás da sombra ides correndo,/Homens, que a luz no berço baptizara?» («Pater», Odes Modernas, Antero de Quental, edição fac-símile, Sá da Costa Editora, 2009, p. 71). Muito bom serviço à cultura e à língua portuguesas esta edição fac-símile, que reproduz outra que foi organizada, prefaciada e anotada por António Sérgio. Ora vejam, caros teimosos, como o advérbio interrogativo está grafado porque. Já tinha prometido a mim próprio não abordar esta questão, mas nem sempre conseguimos cumprir. Sim, é verdade, esta edição da Sá da Costa reproduz a de 1943. Querem ir mais para trás? Vamos! Na 1.ª edição: «Porque, pois, trás da sombra ides correndo,/Homens, que a luz no berço baptizára?» (Odes Modernas, Anthero do Quental. Coimbra: Imprensa da Universidade, 1865, p. 48). Lapso? Deixem-me rir! Outro exemplo da edição da Sá da Costa: «Porque morreu sem o eco de teus passos,/E de tua palavra (ó Verbo!) o som fremente?» («A um crucifixo», p. 141). Querem mais? Leiam a obra. Estudem. Vão dar uma volta.

«Portinhol»? «Portunhol»!

Contracção, disse ele


      «É natural: somos pequenos; temos os espanhóis aqui encostados a barrar-nos a passagem e, sempre que queremos dar uma voltinha sem o vexame de falar portinhol, puxa-nos para o mar» («Isto é tudo nosso», Miguel Esteves Cardoso, Público, 11.05.2009, p. 31). Claro que já antes tinha lido «portinhol», mas, sendo uma suposta amálgama de português + espanhol, pergunto a Miguel Esteves Cardoso, parafraseando-lhe uma frase: E aquele i — foi sacado de que pica? Ca ganda lata.
      As amálgamas são casos especiais de composição em que a nova unidade resulta da combinação da parte de cada um dos dois termos que entram na formação. No caso, de português + espanhol só pode resultar portunhol.aqui falei de outra amálgama, spanglish. Recentemente, tomei conhecimento de outra, também no domínio da linguagem: «Dedica-se [a edição de Abril da revista La Recherche] sobretudo ao spanglish (espanhol-inglês) e ao globish (contracção de global english), para já não falar do francês e das suas derivações» («Línguas passadas e futuras», Miguel Calado Lopes, Única, 1.05.2009, p. 78).

Espécies botânicas e zoológicas (I)

Dois mundos

      Como hoje é Dia Mundial da Biodiversidade, vale a pena apreciar esta diversidade a propósito da grafia dos nomes da flora: «O relatório final da primeira fase deste plano (Março de 2007) indica que sete destas espécies só existem em Portugal: corriola do Espichel (Convolvulus fernandesii), Linaria ricardoi, narciso do Mondego (Narcisus scarberulus), miosótis-das-praias (Omphalodes kuzinskyanae), diabelha do Algarve (Plantago algarbiensis), diabelha do Almograve (Plantago almogravensis) e álcar do Algarve (Tuberaria major). A oitava planta, conhecida como trevo-de-quatro-folhas (Marsilea quadrifolia), existe em vários países, mas tem vindo a regredir em Portugal» («Oito espécies da flora portuguesa em perigo de extinção», Público, 18.05.2009, p. 13). E no Diário de Notícias: «São elas a corriola-do-espichel, Linaria ricardoi, narciso-do-mondego, miosótis-das-praias, diabelha-do-algarve, diabelha-do-almograve e o álcar-do-algarve» («Há oito plantas em perigo crítico de extinção no país», 18.05.2009, p. 30). E não estamos em nenhum período de transição de ortografia nem nada que se pareça.


«Braços-direitos»

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A dobrar



      «Em Portugal, Sergiu tinha carta branca para formar o grupo (os seus braços-direitos eram Edik e Bronik) e decidir a força a usar» («Os Sopranos da Moldávia», Nuno Tiago Pinto, Sábado, 16.04.2009, p. 84). Vê-se muitas vezes, como já aqui lembrei, sem hífen, mas hoje o que interessa é realçar o facto de raramente se ver no plural, o que é natural: em princípio, ninguém tem mais do que um braço-direito… Com os mafiosos, porém, as coisas funcionam de outra maneira.

«Ataque-surpresa»

Com hífen

«O Presidente norte-americano, Barack Obama, avisou o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, para não lançar um ataque-surpresa contra o Irão, numa mensagem enviada antes do encontro entre os dois líderes, agendado para segunda-feira» («Obama avisa Netanyahu para não atacar Irão», Público, 15.05.2009, p. 15). Temos dois substantivos: ataque e surpresa. O que acontece é que estamos a adjectivar o primeiro com um substantivo, pelo que, dado o sentido único que o conjunto assim adquire, se impõe o hífen. Segundo a gramática tradicional, o elemento da direita, «surpresa», é um determinante, pois confere ao vocábulo «ataque» um conceito especial. (Mas não é sempre assim, pelo menos na minha opinião, como já aqui vimos recentemente a propósito de «empresas-fantasmas».) No plural, estes compostos morfossintácticos de adjunção, como a gramática moderna os designa, apenas vêem o constituinte da esquerda flexionar-se, ficando invariável o da direita: ataques-surpresa. Como bombas-relógio, carruagens-bar, carruagens-cama, carruagens-restaurante, contas-poupança, escolas-piloto, filhos-família, guerras-relâmpago, homens-bomba, navios-escola, navios-tanque, pombos-correio…

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