Léxico: «acuponto»

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Veterinária holística




      «Segundo a MTC [medicina tradicional chinesa], os pontos de acupunctura são afloramentos à superfície de nervos vitais. “Cada um desses pontos (acupontos) organiza-se em meridianos, as vias por onde circula a energia vital”, explica a veterinária Someia Umarji» («O meu labrador faz acupunctura», André Rito, i, 18.05.2009, p. 32). Com excepção do Aulete Digital, não vejo o termo registado em nenhum dicionário.
      Por outro lado, e a propósito, vejam como no título está grafado «labrador», matéria que abordei recentemente aqui. Nos livros, pelo contrário, está quase sempre mal grafado: «— Dantes não era prático. Mas se ficarmos no Reino Unido podemos arranjar um [cão]. Um Westie, talvez» (Adultério para Principiantes, Sarah Duncan. Tradução de Ana Mendes Lopes, com revisão da tradução de Ana Maria Chaves. Porto: Asa Editores, 2006, p. 94).

Ortografia: «xariá»

Lei islâmica mutante


      «Aproveitando o momento e o local, o mufti considerou que a actual crise financeira é uma consequência do “não respeito pela charia [lei islâmica]”» («Mufti saudita apela à luta contra o terror», Lumena Raposo, Diário de Notícias, 8.12.2008, p. 28). «Esta ofensiva foi iniciada dois dias depois de os EUA terem criticado fortemente um acordo de cessar-fogo negociado em Fevereiro entre Islamabad e os rebeldes, ao abrigo do qual o Governo concedeu que os taliban aplicassem a lei islâmica (sharia) na região de Swat» («Exército paquistanês diz ter morto 160 rebeldes na ofensiva contra os taliban em Swat», Público, 9.05.2009, p. 14). E ainda há mais variantes, ah, sim. Até no sítio da Al Furqán, uma organização islâmica, que poderíamos supor mais permeável a formas menos portuguesas de dizer, se lê sempre Xaria. Como propus em relação a Shoah, mais valia grafar-se xariá, para reproduzir fielmente a forma como é pronunciada em árabe.

Actualização em 21.07.2009


      Vejam como no Diário de Notícias ainda andam a ensaiar a melhor forma de grafar o vocábulo: «Um eventual regresso ao país teria como resultado ser acusada de adultério, logo, ser condenada à flagelação e à morte por lapidação, de acordo com a Charia (lei islâmica)» («Londres dá asilo a princesa saudita», L. R., Diário de Notícias, 21.07.2009, p. 25).

Qualquer-coisa-chave (ii)

Chaves cruciais

«A União Europeia falhou o objectivo de obter um “sinal político forte” de apoio ao gasoduto Nabucco — projecto de alternativa aos fornecimentos oriundos da Rússia para a Europa — tendo recebido um rotundo “não” de três países cruciais para garantir o abastecimento da projectada rede energética» («Três países-chave da Ásia Central dizem “não” ao projecto do gasoduto europeu Nabucco», Dulce Furtado, Público, 9.05.2009, p. 15). Já tinha abordado aqui a questão, agora é apenas um lembrete: vejam como no corpo da notícia a jornalista escreveu «países cruciais» e, no título (que provavelmente não é da jornalista), se optou por «países-chave».

Índice onomástico

Sim, mas…


      «Uma revisão mais cuidada teria evitado gralhas irritantes (a edição portuguesa não se decide entre escrever Mitterrand com um ou dois tês — são dois, já agora; Nicolas Sarkozy aparece como “Nicholas”). E, tendo em conta a vocação assumidamente pedagógica do livro, a versão portuguesa só teria a ganhar se incluísse um breve glossário onomástico, identificando algumas das figuras referidas ao longo do livro» («Maio de 68 para menores de 60 anos», recensão crítica de Kathleen Gomes à obra Maio de 68 Explicado Àqueles Que o Não Viveram, de Patrick Rotman (Guimarães Editores, 2009), Ípsilon, 17.05.2009, p. 38). Melhor se diria índice onomástico, pois, tanto quanto sei, nenhuma das acepções do vocábulo «glossário» contempla o sentido de lista de nomes ordenados alfabeticamente. E sim, não são só os críticos literários que lamentam que certas obras não tenham índice onomástico.

«Ab anteriori»


Disse o jurisconsulto


      Já tinha lido, mas nunca tinha ouvido a locução latina a anteriori. Tinha de a ouvir da boca de um jurista. Paulo Rangel, candidato do PSD às eleições para o Parlamento Europeu, foi ontem entrevistado na Antena 1 por Maria Flor Pedroso e, às tantas, aos 30 minutos e 48 segundos, para ser mais preciso, disse: «Eu acho que há aqui uma autonomia do próprio acto europeu relativamente às legislativas, haverá influências recíprocas, não tenho dúvidas sobre isso, e elas existirão sempre, embora sejam sempre mais a posteriori do que a anteriori, quer dizer, o grau influência que uma eleição tem noutra depende muito dos seus resultados concretos.» Ainda assim, para evitar o hiato, a anteriori, é preferível usar, como se faz habitualmente antes de palavra começada por vogal (cfr. ab initio, a priori), a variante ab da preposição: ab anteriori. Contudo, a escolha é nossa, como nas eleições.

«Hachemita» ou «haxemita»?

Sem dilemas


      «“Nascido” nos finais da década de 40, o reino hachemita da Jordânia — cujo monarca descende da linhagem directa do Profeta — é um país desértico e pobre em recursos naturais» («Um povo afável do deserto», Lumena Raposo, Diário de Notícias/DN Gente, 16.05.2009, p. 18). A forma hachemita é, de longe, a mais usada, mas também se vê haxemita, que prefiro. Num aviso (n.º 47/2001) do Ministério dos Negócios Estrangeiros português, lê-se: «Por ordem superior se torna público que o Governo do Reino Haxemita da Jordânia depositou, em 30 de Outubro de 2000, o seu instrumento de adesão à Convenção sobre Conservação de Espécies Migratórias Selvagens, assinada em Bona em 23 de Junho de 1979.» Assim, hachemita ou haxemita são variantes igualmente admissíveis. Tudo menos — e leio tantas vezes! — hashemita.

Iliteracia

Senhora doutora

Afinal, o uso de telemóvel nas aulas talvez seja benéfico… Só assim pudemos ficar a saber como se exprime aquela professora de História da Escola Básica 2,3 Sá Couto, de Espinho. «Quem corrige os testes sou eu, tu nem sabes no que te metestes», disse a professora, que se ufana de ter andado doze anos na escola, quatro na faculdade, dois nos estágios, dois numa pós-graduação e um numa especialização… Tudo para quê? Ó mediocridade, ó tristeza!
A 2.ª pessoa do singular do pretérito perfeito do indicativo dos verbos não tem s final: amaste, baixaste, caíste, deste, erraste, fugiste, gaguejaste, houveste, içaste, jornadeaste, leste, meteste, naufragaste, oleaste, partiste, quiseste, roubaste, suaste, troçaste, usaste, vieste, xadrezaste, zuniste…

«Dinheiro vivo»

In Jornal de Negócios, 15.05.2009, p. 2


Não percebo



      «Quase todos os portugueses utilizam o dinheiro vivo para pagar compras de baixo valor, transacções até aos dez euros, 71,6% utilizam-no em compras até 30 euros e metade da população (de acordo com a análise de uma amostra de todas as classes sociais) recorre ao dinheiro para compras até aos 50 euros» («Contas pequenas pagas em ‘cash’», DN Bolsa, 15.05.2009, p. 7). Na última semana, li vários artigos relacionados com esta questão. Pelo menos em dois usava-se a expressão dinheiro vivo entre aspas, como no desenho de Luís Afonso. Ora eu não sei que falta ali fazem as aspas. Dinheiro vivo significa dinheiro em moedas de metal ou em papel-moeda. É o mesmo que dinheiro à vista, dinheiro em espécie. Vejam como no título do artigo (por imposição do espaço?) se optou pelo estrangeirismo, muito usado, cash.

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