Léxico: «dobradiço»

Erros nada achadiços

«Portanto, ali estavam eles, os Grace: Carlo Grace e a mulher, Constance, o filho Myles, a rapariga ou a jovem que eu tinha a certeza que não era a rapariga que ouvira rir dentro de casa naquele primeiro dia, rodeados pela tralha toda, as cadeiras dobradiças, as chávenas de chá, copos de vinho branco, a saia indiscreta de Connie Grace, o cómico chapéu, o jornal e o cigarro do marido, o pau de Myles, o fato de banho da rapariga atirado para o lado, numa bola suja de areia como se tivesse sido arrastada pelo mar» (O Mar, John Banville. Tradução de Teresa Curvelo. 3.ª ed. Porto: Asa Editores, 2006, pp. 22-23). É verdade que existe o adjectivo «dobradiço», mas significa «que se dobra com facilidade; flexível». Dobradiço apresenta o sufixo -iço, formador de adjectivos provindos do particípio passado, com certa conotação frequentativa, «algo pejorativa, algo depreciativa, mas certamente propensiva», como se lê no Dicionário Houaiss, que regista, a título exemplificativo, umas dezenas de exemplos: abafadiço, abespinhadiço, acabadiço, achacadiço, achadiço, acomodadiço, afogadiço, agarradiço… As cadeiras são dobráveis ou desdobráveis.

Aportuguesamento de antropónimos

Realmente

Habituámo-nos a ver os nomes dos reis e príncipes estrangeiros, e nomeadamente os ingleses, traduzidos. É assim que actualmente temos a rainha Isabel II e o príncipe Carlos. (Quase nunca temos, porém, e aqui tão perto, um rei João Carlos de Espanha.) Contudo, e apesar de haver uma regra nesse sentido, como se pode ler no Tratado de Ortografia da Língua Portuguesa, de Rebelo Gonçalves, a sensibilidade dos nossos dias é um pouco avessa à tradução dos antropónimos e até mesmo dos topónimos. Ainda assim, há dias li, e agora não consigo localizar o recorte, «Ernesto de Hanôver», quando sempre tinha lido «Ernst de Hannover» ou, vá lá, numa concessão que havia de causar muitos engulhos ao jornalista, «Ernst de Hanôver». Mas agora li na edição de 16 do corrente da revista Única: «Rainha Rânia no Twitter». Mas não era só no título: «Rânia, rainha da Jordânia, habituou-nos há muito aos sinais de modernidade. Pioneira no You Tube e na Internet, Rânia voltou a provar estar na dianteira das novas tecnologias, ao ir comentando em directo a visita de Bento XVI à Jordânia» (p. 8).

Sobre «raid» e «musse»

Incursões

      Os desígnios dos tradutores e dos revisores também são, bastas vezes, suficientemente insondáveis. O que pode levar a optar-se, no mesmo texto, pelo anglicismo raid e pelo aportuguesamento ainda raro «musse»? «Joe Seed fez a tropa durante a guerra e tinha estado na maioria dos mais famosos raids aéreos dos bombardeiros sobre a Alemanha» (Filho de Ninguém, Michael Seed. Tradução de Mário Matos e revisão de Luís Milheiro. 3.ª ed. Lisboa: QuidNovi, 2008, p. 103). «Não comer sobremesa não era grande castigo para mim, porque só gostava da musse de morango com natas, mas… ficar sem presentes?» (p. 140) Até jornais pouco propensos a aportuguesamentos usam «raide»: «EUA admitem morte de civis nos raides no Afeganistão» (Público, 10.05.2009, p. 16). Quanto a «musse», que eu só tinha lido, até hoje, em publicações periódicas, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora remete, no respectivo verbete, para… «mousse».
      A propósito de «raide», vale a pena transcrever o que Vasco Botelho de Amaral escreveu na obra Subtilezas, Máculas e Dificuldades da Língua Portuguesa (edição da Revista de Portugal, Lisboa, 1946): «Raid, já na guerra de 14-18, era uma incursão de trincheira a trincheira, com o objectivo de desgaste, de sondagem das posições inimigas e de obtenção de prisioneiros — diz-me um trabalho de assuntos militares. Na guerra de 39-45, porém raid não manteve essa limitação de significação, e aí tivemos “raids” aéreos e outros.
     Até se escreveu escusadamente — raide e reide. Havia pessoas que liam raide e também outras que, à francesa, proferiam “réd”! Pois, em inglês, não é raide nem réde. É — “rêid”. Ora, para evitar estas esquisitices de pronúncia, os militares e os paisanos deviam, repito, empregar carga, incursão, assalto ou ataque, dando a estas palavras a distensão que os estrangeiros não hesitam em praticar, adaptando os velhos termos bélicos aos novos aspectos da Guerra.
      A gazua, gaziva ou gazia, a campeada, a galopada são ascendentes já bem remotos dos raids dos últimos tempos e tais termos pareceriam já anacrónicos. Todavia, termos como incursão, surtida, assalto, ataque e até carga, investida deviam evitar o anglicismo raid, que nos nossos tempos ganhou um sentido lato e, em português, abusivo» (pp. 162-3).

Raças de cães

De raça

      «Usava a desculpa de ir passear a cadela da Avó, uma velha Labrador chamada Sophie; tinha sido rejeitada como cão-guia pela escola local para cegos e viria a provar ser melhor amiga do que a maioria das pessoas que conheci em Bolton» (Filho de Ninguém, Michael Seed. Tradução de Mário Matos e revisão de Luís Milheiro. 3.ª ed. Lisboa: QuidNovi, 2008, p. 101). «Tinha um cão, um Yorkshire terrier preguiçoso e mal-humorado que frequentemente soltava gases numa explosão sonora de maus odores» (p. 124 da mesma obra). Erro muito vulgar, este. Estamos perante uma metonímia, pelo que a referência a um particular membro da espécie será grafada com minúscula inicial: «uma velha labrador chamada Sophie» e «um yorkshire terrier preguiçoso e mal-humorado».
      Aproveito para dizer que não é, ao contrário do que li recentemente, o mesmo processo que nos obriga a escrever «bebi um porto excelente» ou «tenho em casa um picasso». Na edição de sexta-feira passada do Jornal Económico, num texto assinado por Anabela Mota Ribeiro («“Je dessinais comme Raphaël”», pp. 10-12), lia-se o seguinte: «E voltamos ao princípio, ao artista [Picasso] que pinta como Rafael. Àquele que faz comentários deste calibre sobre os intocáveis da História da Pintura: “As pessoas estão sempre a falar do Renascimento — mas é patético! Vi recentemente alguns Tintorettos. E não são mais do que cinema, cinema barato!”» Devia estar escrito «tintorettos».



Léxico: «cutout boots»

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Botas cortadas

A moda é, juntamente com a tecnologia, nomeadamente a informática, a área que carreia mais estrangeirismos para a nossa língua. «Outra novidade são as cutout boots (mistura de bota e sandália que junta o design da primeira ao arejamento da segunda)» («Gastar sandálias», Maria Antónia Ascensão, Pública, 3.05.2009, p. 50).

Acepção de «cavalgar»

Façam uma sondagem

«Paulo Rangel não perdeu tempo a cavalgar as declarações da candidata do PS às europeias e à Câmara do Porto, Elisa Ferreira, que, na sexta-feira, disse: “Eu vou ao Parlamento Europeu assinar o nome. Quero é vir para cá, para o Porto”» («Elisa Ferreira criticada por Rangel depois de ter dito que ia ao PE só assinar o nome», Margarida Gomes, Público, 10.05.2009, p. 6). Tenho sérias dúvidas que o leitor comum compreenda exactamente este sentido figurado — «aproveitar de (oportunidade), ger. com astúcia e energia», na definição do Dicionário Houaiss — do verbo cavalgar.

Sobre «capô»

Imagem: http://classic-car.y2u.co.uk/

Encobre o motor



      «O Ford Anglia azul-claro, com os seus horríveis assentos de plástico barato, capot estreito, grandes guarda-lamas dianteiros e faróis que pareciam olhos de sapo, vomitou nuvens de fumo pelo caminho todo» (Filho de Ninguém, Michael Seed. Tradução de Mário Matos e revisão de Luís Milheiro. 3.ª ed. Lisboa: QuidNovi, 2008, p. 93). Havia de ser o modelo «E494A» do Ford Anglia, que foi produzido entre 1949–1953. Ainda me lembro de um tio paterno ter comprado, nos anos 80, um Ford Anglia, modelo «105E», que tinha sido deixado de ser produzido em 1967. Para mim, era de longe o carro mais feio que alguma vez tinha visto. Como se vê, o tradutor optou por usar o termo francês capot. No entanto, no Dicionário de Português-Inglês da Porto Editora, não aparece o termo «capot» (nem «capô»), mas sim «capota», referindo o dicionário que em inglês é hood (of a motor-car). E depois regista duas expressões: capota de caleche: calash; e capota de motor: motor cowling». No Dicionário Inglês-Português, se consultarmos o verbete «hood», podemos ler: «Estados Unidos da América (automóvel) capô».

«Pôr em causa»

Sem tirar nem pôr

«A avó não ficava minimamente intimidada pelo colarinho do padre e dava-lhe uma surra verbal cada vez que ele punha em questão a fidelidade dela ao Exército de Salvação» (Filho de Ninguém, Michael Seed. Tradução de Mário Matos e revisão de Luís Milheiro. 3.ª ed. Lisboa: QuidNovi, 2008, p. 105). A expressão fixa é «pôr em causa», que significa «questionar». As questões, é verdade, também se põem, e o tradutor também usa a expressão: «Éramos apenas três e eles cerca de uma dúzia, por isso não se punha sequer a questão de ficarmos ali e de lutarmos» (p. 150).

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