«Sri Lanca»

Acabou

Acabou tudo em bem: os rebeldes admitiram a derrota e o jornal Público acabou a escrever Tigres Tâmiles: «O brigadeiro Nanayakkara disse também que os seus soldados ainda lutavam contra bolsas de resistência para conquistar “cada centímetro quadrado” do último território em poder dos Tigres Tâmiles, que no auge do seu poderio, na década de 1999, chegaram a controlar quase dois terços do país» («Tigres admitem “fim amargo” dos combates», Ana Fonseca Pereira, Público, 19.05.2009). O pior foram os milhares de mortos. E a propósito, sabiam que o diário i escreve Sri Lanca? «Quando estes refugiados, fugindo à guerra no Sri Lanca, chegaram a terras indianas, dez dos 21 passageiros iniciais haviam morrido ou saltado para o mar» («Em vez da segurança, a morte no alto mar», Somini Sengupta, The New York Times/ i, 15.05.2009, p. 3).

Ortografia: «baixo-ventre»

Monorquidismo

      «Franco, então capitão, fez [na Batalha de Biutz, perto de Ceuta, Marrocos] um assalto durante o qual ficou seriamente ferido no baixo ventre» («General Franco tinha apenas um testículo», Público, 18.05.2009, p. 27). Franco, soube-se agora, só tinha um testículo. Quando li o artigo do Público, ocorreu-me logo a palavra «monórquido», que é como se designa o homem ou animal que só tem um testículo. Vi depois que Ferreira Fernandes, num texto intitulado «O testículo perdido do ditador», escrevera no Diário de Notícias uma crónica à conta do facto, usando aquela palavra e brincando com a semelhança que tem com a palavra «monárquico». Como seria de prever, não escrevo este texto só para exibir os meus conhecimentos do léxico, mas para assinalar um erro no texto do Público. Na verdade, escreve-se baixo-ventre e não baixo ventre. Há livros de estilo, como o Manual de Redação e Estilo de O Estado de S. Paulo, de Eduardo Martins (São Paulo: Editora Moderna, 3.ª ed., 1997), que registam o termo, prova de que é habitualmente mal ortografado: «Baixo-ventre. Plural: baixos-ventres» (p. 51).

Interjeição «duh»

Imagem: http://wakeupitstuesday.org/wp-content/uploads/2009/04/duh.jpg


Acorda!


      «À parte o sujeito inefável e creepy daquele “devemos”, há outro problema: que fazem os estrangeiros, portugueses e lisboetas que já sabem das coisas fantásticas que Lisboa tem? Ou que sabem como hão-de saber? Por exemplo, indo à Net, duh» («Oh do shut up!», Miguel Esteves Cardoso, Público, 14.05.2009, p. 31). Esta interjeição inglesa, que eu nunca antes tinha visto num texto português, é muito usada por certos adolescentes e serve para expressar sarcasticamente que algo é óbvio.

Actualização em 27.09.2009

      Já vai aparecendo adaptado: «— Da-aa — diz ela. — As actrizes têm de usar maquilhagem, não têm, por causa das luzes todas do palco? Além do mais, quero chamar a atenção da professora Dulce» (Azul Mar, Cathy Cassidy. Tradução de Cristina Queiroz. Lisboa: Livraria Civilização Editora, 2009, p. 103). Mas com hesitações: «— Tu sabes, a tatuagem do gato que mandaste ao Lucas — digo eu. — Daa! E o KitKat também» (Amigos à Deriva, Cathy Cassidy. Tradução de Cristina Queiroz. Lisboa: Livraria Civilização Editora, 2009, p. 81).

Actualização em 31.12.2009

      «É difícil descobrir-lhe a origem ou a forma como chegou até nós (ao contrário dos anglófonos dizemos “dahhh”), a eficácia que a tornou omnipresente, contudo, é de fazer arrepiar qualquer purista da língua. Está tudo no tempo que se dá ao “h”. Com um (duh) exclama “Óbvio!”, com dois (duhh) já inclui uma nota de desdém irónico, com três (duhhh) o desprezo pela estupidez alheia já estala à laia de vergastada de chicote. Mas com uma irrisão de humor de tal forma solar que não deixa margem para ofensas. Mas já sabia tudo isto, claro... Não?! Como não?! Duhhh...» («Duhhh», Vanessa Rato, Público/P2, 31.12.2009, p. 4).



Léxico: «dobradiço»

Erros nada achadiços

«Portanto, ali estavam eles, os Grace: Carlo Grace e a mulher, Constance, o filho Myles, a rapariga ou a jovem que eu tinha a certeza que não era a rapariga que ouvira rir dentro de casa naquele primeiro dia, rodeados pela tralha toda, as cadeiras dobradiças, as chávenas de chá, copos de vinho branco, a saia indiscreta de Connie Grace, o cómico chapéu, o jornal e o cigarro do marido, o pau de Myles, o fato de banho da rapariga atirado para o lado, numa bola suja de areia como se tivesse sido arrastada pelo mar» (O Mar, John Banville. Tradução de Teresa Curvelo. 3.ª ed. Porto: Asa Editores, 2006, pp. 22-23). É verdade que existe o adjectivo «dobradiço», mas significa «que se dobra com facilidade; flexível». Dobradiço apresenta o sufixo -iço, formador de adjectivos provindos do particípio passado, com certa conotação frequentativa, «algo pejorativa, algo depreciativa, mas certamente propensiva», como se lê no Dicionário Houaiss, que regista, a título exemplificativo, umas dezenas de exemplos: abafadiço, abespinhadiço, acabadiço, achacadiço, achadiço, acomodadiço, afogadiço, agarradiço… As cadeiras são dobráveis ou desdobráveis.

Aportuguesamento de antropónimos

Realmente

Habituámo-nos a ver os nomes dos reis e príncipes estrangeiros, e nomeadamente os ingleses, traduzidos. É assim que actualmente temos a rainha Isabel II e o príncipe Carlos. (Quase nunca temos, porém, e aqui tão perto, um rei João Carlos de Espanha.) Contudo, e apesar de haver uma regra nesse sentido, como se pode ler no Tratado de Ortografia da Língua Portuguesa, de Rebelo Gonçalves, a sensibilidade dos nossos dias é um pouco avessa à tradução dos antropónimos e até mesmo dos topónimos. Ainda assim, há dias li, e agora não consigo localizar o recorte, «Ernesto de Hanôver», quando sempre tinha lido «Ernst de Hannover» ou, vá lá, numa concessão que havia de causar muitos engulhos ao jornalista, «Ernst de Hanôver». Mas agora li na edição de 16 do corrente da revista Única: «Rainha Rânia no Twitter». Mas não era só no título: «Rânia, rainha da Jordânia, habituou-nos há muito aos sinais de modernidade. Pioneira no You Tube e na Internet, Rânia voltou a provar estar na dianteira das novas tecnologias, ao ir comentando em directo a visita de Bento XVI à Jordânia» (p. 8).

Sobre «raid» e «musse»

Incursões

      Os desígnios dos tradutores e dos revisores também são, bastas vezes, suficientemente insondáveis. O que pode levar a optar-se, no mesmo texto, pelo anglicismo raid e pelo aportuguesamento ainda raro «musse»? «Joe Seed fez a tropa durante a guerra e tinha estado na maioria dos mais famosos raids aéreos dos bombardeiros sobre a Alemanha» (Filho de Ninguém, Michael Seed. Tradução de Mário Matos e revisão de Luís Milheiro. 3.ª ed. Lisboa: QuidNovi, 2008, p. 103). «Não comer sobremesa não era grande castigo para mim, porque só gostava da musse de morango com natas, mas… ficar sem presentes?» (p. 140) Até jornais pouco propensos a aportuguesamentos usam «raide»: «EUA admitem morte de civis nos raides no Afeganistão» (Público, 10.05.2009, p. 16). Quanto a «musse», que eu só tinha lido, até hoje, em publicações periódicas, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora remete, no respectivo verbete, para… «mousse».
      A propósito de «raide», vale a pena transcrever o que Vasco Botelho de Amaral escreveu na obra Subtilezas, Máculas e Dificuldades da Língua Portuguesa (edição da Revista de Portugal, Lisboa, 1946): «Raid, já na guerra de 14-18, era uma incursão de trincheira a trincheira, com o objectivo de desgaste, de sondagem das posições inimigas e de obtenção de prisioneiros — diz-me um trabalho de assuntos militares. Na guerra de 39-45, porém raid não manteve essa limitação de significação, e aí tivemos “raids” aéreos e outros.
     Até se escreveu escusadamente — raide e reide. Havia pessoas que liam raide e também outras que, à francesa, proferiam “réd”! Pois, em inglês, não é raide nem réde. É — “rêid”. Ora, para evitar estas esquisitices de pronúncia, os militares e os paisanos deviam, repito, empregar carga, incursão, assalto ou ataque, dando a estas palavras a distensão que os estrangeiros não hesitam em praticar, adaptando os velhos termos bélicos aos novos aspectos da Guerra.
      A gazua, gaziva ou gazia, a campeada, a galopada são ascendentes já bem remotos dos raids dos últimos tempos e tais termos pareceriam já anacrónicos. Todavia, termos como incursão, surtida, assalto, ataque e até carga, investida deviam evitar o anglicismo raid, que nos nossos tempos ganhou um sentido lato e, em português, abusivo» (pp. 162-3).

Raças de cães

De raça

      «Usava a desculpa de ir passear a cadela da Avó, uma velha Labrador chamada Sophie; tinha sido rejeitada como cão-guia pela escola local para cegos e viria a provar ser melhor amiga do que a maioria das pessoas que conheci em Bolton» (Filho de Ninguém, Michael Seed. Tradução de Mário Matos e revisão de Luís Milheiro. 3.ª ed. Lisboa: QuidNovi, 2008, p. 101). «Tinha um cão, um Yorkshire terrier preguiçoso e mal-humorado que frequentemente soltava gases numa explosão sonora de maus odores» (p. 124 da mesma obra). Erro muito vulgar, este. Estamos perante uma metonímia, pelo que a referência a um particular membro da espécie será grafada com minúscula inicial: «uma velha labrador chamada Sophie» e «um yorkshire terrier preguiçoso e mal-humorado».
      Aproveito para dizer que não é, ao contrário do que li recentemente, o mesmo processo que nos obriga a escrever «bebi um porto excelente» ou «tenho em casa um picasso». Na edição de sexta-feira passada do Jornal Económico, num texto assinado por Anabela Mota Ribeiro («“Je dessinais comme Raphaël”», pp. 10-12), lia-se o seguinte: «E voltamos ao princípio, ao artista [Picasso] que pinta como Rafael. Àquele que faz comentários deste calibre sobre os intocáveis da História da Pintura: “As pessoas estão sempre a falar do Renascimento — mas é patético! Vi recentemente alguns Tintorettos. E não são mais do que cinema, cinema barato!”» Devia estar escrito «tintorettos».



Léxico: «cutout boots»

Imagem: http://idomdesigns.files.wordpress.com/2009/04/anouckalaia.jpg

Botas cortadas

A moda é, juntamente com a tecnologia, nomeadamente a informática, a área que carreia mais estrangeirismos para a nossa língua. «Outra novidade são as cutout boots (mistura de bota e sandália que junta o design da primeira ao arejamento da segunda)» («Gastar sandálias», Maria Antónia Ascensão, Pública, 3.05.2009, p. 50).

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