Numeração dos séculos (II)

Não, não sou o único


      Para fazer companhia ao Record, apareceu o diário i a numerar os séculos com algarismos árabes: «A dupla que gere o bar encontrou o edifício do século 19 há quatro anos, ao cabo de “muitas tardes a passear pela Baixa e a perguntar em quiosques e cafés”, em busca do sítio certo para dar mais luz à noite. Estava bastante degradado”, mas, com o auxílio da arquitecta Joana Rafael, foi possível “recuperar a casa sem alterar a sua traça”» («Não se engane porque aqui o chá é só para enfeitar», Jorge Manuel Lopes, i, 15.05.2009, p. 44).

Actualização em 5.06.2010


      «— Relatórios intermináveis. — Sorriu. — Computadores. A bênção e a maldição do século vinte e um. — De seguida, olhou para mim e reparou finalmente no estado em que me encontrava. — Meu Deus, sente-se bem?» (Memória de Tubarão, Steven Hall. Tradução de José Remelhe e Luís Santos. Queluz de Baixo: Editorial Presença, 2009, p. 143).

Ortografia: «hétero»

LGBT


      «Dez filmes gay que todos os hetero deviam ver antes de morrer» (Luís Leal Miranda, i, 15.05.2009, p. 48). Ao optar-se por escrever assim, substantivando um elemento de formação de palavras, neste caso hetero- (do grego héteros, «outro; diferente»), temos de ter consciência de que é perante uma palavra plena que ficamos, logo, flexionável. Ou o jornalista escreve ou diz «dois olho» ou «dois palerma»? Então, já vê. Não é a primeira vez que aqui falo deste processo linguístico denominado redução. Lembro-me, em particular, do termo híper, redução de «supermercado». A acentuação destas reduções segue a regra oficial, pelo que será hétero(s), esdrúxulo.
      Também nas traduções, infelizmente, se vê o mesmo erro: «Em geral ficam um rapaz hetero, talvez um homo e umas nove raparigas» (O Animal Moribundo, Philip Roth. 3.ª edição. Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues e revisão de Manuela V. C. Gomes da Silva. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2008, p. 15).

A terminologia da economia

«Desinflação»?


      Luís Reis Ribeiro, num texto publicado no novo diário, i, cujo aparecimento saúdo, explica quatro conceitos da economia: deflação, desinflação, inflação e estagflação: «Deflação. Descida prolongada dos preços de todos os bens e serviços. É um risco grande para a economia: com os preços em queda, os consumidores adiam os gastos, o que cria mais dificuldades às empresas, mais desemprego e ainda menos consumo. Desinflação. É o que está a acontecer agora nas economias portuguesa e europeia — uma quebra nos preços de algumas classes de bens. Neste caso, dos combustíveis. Inflação. É o aumento contínuo do nível dos preços, que se reflecte directamente na diminuição do poder de compra dos cidadãos. Manter a inflação baixa é um dos principais objectivos económicos da maioria dos governos. Estagflação. Os economistas afastam o cenário de deflação e dizem que o risco maior é a estagflação, uma mistura de preços altos com crescimento económico baixo» («Petróleo só vai subir a sério no próximo ano», Luís Reis Ribeiro, i, 14.05.2009, p. 30).

Actualização em 22.08.2009

      E ainda temos a reflação, que é a estimulação da economia por intermédio da injecção de dinheiro e de créditos ou pela redução das taxas. É o oposto da desinflação.

Ortografia: «contracrítica»

Do contra

«Jogando, pelo contrário, a favor da hipótese de Alegre recusar recandidatar-se jogava o facto de Sócrates ter marcado, subitamente, uma deslocação à Madeira, hoje, deslocação que prevê de enorme mediatização, dado o historial de críticas e contra-críticas entre o primeiro-ministro e o líder madeirense Alberto João Jardim» («Alegre escondeu decisão de Sócrates», João Pedro Henriques, Diário de Notícias, 15.05.2009, p. 4). Já aqui vimos mais do que uma vez que nos vocábulos compostos em que entre o prefixo de origem latina contra-, o segundo elemento tem sempre hífen se for palavra começada por vogal, h, r ou s. Logo, contracrítica. Os jornalistas e os revisores é que se esquecem disso.

Léxico: «silpat»


Imprópria


      «Coloque no silpat (tabuleiro em silicone para pastelaria) bem untado e coza a 190 graus cerca de 10 a 15 m» («Papos de anjo em calda de poejo sobre carpaccio de ananás», Teresa Resende, Única, 1.05.2009, p. 84). É a evolução, a que se dá o nome de derivação imprópria, que sofreu a marca Tupperware. Actualmente, quase todos os dicionários registam o termo, tupperware, como substantivo comum para designar o recipiente de plástico com tampa que fecha de forma a não deixar entrar o ar, usado para conservar alimentos.

Gíria dos carteiristas

Fale com eles

A edição do dia 1 do corrente da revista Única publicou um artigo muito informado sobre os carteiristas em Lisboa, «Os carteiristas do 28», da autoria de Hugo Franco. De interesse para nós, o pequeno (mas eles nem precisam de falar…) léxico de termos da gíria dos carteiristas:
«Música ou cabedal: carteira
Montada: eléctrico
Guiros: turistas
Estrilhar: refilar
Cabra: turista atento aos carteiristas
Nixo: carteira sem dinheiro
Balúrdio: carteira carregada de dinheiro
Correo: companheiro de crime
Asa-direita ou encosta: aqueles que fazem ‘tampão na entrada dos transportes para confundir as vítimas
Mão leve: o artista que furta a carteira
Muleta: disfarce usado para se camuflarem entre os turistas.»

Léxico: «blondin»

Cabina de pilotagem de um blondin, durante a construção da barragem de Vouglans ©

Quase


«Habituado a manobrar o ‘blodin’, máquina que transporta o betão, o ferro e todos os outros materiais necessários à construção de uma barragem, Franklin, de 57 anos, ficou impressionado com o desaparecimento da Aldeia da Luz, onde conheceu gentes e passeou nas ruas» («Franklin Quintas», Única, 1.05.2009, p. 27). O jornalista quase acertava, se se tivesse esforçado mais: a máquina, que é um transportador aéreo ou grua funicular, muito usada na construção de barragens, chama-se, na realidade, blondin. O termo deriva de um nome próprio: Blondin. Charles Blondin era o nome artístico de Jean François Graveland (1824-1897), um acrobata francês especialista em equilibrismo sobre cordas, uma espécie de funâmbulo ou aramista. Em 1859, atravessou as cataratas do Niagara, nos Estados Unidos da América, servindo-se de uma corda suspensa sobre as quedas-d’água.

«Pousar» e «posar»

Grande pose

      «O príncipe de Gales, primeiro herdeiro do trono de Inglaterra, e a sua mulher, Camila, duquesa da Cornualha, pousaram na quarta-feira com os estudantes da Royal Ballet School, antes da realização do espectáculo de gala na Royal Opera House, em Londres» («Príncipe Carlos. Pose com bailarinos e críticas aos arquitectos», Diário de Notícias, 15.05.2009, p. 19). É um erro muito mais comum do que se possa pensar. Ah, já agora: o príncipe Carlos não é herdeiro do trono de Inglaterra, mas sim herdeiro dos tronos do Reino Unido e de mais de uma dúzia de reinos da Comunidade das Nações.

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