Gíria dos carteiristas

Fale com eles

A edição do dia 1 do corrente da revista Única publicou um artigo muito informado sobre os carteiristas em Lisboa, «Os carteiristas do 28», da autoria de Hugo Franco. De interesse para nós, o pequeno (mas eles nem precisam de falar…) léxico de termos da gíria dos carteiristas:
«Música ou cabedal: carteira
Montada: eléctrico
Guiros: turistas
Estrilhar: refilar
Cabra: turista atento aos carteiristas
Nixo: carteira sem dinheiro
Balúrdio: carteira carregada de dinheiro
Correo: companheiro de crime
Asa-direita ou encosta: aqueles que fazem ‘tampão na entrada dos transportes para confundir as vítimas
Mão leve: o artista que furta a carteira
Muleta: disfarce usado para se camuflarem entre os turistas.»

Léxico: «blondin»

Cabina de pilotagem de um blondin, durante a construção da barragem de Vouglans ©

Quase


«Habituado a manobrar o ‘blodin’, máquina que transporta o betão, o ferro e todos os outros materiais necessários à construção de uma barragem, Franklin, de 57 anos, ficou impressionado com o desaparecimento da Aldeia da Luz, onde conheceu gentes e passeou nas ruas» («Franklin Quintas», Única, 1.05.2009, p. 27). O jornalista quase acertava, se se tivesse esforçado mais: a máquina, que é um transportador aéreo ou grua funicular, muito usada na construção de barragens, chama-se, na realidade, blondin. O termo deriva de um nome próprio: Blondin. Charles Blondin era o nome artístico de Jean François Graveland (1824-1897), um acrobata francês especialista em equilibrismo sobre cordas, uma espécie de funâmbulo ou aramista. Em 1859, atravessou as cataratas do Niagara, nos Estados Unidos da América, servindo-se de uma corda suspensa sobre as quedas-d’água.

«Pousar» e «posar»

Grande pose

      «O príncipe de Gales, primeiro herdeiro do trono de Inglaterra, e a sua mulher, Camila, duquesa da Cornualha, pousaram na quarta-feira com os estudantes da Royal Ballet School, antes da realização do espectáculo de gala na Royal Opera House, em Londres» («Príncipe Carlos. Pose com bailarinos e críticas aos arquitectos», Diário de Notícias, 15.05.2009, p. 19). É um erro muito mais comum do que se possa pensar. Ah, já agora: o príncipe Carlos não é herdeiro do trono de Inglaterra, mas sim herdeiro dos tronos do Reino Unido e de mais de uma dúzia de reinos da Comunidade das Nações.

«Cristo-Rei» ou «Cristo Rei»?


Liberdade

      Tinha de ser: os 50 anos do Cristo-Rei vão ser comemorados, segundo o Diário de Notícias, numa «megacerimónia» («No elevador do Cristo-Rei há 50 anos», 15.05.2009, primeira página). Mas isso agora não interessa, mas sim o termo Cristo-Rei. Também no Público se usa esta grafia: «50 anos do Cristo-Rei», lia-se na primeira página da edição de ontem. Oficialmente, o nome do monumento é Cristo Rei, sem hífen. A generalidade da imprensa grafa-o com hífen, por analogia com outros compostos onomásticos, como também prefiro: «Cristo-Rei, Ponte 25 de Abril, Torre de Belém, Mosteiro dos Jerónimos, Castelo de São Jorge, Padrão das Descobertas, Centro Cultural de Belém, Museu da Electricidade e os Paços do Concelho serão os pontos da capital que ficarão às escuras em prol daquela campanha global de alerta para a necessidade de adopção de medidas eficazes na luta contra as alterações climáticas» («Apagão global», Vera Mendão Costa, Visão, 12.03.2009, p. 96).

Sobre «improvado»

Ao lado

«A prova-chave fora posta em causa, mas a família de Muncey continua a acreditar que House esteve envolvido no crime. E mesmo entre os procuradores há quem admita que essa hipótese não ficou excluída, apenas improvada» («Declarado inocente após 22 anos no corredor da morte», Hugo Coelho, Diário de Notícias, 14.05.2009, p. 25). Parece, não nego, o antónimo de provada, mas o Dicionário Houaiss, por exemplo, dá como definição de improvado «que se improvou; não aprovado». E quanto a improvar, «não aprovar, julgar desfavoravelmente; desaprovar, censurar; improbar». Teria sido preferível que o jornalista tivesse escrito algo como: «E mesmo entre os procuradores há quem admita que essa hipótese não ficou excluída, apenas por provar.»

Erros jornalísticos

Língua retalhada

Há erros que se devem a lapsos e há erros que resultam inteiramente da ignorância. O que mostro a seguir parece-me ser desta última infeliz espécie: «Mais uma vez, o guia explicava: “Porque as pessoas quando rezam, põem a boca e o nariz no chão. “E” se não encontrar os seus sapatos, leva outros”, adiantava, antes do Presidente retalhar: “Leva os melhores que encontrar!”» («Cavaco Silva descobre regras dos muçulmanos», Bárbara Baldaia, Diário de Notícias, 14.05.2009, p. 12). Aqui, a única pessoa que retalha alguma coisa, a língua, concretamente, é a jornalista. Retalhar é «cortar em retalhos ou pedaços, dividir em várias partes; recortar; lavrar, sulcar; golpear, espatifar; vender a retalhar». Em sentido figurado, também é «magoar ou afligir muito». Atalhar, que é o que Cavaco Silva fez, é «impedir o progresso de; interromper uma pessoa que fala; replicar; embaraçar, estorvar, impedir, obviar; encurtar caminho por atalho; diminuir a intensidade de». Com a Internet, em todos os lados há um dicionário de português. De qualquer modo, em Lisboa, o editor e o revisor não deviam ter deixado passar semelhante parvoíce.

«Reunir-se»

Última hora

«Manuel Alegre reúne hoje com o seu grupo de apoiantes para decidir um eventual apoio ao PS nas eleições legislativas, encontro em que estão praticamente excluídos cenários de ruptura com Sócrates e de criação de um novo partido», assegura a edição de hoje do gratuito Destak (p. 23). Ora, o verbo reunir não é intransitivo neste tipo de construção, pelo que tem de se conjugar reflexamente: Manuel Alegre reúne-se hoje… Se os senhores jornalistas quiserem que o verbo seja transitivo, ponham lá Manuel alegre a mandar: «Manuel Alegre mandou reunir hoje o seu grupo de apoiantes.» Ou: «Manuel Alegre reúne hoje o seu grupo de apoiantes.»
No Público, no texto assinado por São José Almeida («Manuel Alegre não deverá abandonar o PS e anuncia hoje se entra nas listas de Sócrates para as eleições legislativas», p. 11), lê-se que Manuel Alegre «convocou» os apoiantes.

«Empresas-fantasmas»

Há escolha

Cara Teresa Seixas: para mim, trata-se de dois substantivos e não de um substantivo mais um determinante específico. Logo, devem ir ambos para o plural: empresas-fantasmas. É verdade que não é uma questão consensual, mas temos de seguir um critério. Nas revisões que faço, é sempre assim que considero formações semelhantes. Na imprensa, a convicção de como se deve grafar também varia: «As empresas-fantasmas de Oliveira e Costa» (Clara Teixeira, Visão n.º 836, 12.03.2009, p. 48). «Movimento Liberal Social considera que redução incentiva empresas-fantasma» (sítio da RTP, 9.10.2008). Claro que também se lê, mas é para esquecer, «empresas fantasma» e «empresas fantasmas».

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