«Cristo-Rei» ou «Cristo Rei»?


Liberdade

      Tinha de ser: os 50 anos do Cristo-Rei vão ser comemorados, segundo o Diário de Notícias, numa «megacerimónia» («No elevador do Cristo-Rei há 50 anos», 15.05.2009, primeira página). Mas isso agora não interessa, mas sim o termo Cristo-Rei. Também no Público se usa esta grafia: «50 anos do Cristo-Rei», lia-se na primeira página da edição de ontem. Oficialmente, o nome do monumento é Cristo Rei, sem hífen. A generalidade da imprensa grafa-o com hífen, por analogia com outros compostos onomásticos, como também prefiro: «Cristo-Rei, Ponte 25 de Abril, Torre de Belém, Mosteiro dos Jerónimos, Castelo de São Jorge, Padrão das Descobertas, Centro Cultural de Belém, Museu da Electricidade e os Paços do Concelho serão os pontos da capital que ficarão às escuras em prol daquela campanha global de alerta para a necessidade de adopção de medidas eficazes na luta contra as alterações climáticas» («Apagão global», Vera Mendão Costa, Visão, 12.03.2009, p. 96).

Sobre «improvado»

Ao lado

«A prova-chave fora posta em causa, mas a família de Muncey continua a acreditar que House esteve envolvido no crime. E mesmo entre os procuradores há quem admita que essa hipótese não ficou excluída, apenas improvada» («Declarado inocente após 22 anos no corredor da morte», Hugo Coelho, Diário de Notícias, 14.05.2009, p. 25). Parece, não nego, o antónimo de provada, mas o Dicionário Houaiss, por exemplo, dá como definição de improvado «que se improvou; não aprovado». E quanto a improvar, «não aprovar, julgar desfavoravelmente; desaprovar, censurar; improbar». Teria sido preferível que o jornalista tivesse escrito algo como: «E mesmo entre os procuradores há quem admita que essa hipótese não ficou excluída, apenas por provar.»

Erros jornalísticos

Língua retalhada

Há erros que se devem a lapsos e há erros que resultam inteiramente da ignorância. O que mostro a seguir parece-me ser desta última infeliz espécie: «Mais uma vez, o guia explicava: “Porque as pessoas quando rezam, põem a boca e o nariz no chão. “E” se não encontrar os seus sapatos, leva outros”, adiantava, antes do Presidente retalhar: “Leva os melhores que encontrar!”» («Cavaco Silva descobre regras dos muçulmanos», Bárbara Baldaia, Diário de Notícias, 14.05.2009, p. 12). Aqui, a única pessoa que retalha alguma coisa, a língua, concretamente, é a jornalista. Retalhar é «cortar em retalhos ou pedaços, dividir em várias partes; recortar; lavrar, sulcar; golpear, espatifar; vender a retalhar». Em sentido figurado, também é «magoar ou afligir muito». Atalhar, que é o que Cavaco Silva fez, é «impedir o progresso de; interromper uma pessoa que fala; replicar; embaraçar, estorvar, impedir, obviar; encurtar caminho por atalho; diminuir a intensidade de». Com a Internet, em todos os lados há um dicionário de português. De qualquer modo, em Lisboa, o editor e o revisor não deviam ter deixado passar semelhante parvoíce.

«Reunir-se»

Última hora

«Manuel Alegre reúne hoje com o seu grupo de apoiantes para decidir um eventual apoio ao PS nas eleições legislativas, encontro em que estão praticamente excluídos cenários de ruptura com Sócrates e de criação de um novo partido», assegura a edição de hoje do gratuito Destak (p. 23). Ora, o verbo reunir não é intransitivo neste tipo de construção, pelo que tem de se conjugar reflexamente: Manuel Alegre reúne-se hoje… Se os senhores jornalistas quiserem que o verbo seja transitivo, ponham lá Manuel alegre a mandar: «Manuel Alegre mandou reunir hoje o seu grupo de apoiantes.» Ou: «Manuel Alegre reúne hoje o seu grupo de apoiantes.»
No Público, no texto assinado por São José Almeida («Manuel Alegre não deverá abandonar o PS e anuncia hoje se entra nas listas de Sócrates para as eleições legislativas», p. 11), lê-se que Manuel Alegre «convocou» os apoiantes.

«Empresas-fantasmas»

Há escolha

Cara Teresa Seixas: para mim, trata-se de dois substantivos e não de um substantivo mais um determinante específico. Logo, devem ir ambos para o plural: empresas-fantasmas. É verdade que não é uma questão consensual, mas temos de seguir um critério. Nas revisões que faço, é sempre assim que considero formações semelhantes. Na imprensa, a convicção de como se deve grafar também varia: «As empresas-fantasmas de Oliveira e Costa» (Clara Teixeira, Visão n.º 836, 12.03.2009, p. 48). «Movimento Liberal Social considera que redução incentiva empresas-fantasma» (sítio da RTP, 9.10.2008). Claro que também se lê, mas é para esquecer, «empresas fantasma» e «empresas fantasmas».

Bilião, de novo

Apagão linguístico

«Em 2008, mais de 50 milhões de pessoas apagaram as luzes dos seus lares, número que a WWF [World Wildlife Fund] espera que aumente para um bilião este ano» («Apagão global», Vera Mendão Costa, Visão n.º 836, 12.03.2009, p. 96). De 50 milhões para um bilião? Talvez se justifique, vendo bem, que na obra De Bom a Excelente, de Jim Collins (Tradução de Paulo Tiago Bento e revisão de Ayala Monteiro. 4.ª ed. Lisboa: Casa das Letras, 2008), já aqui citada, à referência a 2300 milhões de dólares se tenha feito na página 47 a seguinte nota de rodapé: «* $2,3 billion, no original. Na notação utilizada nos Estados Unidos (e também no Brasil), um bilião corresponde a 109 (ou seja, mil milhões), enquanto na Europa um bilião equivale a 1012 (ou seja, um milhão de milhões). É esta acepção que se utiliza na presente tradução. (N. do T.)»

«Sem-papéis»?

Um sem-fim

      «Ajuda a ‘sem papéis’ dá multa» (Visão n.º 836, 12.03.2009, p. 16). Por analogia com os também neologismos sem-abrigo e sem-terra, por exemplo, dever-se-ia grafar sem-papéis. Ao contrário daqueles vocábulos, porém, só podia usar-se no plural (o sem-papéis/os sem-papéis), pois é com o plural, papéis, que designamos os documentos que certificam a identidade de um indivíduo. Alguns dicionários também registam sem-amor, sem-Deus, sem-dinheiro, sem-família, sem-nome, sem-trabalho…

Plural de palavras estrangeiras

Sem fatuidade


      «E, no campo religioso, estamos sufocados por uma religião formalista, cada vez mais comandada do exterior, preocupada com a aparência (usar o véu, a barba, a burka ou o niqab), com as inúmeras regras que os imãs impõem com as fatwa.» Creio que já o defendi aqui uma vez: se usamos um estrangeirismo, devemos usar as flexões (masculino/feminino, singular/plural) da língua de que provém. No texto que reproduzo, aparece a palavra «fatwa» como sendo um plural — e não é. Também acontece muitas vezes, para formar o plural, juntar-se-lhe um s, o que pode não se adequar ao original (pensemos no italianismo graffiti). O Livro de Estilo do Público, por exemplo, refere-se concretamente ao termo do texto: «“fatwa” (plural “fatawa”) — Termo técnico usado na lei islâmica para indicar um julgamento ou uma deliberação legal formal.» Se queremos pluralizar como o fazemos na língua portuguesa, aportuguesemos o vocábulo. O seriíssimo jornal O Estado de S. Paulo é isso que, de vez em quando, faz: «Um imã de Calcutá emitiu uma fátua (édito religioso) contra a escritora de Bangladesh Taslima Nasreen por seus comentários “anti-islâmicos”, informou nesta segunda-feira o diário The Times of India» («Imã emite fátua contra escritora por crítica ao Islã», 26.06.2006).

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