Bilião, de novo

Apagão linguístico

«Em 2008, mais de 50 milhões de pessoas apagaram as luzes dos seus lares, número que a WWF [World Wildlife Fund] espera que aumente para um bilião este ano» («Apagão global», Vera Mendão Costa, Visão n.º 836, 12.03.2009, p. 96). De 50 milhões para um bilião? Talvez se justifique, vendo bem, que na obra De Bom a Excelente, de Jim Collins (Tradução de Paulo Tiago Bento e revisão de Ayala Monteiro. 4.ª ed. Lisboa: Casa das Letras, 2008), já aqui citada, à referência a 2300 milhões de dólares se tenha feito na página 47 a seguinte nota de rodapé: «* $2,3 billion, no original. Na notação utilizada nos Estados Unidos (e também no Brasil), um bilião corresponde a 109 (ou seja, mil milhões), enquanto na Europa um bilião equivale a 1012 (ou seja, um milhão de milhões). É esta acepção que se utiliza na presente tradução. (N. do T.)»

«Sem-papéis»?

Um sem-fim

      «Ajuda a ‘sem papéis’ dá multa» (Visão n.º 836, 12.03.2009, p. 16). Por analogia com os também neologismos sem-abrigo e sem-terra, por exemplo, dever-se-ia grafar sem-papéis. Ao contrário daqueles vocábulos, porém, só podia usar-se no plural (o sem-papéis/os sem-papéis), pois é com o plural, papéis, que designamos os documentos que certificam a identidade de um indivíduo. Alguns dicionários também registam sem-amor, sem-Deus, sem-dinheiro, sem-família, sem-nome, sem-trabalho…

Plural de palavras estrangeiras

Sem fatuidade


      «E, no campo religioso, estamos sufocados por uma religião formalista, cada vez mais comandada do exterior, preocupada com a aparência (usar o véu, a barba, a burka ou o niqab), com as inúmeras regras que os imãs impõem com as fatwa.» Creio que já o defendi aqui uma vez: se usamos um estrangeirismo, devemos usar as flexões (masculino/feminino, singular/plural) da língua de que provém. No texto que reproduzo, aparece a palavra «fatwa» como sendo um plural — e não é. Também acontece muitas vezes, para formar o plural, juntar-se-lhe um s, o que pode não se adequar ao original (pensemos no italianismo graffiti). O Livro de Estilo do Público, por exemplo, refere-se concretamente ao termo do texto: «“fatwa” (plural “fatawa”) — Termo técnico usado na lei islâmica para indicar um julgamento ou uma deliberação legal formal.» Se queremos pluralizar como o fazemos na língua portuguesa, aportuguesemos o vocábulo. O seriíssimo jornal O Estado de S. Paulo é isso que, de vez em quando, faz: «Um imã de Calcutá emitiu uma fátua (édito religioso) contra a escritora de Bangladesh Taslima Nasreen por seus comentários “anti-islâmicos”, informou nesta segunda-feira o diário The Times of India» («Imã emite fátua contra escritora por crítica ao Islã», 26.06.2006).

Adjectivos pátrios compostos

Aqui não há precedências

Já não me recordo dos pormenores, mas a pergunta, de uma tradutora, aos consultores do Ciberdúvidas era se existia precedência dos termos em compostos como anglo-americano. Lembrei-me agora disto a propósito da jornalista Roxana Saberi, condenada a oito anos de prisão no Irão e agora libertada. De uma maneira geral, a imprensa portuguesa di-la americano-iraniana: «Jornalista americano-iraniana Roxana Saberi sai em Liberdade após redução da pena» (Maria João Guimarães, Público, 12.05.2009, p. 12). A imprensa brasileira, por seu turno, prefere-a iraniano-americana: «A jornalista iraniano-americana Roxana Saberi, condenada no Irã a oito anos de prisão por espionagem, encerrou a greve de fome, anunciou o pai da detenta, Reza Saberi» (Jornal do Brasil, 6.05.2009).

Léxico: «viril»

Não é de homem

«Os especialistas estavam sobretudo preocupados com o facto de o viril, elemento fundamental para a sustentação da peça, estar partido e de as figuras que a compõem — 12 apóstolos, Deus Pai, os anjos músicos, a virgem Maria e a pomba simbolizando o Espírito Santo —, decoradas com ouro e esmalte policromado (parte dele a destacar-se), estarem cobertas por uma estranha e fina poeira. […] Estas figuras encontram-se na segunda e terceira partes da custódia, digamos assim, peça que se divide em três zonas distintas: a base, onde se encaixa a haste, decorada com esferas armilares, a divisa de D. Manuel; o corpo central, onde está o viril destinado à hóstia, rodeado pelos 12 apóstolos; e, finalmente, o duplo baldaquino do gótico final, marcado pela figura de Deus Pai sentado numa cadeira, segurando também ele uma esfera armilar, e pela pomba que simboliza o Espírito Santo» («Custódia de Belém», Lucinda Canelas, Público/P2, 12.05.2009, p. 4).
Faz-me lembrar a história, real, de uma pessoa conhecida, nova-rica, muito orgulhosa do «vidral» que tinha mandado pôr a encimar a porta da entrada da moradia. Os conhecidos troçavam dela nas costas, mal sabendo que «vidral» também é uma forma admissível de nos referirmos ao «vitral». Por analogia, é claro, com «vidro», mas na realidade «vitral» tem como étimo o francês vitrail. Quanto a viril, é a âmbula ou redoma de vidro onde se guardam relíquias e outros objectos de estimação, e deriva provavelmente de vidril (vidro+-il).

Léxico: «procedural»

Mais um

«Os procedurals, esse subgénero das séries que parece reproduzir-se como coelhos, estão para ficar no ecossistema televisivo. […] Os procedurals (género que se foca na investigação de um acontecimento — clínico, policial ou judicial) e a audiência mais velha eram tradicionalmente as armas e alvos do canal [CBS]» («É sempre bom saber que os bons continuam a ganhar», Joana Amaral Cardoso, Público/P2, 12.05.2009, p. 9). Em inglês, procedural é um adjectivo e não significa mais do que «procedimental; por procedimento». O Merriam-Webster Online Dictionary regista a locução police procedural, dizendo ter sido registada na língua inglesa pela primeira vez em 1967 e significando «a mystery story written from the point of view of the police investigating the crime».

Explicar estrangeirismos

Toma!

«Curioso é o facto de no rol dos produtos mais consumidos pelas famílias cocooning (encasulamento) constarem os preservativos masculinos e femininos» («Famílias poupadas», Ana Fonseca, Notícias Sábado, 9.05.2009, p. 8). As explicações são para quem sabe ou para quem não sabe? Pergunta parva, hã? Então também a explicação é parva. Cara Ana Fonseca, deveria ter escrito «encasulamento, ou preferência por uma vida caseira», por exemplo.

«Tigres Tâmiles», de novo

Parabéns

Pode ter sido por distracção, mas no jornal Público escrevem Tigres Tâmiles. Ora leiam: «Os Tigres Tâmiles falaram de um cenário em que tinham morrido “mais de dois mil civis inocentes durante o fim-de-semana, e culpam o Governo por ter disparado contras as pessoas que o movimento tem mantido reféns durante meses, numa tentativa de última hora de tentar obter pressão internacional para uma trégua que evite a derrota» («Banho de sangue confirmado no Nordeste do Sri Lanka», Público, 12.05.2009, p. 12). Tirando a «tentativa de última hora de tentar obter», está quase perfeito.

Actualização a 15.05.2009

Afinal, parece que não é distracção: «Mais de dois mil civis conseguiram fugir aos combates entre o Exército e os Tigres Tâmiles, em curso numa estreita faixa arenosa, na costa do Nordeste do Sri Lanka» («Dois mil passam lago para fugir à guerra», Público, 15.05.2009, p. 20).

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