Aportuguesamentos

Primeiro estranha-se

      Sim, é verdade: em vez de atelier podemos optar por «estúdio, loja, oficina»; em vez de robot podemos escrever «autómato»; em vez de complot, podemos usar «conspiração». Para capot e tricot, não temos correspondente. Contudo, a generalidade dos falantes prefere usar os empréstimos, ultimamente aportuguesados. Assim, ao lado daqueles, temos ateliê, robô, capô, complô, tricô. O jornal Expresso, que aderiu a estes aportuguesamentos, não vai, porém, mais longe do que o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, da Academia das Ciências de Lisboa. No Expresso não se lê, por exemplo, «balé», aportuguesamento já registado de ballet, como também não se lê «gurmê», aportuguesamento não registado de gourmet. «Casei-me aos 24 anos e durante dez anos só dancei e dei aulas de ballet. […] Há 10 anos não havia lojas gourmet e o galo de Barcelos era piroso» («Defensora da terra», Alexandra Simões de Abreu, revista Única, 14.03.2009, p. 12).

«Provocante» e «provocador»

XXX

Quem é que nunca se pergunta, no momento em que escreve ou lê, se existe alguma diferença entre «provocante» e «provocador»? A consulta dos corpora de português comprovam, e suponho que é esta a ideia partilhada pela maioria dos falantes, um predomínio do uso do adjectivo «provocante» em contextos com uma conotação vagamente sexual ou erótica. Fala-se de requebros, pose, minissaia, decote, andar, sorriso, voz, olhar provocantes. Sempre da mulher. E fala-se de anúncios, filmes, livros, linguagem, títulos provocantes. Mas também se vêem sorrisos e comportamentos provocadores, mostrando-se intermutável. Mas há locuções fixas, como agente provocador. «Provocante», é claro, é só adjectivo. Veja-se esta frase de Fernando Venâncio, um prosador exímio e provoca…: «O livro [Com os Holandeses, publicado agora pela Quetzal] de Rentes (hoje com 14 edições, uma delas de bolso) tinha a tradução impecável do lusitanista August Willemsen e vinha revelar um prosador exímio e provocante» («Um meridional nos Países Baixos», Fernando Venâncio, Actual, 18.04.2009, p. 18).

Léxico: «waterboarding»

Simulações

      «Segundo o diário The Washington Post, a agência elaborou um documento que enviou ao Pentágono no qual as técnicas “duras” de interrogatório, como waterboarding ou simulação de afogamento, são consideradas tortura» («Agência militar norte-americana alertou contra o suo de tortura nos interrogatórios», Isabel Gorjão Santos, Público, 26.04.2009, p. 17). É palavra que está na ordem do dia. Para os jornalistas, parece que «simulação de afogamento» não chega para explicar.
      E já que falei de tortura, no feriado vi uns minutos do programa Praça da Alegria. A propósito da criminalidade juvenil, Jorge Gabriel perguntava aos seus convidados, entre os quais reconheci o médico-legista José Pinto da Costa e a eurodeputada Edite Estrela: «Exige-se outra observância destes casos?» O mesmo Jorge Gabriel que garante no seu sítio pessoal: «Antes de adormecer tenho que viajar para outro universo. Só consigo fazê-lo depois de ler um livro.» Que falta de imaginação…

Conceito de «tarde»

É quando o homem quiser

Diz-se do Natal. Mas há quem julgue que pode dizer o mesmo da tarde. Assiste-se muitas vezes a esta situação: no estúdio, da rádio ou da televisão, um jornalista diz «bom dia», e o repórter responde energicamente «boa tarde». E isto passa-se, digamos, no noticiário das 13 horas. Até já ouvi, em conversa pessoal, um jornalista ignorante explicar como se afere se é de manhã ou de tarde. Dizia esta bestiaga que, se a pessoa já tivesse almoçado, era de tarde… Isto é que é um conceito, ninguém errava. A tarde, deviam todos saber, é o período de tempo que vai do meio-dia ao crepúsculo vespertino.

Léxico: «dálita»

Já contribuí

      «Para muitos dálitas (ex-intocáveis, termo banido pela Constituição), ela [Mayawati] é o símbolo do maan sammaam, ou respeito — respeito que séculos de rígida hierarquização social não fizeram cair sobre os que estão na base da pirâmide» («A Rainha dos Intocáveis está pronta para mais um sismo», Francisca Gorjão Henriques, Público, 26.04.2009, p. 16). Vai-se vendo tanto em traduções como na imprensa. E já aqui tinha dado conta do seu uso.

Sigla TAC

É ver-se

      Digam lá o que disserem, o certo é que, pelo menos nas traduções, o que vou vendo é que se atribui o género feminino à sigla TAC (Tomografia Axial Computadorizada): «Para saber isso, preciso, além dessas ressonâncias magnéticas que trouxe, de uma TAC, para termos uma imagem do crânio assim como da situação do cérebro» (Património, Philip Roth. Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues e revisão tipográfica de Eulália Pyrrait. Lisboa: Dom Quixote, 2.ª ed., 2008, p. 120). «Levaram-me para me fazerem uma TAC ao cérebro» (O Dia em Que a Minha Vida Mudou, Jill Bolte Taylor. Tradução de Alice Rocha. Lisboa: Editorial Presença, 2008, p. 75).

Léxico: «finning»


Há dias assim

      E há conjunções assim: ontem ao início da tarde, ouvi na Antena 1 que o Zoomarine está a pedir aos visitantes que assinem uma petição dirigida à União Europeia para a regulamentação da prática do (shark) finning. Foi a primeira vez que ouvi a palavra, ao que parece anglicismo insubstituível, que designa o corte das barbatanas dos tubarões e descarte do corpo no mar. Ao final da tarde, reparei, talvez pela primeira vez, na antena de um BMW como a da imagem. E que nome tem essa antena? Pois shark fin… Ou, se quiserem, do tipo shark fin.

Siglas e acrónimos (I)

Olha, olha…

      Venho observando, com alguma estranheza, como ultimamente se encaixam nas siglas umas letrinhas minúsculas. AdP, BdP, e por aí fora… «O Grupo Águas de Portugal (AdP) vai criar uma rede própria de abastecimento energético a partir de fontes renováveis, soube o Jornal de Negócios» («AdP entra nas renováveis para reduzir 1/3 de custos de energia», Tânia Ferreira, Jornal de Negócios, 8.5.2006, p. 4). «A Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM) e o Banco de Portugal (BdP) vão reforçar a cooperação na supervisão financeira a vários níveis, incluindo a troca de informação estatística, o planeamento articulado de acções e a formação de equipas conjuntas» («BdP e CMVM reforçam supervisão do sector» Meia Hora, 27.2.20008, p. 8). Na sexta-feira passada, foi a vez de Miguel Esteves Cardoso, na sua crónica no Público, se meter com o abstruso acrónimo do Museu do Design e da Moda: «No mundo das letras, a liberdade é maior. Mas também há regras. As siglas podem fazer um bocadinho de batota para ficarem mais memoráveis e mais giras — mas só um bocadinho. A pseudo-batotinha [sic] genial do MoMA é incluir o “of” na sigla do Museum of Modern Art (afinal um excesso de honestidade) e sinalizá-lo com uma minúscula. Assim, em vez do tédio que seria MMA, realçaram graficamente o acrónimo e transformaram-no numa sigla pronunciável com uma bela ressonância freudiana.
      Por cá o nosso prometedor Museu do Design e da Moda, inevitavelmente fã da sigla MoMA, levou as coisas longe de mais e surge com uma sigla que é, em termos literários e de design, inaceitável. O resultado são títulos como o do PÚBLICO de ontem, que criou em mim uma expectativa falsa: Mude com Antestreia a 22 de Maio, prometia. E eu, sempre disposto a mudar através da Arte, lá fui saber se Antestreia era um filme, uma peça ou um livro.
      Mas afinal Mude era um acrónimo. Do Museu do Design e da Moda. Do MdMedM. Ou do MDM. Agora Mude? Com as últimas três letras em caixa baixa? Só porque o mundo da moda e do design é feito (bocejo) de mudança? E aquele U — foi sacado de que cu? Ca ganda lata» («What a lata!», Miguel Esteves Cardoso, Público, 24.04.2009, p. 37).
 


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