Conceito de «tarde»

É quando o homem quiser

Diz-se do Natal. Mas há quem julgue que pode dizer o mesmo da tarde. Assiste-se muitas vezes a esta situação: no estúdio, da rádio ou da televisão, um jornalista diz «bom dia», e o repórter responde energicamente «boa tarde». E isto passa-se, digamos, no noticiário das 13 horas. Até já ouvi, em conversa pessoal, um jornalista ignorante explicar como se afere se é de manhã ou de tarde. Dizia esta bestiaga que, se a pessoa já tivesse almoçado, era de tarde… Isto é que é um conceito, ninguém errava. A tarde, deviam todos saber, é o período de tempo que vai do meio-dia ao crepúsculo vespertino.

Léxico: «dálita»

Já contribuí

      «Para muitos dálitas (ex-intocáveis, termo banido pela Constituição), ela [Mayawati] é o símbolo do maan sammaam, ou respeito — respeito que séculos de rígida hierarquização social não fizeram cair sobre os que estão na base da pirâmide» («A Rainha dos Intocáveis está pronta para mais um sismo», Francisca Gorjão Henriques, Público, 26.04.2009, p. 16). Vai-se vendo tanto em traduções como na imprensa. E já aqui tinha dado conta do seu uso.

Sigla TAC

É ver-se

      Digam lá o que disserem, o certo é que, pelo menos nas traduções, o que vou vendo é que se atribui o género feminino à sigla TAC (Tomografia Axial Computadorizada): «Para saber isso, preciso, além dessas ressonâncias magnéticas que trouxe, de uma TAC, para termos uma imagem do crânio assim como da situação do cérebro» (Património, Philip Roth. Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues e revisão tipográfica de Eulália Pyrrait. Lisboa: Dom Quixote, 2.ª ed., 2008, p. 120). «Levaram-me para me fazerem uma TAC ao cérebro» (O Dia em Que a Minha Vida Mudou, Jill Bolte Taylor. Tradução de Alice Rocha. Lisboa: Editorial Presença, 2008, p. 75).

Léxico: «finning»


Há dias assim

      E há conjunções assim: ontem ao início da tarde, ouvi na Antena 1 que o Zoomarine está a pedir aos visitantes que assinem uma petição dirigida à União Europeia para a regulamentação da prática do (shark) finning. Foi a primeira vez que ouvi a palavra, ao que parece anglicismo insubstituível, que designa o corte das barbatanas dos tubarões e descarte do corpo no mar. Ao final da tarde, reparei, talvez pela primeira vez, na antena de um BMW como a da imagem. E que nome tem essa antena? Pois shark fin… Ou, se quiserem, do tipo shark fin.

Siglas e acrónimos (I)

Olha, olha…

      Venho observando, com alguma estranheza, como ultimamente se encaixam nas siglas umas letrinhas minúsculas. AdP, BdP, e por aí fora… «O Grupo Águas de Portugal (AdP) vai criar uma rede própria de abastecimento energético a partir de fontes renováveis, soube o Jornal de Negócios» («AdP entra nas renováveis para reduzir 1/3 de custos de energia», Tânia Ferreira, Jornal de Negócios, 8.5.2006, p. 4). «A Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM) e o Banco de Portugal (BdP) vão reforçar a cooperação na supervisão financeira a vários níveis, incluindo a troca de informação estatística, o planeamento articulado de acções e a formação de equipas conjuntas» («BdP e CMVM reforçam supervisão do sector» Meia Hora, 27.2.20008, p. 8). Na sexta-feira passada, foi a vez de Miguel Esteves Cardoso, na sua crónica no Público, se meter com o abstruso acrónimo do Museu do Design e da Moda: «No mundo das letras, a liberdade é maior. Mas também há regras. As siglas podem fazer um bocadinho de batota para ficarem mais memoráveis e mais giras — mas só um bocadinho. A pseudo-batotinha [sic] genial do MoMA é incluir o “of” na sigla do Museum of Modern Art (afinal um excesso de honestidade) e sinalizá-lo com uma minúscula. Assim, em vez do tédio que seria MMA, realçaram graficamente o acrónimo e transformaram-no numa sigla pronunciável com uma bela ressonância freudiana.
      Por cá o nosso prometedor Museu do Design e da Moda, inevitavelmente fã da sigla MoMA, levou as coisas longe de mais e surge com uma sigla que é, em termos literários e de design, inaceitável. O resultado são títulos como o do PÚBLICO de ontem, que criou em mim uma expectativa falsa: Mude com Antestreia a 22 de Maio, prometia. E eu, sempre disposto a mudar através da Arte, lá fui saber se Antestreia era um filme, uma peça ou um livro.
      Mas afinal Mude era um acrónimo. Do Museu do Design e da Moda. Do MdMedM. Ou do MDM. Agora Mude? Com as últimas três letras em caixa baixa? Só porque o mundo da moda e do design é feito (bocejo) de mudança? E aquele U — foi sacado de que cu? Ca ganda lata» («What a lata!», Miguel Esteves Cardoso, Público, 24.04.2009, p. 37).
 


Léxico: «herpetofauna» e «herpetologia»

No reino animal

«Sapos e rãs, tritões, relas e salamandras. Até final do ano, no Fluviário de Mora, todos eles são embaixadores da herpetofauna nacional, representada, com fins pedagógicos, na exposição “Anfíbios de Portugal”. Comissariada por Paulo Sá e Sousa, biólogo e docente da Universidade de Évora, especialista em Herpetologia (ramo do saber que se dedica ao estudo de anfíbios e répteis), “Anfíbios de Portugal” apresenta uma selecção das principais espécies encontradas em território nacional, num alerta, também, para os riscos que pairam sobre a sua sobrevivência» («Fluviário de Mora apresenta ‘Anfíbios de Portugal’», Maria João Pinto, Diário de Notícias, 26.04.2009, p. 67). Já estamos habituados a termos técnicos semelhantes, como avifauna.

Léxico: «filactérios»

Imagem: http://noam.juniorwebaward.ch/

Portas da Esperança

«Filactérios são as duas pequenas caixas de cabedal que contêm extractos bíblicos que um judeu ortodoxo prende a si mesmo com pequenas tiras de couro — uma atada à testa e a outra ao braço esquerdo — durante as preces matinais dos dias da semana» (Património, Philip Roth. Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues e revisão tipográfica de Eulália Pyrrait. Lisboa: Dom Quixote, 2.ª ed., 2008, p. 83). Filactérios vem do grego, língua em que significa «posto avançado; fortificação; protecção», nome adequado para o que é basicamente um amuleto. Em hebraico, por sua vez, o termo usado para referir estas caixas é תפילין, que, transcrito, é tefilin, com raiz na palavra tefilá, «prece». Não raramente, é o termo hebraico que vejo em traduções e não o português. O vocábulo «filactérios» é um pluralia tantum, de que já aqui falei. Se quiserem saber mais, visitem a Sinagoga de Lisboa. É muito melhor do que estarem aí sentados em frente ao computador.

«Por que diabo»

Vai havendo paciência

Cada vez que aqui escrevo, e já foram algumas, «por que raio» ou «por que diabo», há sempre alguém, que suponho ser a mesma pessoa, que me pergunta se não deveria ser «porque raio» ou «porque diabo». Nunca publiquei nem respondi a esses comentários. Hoje, contudo, faço-o, para ilustração do anónimo que se dá ao trabalho de comentar e de todos os que têm dúvidas. Se não há dúvida que se deve escrever «por que razão» (embora daqui a cinquenta anos ainda haja quem não tenha a certeza), por que diabo há dúvidas quanto a «por que diabo»? Que diabo!...

«Por que diabo lho dissera ela? Tinha obrigação de saber!)» (O Sonho mais Doce. Doris Lessing. 2.ª edição. Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues. Lisboa: Editorial Presença, 2007, p. 17).
«Era o que ele tinha para me dar, era o que ele quisera dar-me, era-me devido por costume e tradição, e por que raio não mantivera eu a boca fechada e não permitira que acontecesse o que era natural acontecer?» (Património, Philip Roth. Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues e revisão tipográfica de Eulália Pyrrait. Lisboa: Dom Quixote, 2.ª ed., 2008, p. 94).
«Afinal, perguntaria o senhor se fosse pessoa para cortar um depoimento com perguntas desnecessárias, afinal por que diabo deu o casamento em pantanas?» (Primeiro as Senhoras. Relato do Último Bom Malandro, Mário Zambujal. Revisão de Oficina do Livro, Lisboa, 3.ª ed., 2006, p. 67).

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