Léxico: «finning»


Há dias assim

      E há conjunções assim: ontem ao início da tarde, ouvi na Antena 1 que o Zoomarine está a pedir aos visitantes que assinem uma petição dirigida à União Europeia para a regulamentação da prática do (shark) finning. Foi a primeira vez que ouvi a palavra, ao que parece anglicismo insubstituível, que designa o corte das barbatanas dos tubarões e descarte do corpo no mar. Ao final da tarde, reparei, talvez pela primeira vez, na antena de um BMW como a da imagem. E que nome tem essa antena? Pois shark fin… Ou, se quiserem, do tipo shark fin.

Siglas e acrónimos (I)

Olha, olha…

      Venho observando, com alguma estranheza, como ultimamente se encaixam nas siglas umas letrinhas minúsculas. AdP, BdP, e por aí fora… «O Grupo Águas de Portugal (AdP) vai criar uma rede própria de abastecimento energético a partir de fontes renováveis, soube o Jornal de Negócios» («AdP entra nas renováveis para reduzir 1/3 de custos de energia», Tânia Ferreira, Jornal de Negócios, 8.5.2006, p. 4). «A Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM) e o Banco de Portugal (BdP) vão reforçar a cooperação na supervisão financeira a vários níveis, incluindo a troca de informação estatística, o planeamento articulado de acções e a formação de equipas conjuntas» («BdP e CMVM reforçam supervisão do sector» Meia Hora, 27.2.20008, p. 8). Na sexta-feira passada, foi a vez de Miguel Esteves Cardoso, na sua crónica no Público, se meter com o abstruso acrónimo do Museu do Design e da Moda: «No mundo das letras, a liberdade é maior. Mas também há regras. As siglas podem fazer um bocadinho de batota para ficarem mais memoráveis e mais giras — mas só um bocadinho. A pseudo-batotinha [sic] genial do MoMA é incluir o “of” na sigla do Museum of Modern Art (afinal um excesso de honestidade) e sinalizá-lo com uma minúscula. Assim, em vez do tédio que seria MMA, realçaram graficamente o acrónimo e transformaram-no numa sigla pronunciável com uma bela ressonância freudiana.
      Por cá o nosso prometedor Museu do Design e da Moda, inevitavelmente fã da sigla MoMA, levou as coisas longe de mais e surge com uma sigla que é, em termos literários e de design, inaceitável. O resultado são títulos como o do PÚBLICO de ontem, que criou em mim uma expectativa falsa: Mude com Antestreia a 22 de Maio, prometia. E eu, sempre disposto a mudar através da Arte, lá fui saber se Antestreia era um filme, uma peça ou um livro.
      Mas afinal Mude era um acrónimo. Do Museu do Design e da Moda. Do MdMedM. Ou do MDM. Agora Mude? Com as últimas três letras em caixa baixa? Só porque o mundo da moda e do design é feito (bocejo) de mudança? E aquele U — foi sacado de que cu? Ca ganda lata» («What a lata!», Miguel Esteves Cardoso, Público, 24.04.2009, p. 37).
 


Léxico: «herpetofauna» e «herpetologia»

No reino animal

«Sapos e rãs, tritões, relas e salamandras. Até final do ano, no Fluviário de Mora, todos eles são embaixadores da herpetofauna nacional, representada, com fins pedagógicos, na exposição “Anfíbios de Portugal”. Comissariada por Paulo Sá e Sousa, biólogo e docente da Universidade de Évora, especialista em Herpetologia (ramo do saber que se dedica ao estudo de anfíbios e répteis), “Anfíbios de Portugal” apresenta uma selecção das principais espécies encontradas em território nacional, num alerta, também, para os riscos que pairam sobre a sua sobrevivência» («Fluviário de Mora apresenta ‘Anfíbios de Portugal’», Maria João Pinto, Diário de Notícias, 26.04.2009, p. 67). Já estamos habituados a termos técnicos semelhantes, como avifauna.

Léxico: «filactérios»

Imagem: http://noam.juniorwebaward.ch/

Portas da Esperança

«Filactérios são as duas pequenas caixas de cabedal que contêm extractos bíblicos que um judeu ortodoxo prende a si mesmo com pequenas tiras de couro — uma atada à testa e a outra ao braço esquerdo — durante as preces matinais dos dias da semana» (Património, Philip Roth. Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues e revisão tipográfica de Eulália Pyrrait. Lisboa: Dom Quixote, 2.ª ed., 2008, p. 83). Filactérios vem do grego, língua em que significa «posto avançado; fortificação; protecção», nome adequado para o que é basicamente um amuleto. Em hebraico, por sua vez, o termo usado para referir estas caixas é תפילין, que, transcrito, é tefilin, com raiz na palavra tefilá, «prece». Não raramente, é o termo hebraico que vejo em traduções e não o português. O vocábulo «filactérios» é um pluralia tantum, de que já aqui falei. Se quiserem saber mais, visitem a Sinagoga de Lisboa. É muito melhor do que estarem aí sentados em frente ao computador.

«Por que diabo»

Vai havendo paciência

Cada vez que aqui escrevo, e já foram algumas, «por que raio» ou «por que diabo», há sempre alguém, que suponho ser a mesma pessoa, que me pergunta se não deveria ser «porque raio» ou «porque diabo». Nunca publiquei nem respondi a esses comentários. Hoje, contudo, faço-o, para ilustração do anónimo que se dá ao trabalho de comentar e de todos os que têm dúvidas. Se não há dúvida que se deve escrever «por que razão» (embora daqui a cinquenta anos ainda haja quem não tenha a certeza), por que diabo há dúvidas quanto a «por que diabo»? Que diabo!...

«Por que diabo lho dissera ela? Tinha obrigação de saber!)» (O Sonho mais Doce. Doris Lessing. 2.ª edição. Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues. Lisboa: Editorial Presença, 2007, p. 17).
«Era o que ele tinha para me dar, era o que ele quisera dar-me, era-me devido por costume e tradição, e por que raio não mantivera eu a boca fechada e não permitira que acontecesse o que era natural acontecer?» (Património, Philip Roth. Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues e revisão tipográfica de Eulália Pyrrait. Lisboa: Dom Quixote, 2.ª ed., 2008, p. 94).
«Afinal, perguntaria o senhor se fosse pessoa para cortar um depoimento com perguntas desnecessárias, afinal por que diabo deu o casamento em pantanas?» (Primeiro as Senhoras. Relato do Último Bom Malandro, Mário Zambujal. Revisão de Oficina do Livro, Lisboa, 3.ª ed., 2006, p. 67).

Uso do hífen

Ora essa

«Tirei a cortina da janela, apesar de parecer limpa, enfiei-a na fronha de almofada e onde estavam as outras coisas sujas, fui à casa de banho de Claire, peguei num frasco de água-de-colónia e salpiquei com mãos-largas o aposento levado e esfregado, sacudindo-a das pontas dos dedos como se fosse água-benta» (Património, Philip Roth. Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues e revisão tipográfica de Eulália Pyrrait. Lisboa: Dom Quixote, 2.ª ed., 2008, p. 157). Nas locuções de qualquer tipo, sejam elas substantivas, adjectivas, pronominais, adverbiais, prepositivas ou conjuncionais, só por excepção já consagrada pelo uso se emprega o hífen, mas água benta não é manifestamente uma delas. É-o, e refiro-o por estar na mesma frase, água-de-colónia.

«Vice» é substantivo

Mais incoerências

«Obama pode escolher Tim Kaine como seu ‘vice’» (Pedro Correia, Diário de Notícias, 30.07.2008, p. 29). Sem grandes elucubrações, imagino que o critério por detrás da decisão de aspar o vocábulo «vice» seja o de que se trata de mero elemento de formação, prefixo. Pois bem, então porque não fizeram o mesmo com o vocábulo «páras» no seguinte título? «Valença Pinto elogia páras» (Manuel Carlos Freire, Diário de Notícias, 1.04.2009, p. 8). No Dicionário Houaiss, «vice» é também classificado como substantivo dos dois géneros, que é o que morfologicamente são tanto «vice» como «páras» (e mais claramente este, pois está flexionado no plural, e os prefixos são invariáveis) nos títulos citados.

«Autismo» e «mongolismo»

Fim do mundo

      Em conferência, os líderes parlamentares acordaram que deveriam evitar o uso dos vocábulos (das «expressões, escreveu a jornalista do Público Sofia Rodrigues…) «autismo» e «autista» no hemiciclo. Sobre a palavra «caralho», ao que parece, não disseram nada. É o politicamente correcto a impor-se. Por este andar, qualquer dia vão proscrever a palavra «anquilosado» com que a oposição qualifica o sistema. Com o tempo, poderá mesmo deixar de haver provas cegas nos concursos de enofilia, janelas cegas na arquitectura e voos cegos na aviação. Nada de sentidos figurados, em suma.
      Já aqui tinha analisado uma questão semelhante: o uso do termo «mongolismo». O certo é que mesmo os especialistas continuam a usá-lo: «No entanto, com o avançar da idade da mãe, tornam-se mais prováveis “anomalias cromossómicas numéricas, como a trissomia 21 (o chamado mongolismo)”, adianta Heloísa Santos [geneticista e pediatra], devido ao envelhecimento dos óvulos, que nascem com a mulher» («Erro em espermatozóides do pai afecta QI dos bebés», Sara Gamito, Diário de Notícias, 15.03.2009, p. 18).

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