Uso do hífen

Ora essa

«Tirei a cortina da janela, apesar de parecer limpa, enfiei-a na fronha de almofada e onde estavam as outras coisas sujas, fui à casa de banho de Claire, peguei num frasco de água-de-colónia e salpiquei com mãos-largas o aposento levado e esfregado, sacudindo-a das pontas dos dedos como se fosse água-benta» (Património, Philip Roth. Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues e revisão tipográfica de Eulália Pyrrait. Lisboa: Dom Quixote, 2.ª ed., 2008, p. 157). Nas locuções de qualquer tipo, sejam elas substantivas, adjectivas, pronominais, adverbiais, prepositivas ou conjuncionais, só por excepção já consagrada pelo uso se emprega o hífen, mas água benta não é manifestamente uma delas. É-o, e refiro-o por estar na mesma frase, água-de-colónia.

«Vice» é substantivo

Mais incoerências

«Obama pode escolher Tim Kaine como seu ‘vice’» (Pedro Correia, Diário de Notícias, 30.07.2008, p. 29). Sem grandes elucubrações, imagino que o critério por detrás da decisão de aspar o vocábulo «vice» seja o de que se trata de mero elemento de formação, prefixo. Pois bem, então porque não fizeram o mesmo com o vocábulo «páras» no seguinte título? «Valença Pinto elogia páras» (Manuel Carlos Freire, Diário de Notícias, 1.04.2009, p. 8). No Dicionário Houaiss, «vice» é também classificado como substantivo dos dois géneros, que é o que morfologicamente são tanto «vice» como «páras» (e mais claramente este, pois está flexionado no plural, e os prefixos são invariáveis) nos títulos citados.

«Autismo» e «mongolismo»

Fim do mundo


      Em conferência, os líderes parlamentares acordaram que deveriam evitar o uso dos vocábulos (das «expressões, escreveu a jornalista do Público Sofia Rodrigues…) «autismo» e «autista» no hemiciclo. Sobre a palavra «caralho», ao que parece, não disseram nada. É o politicamente correcto a impor-se. Por este andar, qualquer dia vão proscrever a palavra «anquilosado» com que a oposição qualifica o sistema. Com o tempo, poderá mesmo deixar de haver provas cegas nos concursos de enofilia, janelas cegas na arquitectura e voos cegos na aviação. Nada de sentidos figurados, em suma.
      Já aqui tinha analisado uma questão semelhante: o uso do termo «mongolismo». O certo é que mesmo os especialistas continuam a usá-lo: «No entanto, com o avançar da idade da mãe, tornam-se mais prováveis “anomalias cromossómicas numéricas, como a trissomia 21 (o chamado mongolismo)”, adianta Heloísa Santos [geneticista e pediatra], devido ao envelhecimento dos óvulos, que nascem com a mulher» («Erro em espermatozóides do pai afecta QI dos bebés», Sara Gamito, Diário de Notícias, 15.03.2009, p. 18).

«Favorecer»?

Do jornalês

      «Obama favorece painel independente para investigar tortura» (Rita Siza, Público, 23.04.2009, p. 2). Um leitor chamou-me ontem a atenção para este título, perguntando: «Favorecer ou ser a favor?» Ao que suponho, o leitor vê ali um to favour com o rabo de fora. Contudo, favorecer também é «apoiar, ser favorável». Admito, porém, que nem todos os leitores compreenderão o título. Tirando as minhas leituras de dicionários, para uma pessoa como eu que convivi com carpinteiros e marceneiros, painel pouco mais é do que a «almofada de porta, janela ou tecto». Mas a língua evolui, ah claro, a bem ou a mal. Só à conta do jornalês, a língua vai ficando outra.

Tradução: «fantásmico»

Agora eu inventava

«Parecia-me que não era do medo das coisas dela e do seu poder fantásmico que queria livrar sem demora a casa — sepultá-las agora, também —, mas sim porque se recusava a passar ao lado do mais brutal de todos os factos» (Património, Philip Roth. Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues e revisão tipográfica de Eulália Pyrrait. Lisboa: Dom Quixote, 2.ª ed., 2008, p. 29). Fantásmico como fantástico, é isso? Do inglês phantasmic, «irreal, próprio de fantasma». Pois, mas é um aportuguesamento inútil, pois temos os adjectivos fantasmal e fantasmagórico. Para nos assustarem, chega e sobra.
É, contudo, verdade, que o termo está registado no Dicionário Houaiss, assim como na novíssima edição do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, da Academia Brasileira de Letras, até porque o étimo do vocábulo inglês é o latino phantasmaticus.

Verbos reflexos

Treino sem me ajoelhar

«— Ela pediu ensopado de mexilhões de Nova Inglaterra — disse-me, enquanto eu ajoelhava ao seu lado, ainda de sobretudo e a segurar-lhe a mão — e eu pedi de Manhattan» (Património, Philip Roth. Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues e revisão tipográfica de Eulália Pyrrait. Lisboa: Dom Quixote, 2.ª ed., 2008, p. 32). É verdade que M. Said Ali, na Grammatica historica da lingua portugueza (São Paulo: Melhoramentos. 2.ª ed., 1931, pp. 201-2), escreve que «verbos desta espécie [os que se referem a actos materiais, em geral movimentos, que o sujeito executa iguais aos que executa em coisas ou noutras pessoas] na sua própria pessoa dispensam por vezes o pronome, como mudar ou mudar-se (para outro lugar), ajoelhar ou ajoelhar-se», eu é que não me convenço nem ninguém me persuade. Mas a tradução da obra de Roth usa o nefando treinar-se: «Pela primeira vez em alguns meses, parecia bem-disposta e confiante e é muito possível que tenha saído naquela tarde na esperança de começar a treinar-se para a nossa volta estival» (p. 31).

«Recebedor», «recipiente», «recipiendário»


Dilemas

      «O seu afã de satisfazer a necessidade (real ou imaginária) do recebedor era tão grande que nem sempre pensava no efeito que a sua impulsividade produzia no dador involuntário» (Património, Philip Roth. Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues e revisão tipográfica de Eulália Pyrrait. Lisboa: Dom Quixote, 2.ª ed., 2008, p. 26). Não sei que palavra está no original em vez daquele «recebedor», mas imagino facilmente que será «recipient». Não têm conta as vezes que já emendei em traduções, de novatos mas não só, a tradução de «recipiente» para «destinatário», ou, num circunlóquio, «aquele que recebe» ou algo que o valha. Se recipiente me faz apenas e logo lembrar uma vasilha, recebedor traz-me à memória o Cobrador do Fraque (que eu nunca vi nenhum à frente). Que sim, leitor virulento, recipiente também significa «o que recebe», tal como recebedor. Já temos sorte (temos?) por esses tradutores não optarem por recipiendário. Sim, também significa «que ou aquele que tem de receber qualquer coisa». Acho que, sem deixar passar, os desculparia mais indulgentemente, pois recordo-me da emoção que foi, teria 15 anos, a descoberta desta palavra.

Trindade e Tobago

Ou nas calendas gregas

Na TSF, ouviu-se durante a semana passada que a V Cimeira das Américas se realizava em Trinidad e Tobago. Nos jornais, mais judiciosos, não se leu tal. Escrevem que foi em Trindade e Tobago. Só quando disser santísima Trinidad e começar a rezar um padre nuestroPadre nuestro que estás en el cielo,/santificado sea tu Nombre… — é que passarei a escrever e a dizer Trinidad e Tobago.

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