«Abaixo» e «a baixo»

Abaixo!


      «Era Clyde, que se aproximara sem repararem nele, e estava na outra extremidade da sala, besuntado de cima abaixo com óleo e a segurar o fecho de uma caixa frigorífica» (Travessia de Verão, Truman Capote. Tradução de Manuel Cintra, revisão de tradução de Maria João Freire de Andrade e revisão tipográfica de Eulália Pyrrait. Lisboa: Dom Quixote, 2.ª ed., 2007, p. 83). Na realidade, a locução adverbial é «de cima a baixo».

«Debaixo» e «de baixo»

Desembucha

«Foi atravessada por um rugido vindo de debaixo do chão. Parara em cima de uma grade de metropolitano: no fundo dos interstícios da grade, conseguia ouvir o chiar de rodas de aço, e a seguir, mais próximo, um ruído mais atordoador» (Travessia de Verão, Truman Capote. Tradução de Manuel Cintra, revisão de tradução de Maria João Freire de Andrade e revisão tipográfica de Eulália Pyrrait. Lisboa: Dom Quixote, 2.ª ed., 2007, p. 75). «De debaixo»? Não vamos agora gaguejar por tão pouco. Com um verbo de movimento, nunca se poderia usar a locução prepositiva «debaixo de». Como, na frase, o verbo é regido pela preposição de, deveria ter-se escrito: «Foi atravessada por um rugido vindo de baixo do chão.»

Sobre «departamento»


Isso é inglês

Onde é que Isabel Figueira apresentou o sutiã Aumentax: na secção de lingerie ou no departamento de lingerie do El Corte Inglés?
«Até aos dezassete, Anne usara roupas infantis do departamento para crianças da Ohrbach; então, um dia, de repente, comprou um par de sapatos de salto alto, um ou dois vestidos amalucados, um par de seios postiços, um estojo de maquilhagem e um frasco de verniz cor de pérola; ao deslizar pelas ruas com o seu novo visual, parecia uma menina num baile de máscaras» (Travessia de Verão, Truman Capote. Tradução de Manuel Cintra, revisão de tradução de Maria João Freire de Andrade e revisão tipográfica de Eulália Pyrrait. Lisboa: Dom Quixote, 2.ª ed., 2007, p. 68). O Ohrbach era um grande armazém em Nova Iorque — em inglês, uma department store. Department porque são lojas organizadas em departments, «secções».
Também temos departamentos, claro, mas não nas lojas. Temo-los nas circunscrições marítimas divididas em capitanias de porto, nas divisões administrativas em alguns países, como a França, nos sectores de certos organismos, estatais ou particulares, destinados a um fim específico, nos sectores ou divisões correspondentes a um grande ramo do saber na estrutura de uma universidade. E quando algum colega nos pede algo que não nos apetece dar, sempre podemos dizer, segundo o Dicionário Inglês-Português da Porto Editora, que «isso não é do meu departamento», embora me pareça que é apenas a tradução do inglês «that’s not my department».

Sobre «fronteiriço»

Badajoz à vista

«O ruído do trânsito intensificava a tranquilidade matinal de Central Park em Junho, e o sol carregado do início do Verão que seca a crosta verde da Primavera atravessava as árvores fronteiriças ao Plaza, onde estavam a tomar o pequeno-almoço» (Travessia de Verão, Truman Capote. Tradução de Manuel Cintra, revisão de tradução de Maria João Freire de Andrade e revisão tipográfica de Eulália Pyrrait. Lisboa: Dom Quixote, 2.ª ed., 2007, pp. 9-10). O adjectivo «fronteiriço» diz apenas respeito à fronteira, à raia. Há postos fronteiriços, controlos fronteiriços, guardas fronteiriços, diferendos fronteiriços, regiões fronteiriças, e por aí fora. Terá equivalente no inglês borderline. No original desta obra de Truman Capote, lê-se isto: «[…] the dazzle of traffic heightened the June morning quiet of Central Park, and the sun, full of first summer, that dries the green crust of spring, plunged through the trees fronting the Plaza, where they were breakfasting.» «Fronting the Plaza» traduzir-se-á então por «em frente ao Plaza, «defronte do Plaza». Só refiro o erro por ser muito comum.

«Catecumenato» e «baptismo»

Trapalhadas

      «A fé católica é professada por 88,10 por cento dos portugueses, segundo o último Anuário Católico, que aponta para um decréscimo no número de sacerdotes. […] Em 2000, foram registados mais de 92 mil baptismos de crianças com menos de 7 anos (77.272 em 2006) e 5938 baptismos depois dos sete anos, o chamado “catecumenato” (5165 em 2006)» («Quase 90 por cento diz-se católico», Público, 10.04.2009, p. 10).
      O baptismo depois dos 7 anos designa-se catecumenato, é isso? Isso é para rir? O catecumenado ou catecumenato é o período ou a própria instituição que, no âmbito da iniciação cristã, se destina a ajudar o recém-convertido a passar de uma fé inicial à fé adulta requerida pelos sa­cra­men­tos do baptismo, confirmação e euca­ris­tia. O baptismo, por sua vez, é o pri­meiro dos sete sacramentos e o primeiro dos três da iniciação cristã, juntamente com a con­fir­mação ou crisma e a co­mu­nhão. O que acontece é que, no caso de uma criança antes do uso da razão, não há propriamente uma caminhada catecumenal antes do baptismo, mas depois, ao contrário do que sucede com o adulto que quer ser baptizado.
      Em suma, o catecumenato é a preparação para o baptismo e não o baptismo de uma criança com mais de 7 anos, como se afirma na notícia.

Particípios passados


Está explicado

Acabei de ouvir na Antena 1 que no próximo dia 21 de Abril se realiza, no Centro Cultural e de Congressos de Aveiro, a segunda conferência do ciclo «Biologia da Noite», este ano dedicado ao tema da evolução. Entre as comunicações, estará a do Prof. António M. de Frias Martins, da Universidade dos Açores, intitulada «Terá Darwin morto Deus? Criacionismo, Evolucionismo e a Plenitude da Vida». Não percebi logo, confesso, o título, fosse pela dicção do locutor, fosse pelo atropelo da gramática. Quanto a esta, é simples e já aqui foi explicado: com os auxiliares ser e estar, usa-se habitualmente o particípio passado regular, a forma mais longa. Logo, correcto seria «Terá Darwin matado Deus?».

Reformas ortográficas

Vai demorar

Boas ou más que sejam as soluções trazidas pelo Acordo Ortográfico de 1990, uma coisa é certa: daqui a quarenta anos ainda há-de haver quem diga que não sabia. Como acontece actualmente, é o exemplo que sempre dou, com a reforma publicada a 1 de Fevereiro de 1973, e que só tinha um artigo: «São eliminados da ortografia oficial portuguesa os acentos circunflexos e os acentos graves com que se assinalam as sílabas subtónicas dos vocábulos derivados com o sufixo mente e com os sufixos iniciados por z.» Quase todos os dias vejo que há quem, devendo saber, ainda não sabe: «Todos temos o nosso próprio (respire fundo) portefólio léxico-audiovisual. Mas — hélas! —, por muito que o queiramos vender aos nossos amigos (para podermos fazer uma pequena ideia do que estão a falar), eles não o compram, porque não abdicam dos portefóliozinhos deles» («Não, não sabia», Miguel Esteves Cardoso, Público, 10.04.2009, p. 33).

VOLP


Vontade de comunicação

Fez agora um ano que Fernando Venâncio escreveu no Aspirina B: «Nós somos, uns mais outros menos, mas todos um pouco, uns fetichistas da ortografia. Nisso não há mal. O problema surge quando, com o balde da ortografia, se deita fora o bebé do idioma.» Incongruências à parte, não creio que tinha sido isto que se fez com o Acordo Ortográfico de 1990. Tenho nas mãos a 5.ª edição do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, com as suas 877 páginas (é sintomático que a imprensa portuguesa avente números diferentes deste) e, segundo informação da editora, 349 737 vocábulos com as suas respectivas classificações gramaticais, além dos cerca de 1500 estrangeirismos que aparecem no fim. Mais do que uma pedra, mesmo angular, creio que será a superstrutura do futuro e necessário vocabulário ortográfico comum exigido pelo Acordo Ortográfico de 1990. Junte-se-lhe depois os contributos da Academia das Ciências de Lisboa, o contributo, já entregue, da Academia Galega da Língua Portuguesa e, naturalmente, o contributo dos demais países de língua oficial portuguesa.
Mas ainda a propósito da afirmação de Fernando Venâncio, lembro o que Fernando Cabral Martins escreveu nas notas à edição da Mensagem, de Fernando Pessoa, que aqui citei recentemente: «A edição de David Mourão-Ferreira [6.ª edição da Ática, 1959] é a primeira a propor a actualização ortográfica de um livro que parecia apostar na inactualidade. Isto é: a ortografia utilizada por Pessoa em 1934 era arcaica em relação à convenção dominante nesse tempo, o que poderia ser recebido, como por vezes o é, como uma ortografia simbólica e intocável» (Mensagem, Fernando Pessoa. Edição de Fernando Cabral Martins. Lisboa: Assírio & Alvim, 3.ª ed., 2002, p. 93). A obra de Pessoa perdeu com o critério? Perderam algo os leitores? Não me parece. Conclui Fernando Cabral Martins: «Quer dizer: a vontade de comunicação que tornou Mensagem o único livro em português publicado por Pessoa só pode ser hoje servida por uma escolha de legibilidade.» A ortografia é, sem qualquer dúvida, importante, mas não é a essência da língua.

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