Tradução: «bullying»

«Como temos feito?»



      A leitora M. T. S. pergunta-me se se deve usar o estrangeirismo bullying ou se, pelo contrário, se deve usar um termo português equivalente e qual. Bem, o anglicismo tomou conta do juízo dos falantes, sobretudo, como é habitual, dos jornalistas. Contudo, em parte por pressão dos leitores, alguns jornais vão tentando substituí-lo, como neste excerto de uma notícia: «O lusodescendente alegadamente vítima de intimidação [bullying] pelos colegas em Inglaterra desistiu do processo judicial contra a sua antiga escola devido aos receios com o seu bem-estar psicológico» («Vítima de ‘bullying’ desiste de processo contra colégio», 1.04.2009, Diário de Notícias, p. 16). Infelizmente, nos jornais, de uma maneira geral, não se reflecte muito na língua, não se pergunta como se deve escrever. Quando se pergunta, pergunta-se como se tem feito na publicação até então. Sei do que falo.

«Catequese» e «escola dominical»

Imagem: http://www.piccportoalegre.org/

Religião à letra


      Na edição de ontem de Mais Cedo ou Mais Tarde, na TSF, João Paulo Meneses entrevistou Tiago Cavaco, pregador na Igreja Baptista de São Domingos de Benfica e cantor rock. A determinada altura, o entrevistador disse: «Não sei se na lógica baptista se diz “catequese”.» Tiago Cavaco respondeu: «Diz-se aquilo que nos filmes se traduz mal porque Sunday school, que é escola dominical, e nos filmes, quando se diz Sunday school, traduz-se por “catequese”. Mas é escola dominical. Era aquilo que o Tom Sawyer fazia quando ia à igreja.» Já antes se tinha referido que, no âmbito da Igreja Baptista, protestante, não se diz «missa», mas «serviço». São diferenças meramente terminológicas ou conceptuais? Certo é que os dicionários bilingues inglês-português não dão para a locução Sunday school outra tradução que não «catequese», o que, se não é argumento, nos permite avaliar que não é um entendimento consensual. Nas traduções também nunca vi a locução traduzida de outra forma que não «catequese», assim como Sunday school teacher por «catequista».

Léxico: «monumentologia»

Como é que é?


      «A monumentologia da Cidade de Coimbra, rica como é e diversificada em termos de estilos, de épocas e de modelos artísticos, constitui um indelével testemunho da história da cidade que foi sede da Corte, em alternância com Lisboa, e a primeira cidade universitária do País» («Coimbra, uma visita à cidade da memória», Ten RC Ana Rita Carvalho, Jornal do Exército, n.º 581, Fevereiro de 2009, p. 44). Tive de ler o Jornal do Exército para conhecer o termo: monumentologia. Não vou negar à partida uma ciência que desconheço, mas cheira-me a invencionice inútil. Quanto à substância do texto, neste trecho há uma imprecisão: a universidade, na verdade, estabeleceu-se primeiro em Lisboa. Ainda me lembro bem de o Prof. Doutor Ruy de Albuquerque, nas aulas de História do Direito, realçar este facto.

Sobre o trema


Das letras ramistas a Citroën

      No dia 1 de Outubro de 1885, André Gustave Citroen, filho do joalheiro holandês Levie Citroen e da polaca Mazra Kleinmann, entra para o 9.ºC no Liceu Condorcet em Paris. Quando se matricula, acrescenta um trema ao patronímico: Citroën. Passados 123 anos, alguns jornalistas portugueses ainda não sabem exactamente onde deixar cair os pingos, como dizem os Brasileiros. Em francês, o trema (tréma, nesta língua, cujo étimo é o grego τρημα, «orifício, buraco») é o sinal ortográfico formado por dois pontos justapostos que se escrevem sobre as vogais e, i e u para indicar que não formam um digrama com a letra anterior nem é a associação de uma semivogal com uma vogal, mas que se trata de uma disjunção entre duas vogais, que por isso devem ser pronunciadas separadamente: aiguë, Israël, maïs, capharnaüm...
      O trema foi introduzido em 1532 na língua francesa pelo médico Jacobus Sylvius para distinguir o i e o u vocálicos do i e do u consonânticos, que se confundiam graficamente. Só mais tarde foram introduzidas as chamadas letras ramistas (assim designadas em homenagem ao humanista francês Pierre de la Ramée, conhecido por Petrus Ramus, nascido em 1515, que na página 26 da sua Grammaire Française, publicada em 1572, propôs estas letras), o j e o v, desconhecidas do Latinos.

Citar a Bíblia

A Luz brilhou nas trevas

O Evangelho segundo S. João, que se lê na terça-feira da Semana Santa, contém o episódio do anúncio da traição de Judas. «Fazia-se noite» quando Judas saiu, lemos (Jo 13, 30b). (Na Vulgata, lê-se: «erat autem nox».) O que me fez lembrar a frase «felizmente há luar», que se repete na obra homónima de Sttau Monteiro. No drama, a frase tem significados diferentes, e mesmo opostos, consoante é proferida por uma ou por outra personagem. A frase bíblica, por seu lado, alude à luta final entre os poderes das trevas (e ao domínio das trevas, que é o triunfo passageiro de Satanás) e a Luz verdadeira.
E já que pergunta, leitor, dir-lhe-ei: a letra b depois do número do versículo indica que se cita apenas uma parte do versículo e não todo o versículo. «Tendo tomado o bocado de pão, saiu logo. Fazia-se noite.» Naturalmente que só depois de localizar o versículo todo, o 30, neste caso, é que se poderá perceber a que parte se refere a letra.

«Mal-encarado» e «malvisto»

Fale por si

      «Depois do Prós e Contras sobre o casamento homossexual, só tenho ouvido piadas e agravos contra juristas. Duas que já li foram: a melhor maneira de matar um debate interessante é convidar um jurista e; qual é a doença que leva os juristas a falar à jurista? Não sou corporativo e por mim estejam à vontade. Mas, como membro da tribo, há aqui um problema que claramente me interessa: porque é que os juristas são mal-encarados em Portugal?» («Os juristas, pobres coisas», Pedro Lomba, Diário de Notícias, 26.02.2009, p. 7). Claro que o autor queria escrever outra coisa — mas não escreveu. Como jurista, vai ser exemplarmente escarmentado: o adjectivo «mal-encarado» significa o que tem má cara, carrancudo; o que revela maus instintos. Pedro Lomba havia de querer escrever «malvisto»: «que tem má fama; desacreditado; odiado; antipático».

Léxico: «suburbicário»

Em volta de Roma

«O Papa Bento XVI promoveu o cardeal português D. José Saraiva Martins à Ordem dos Bispos do Colégio dos Cardeais, atribuindo-lhe o título da igreja suburbicária de Palestrina» («Saraiva Martins promovido», Diário de Notícias, 26.02.2009, p. 12). Igreja ou sé suburbicária é cada uma das sete dioceses cardinalícias localizadas em volta de Roma reservadas aos cardeais-bispos: Albano, Frascati, Óstia, Palestrina, Porto-Santa Rufina, Sabina-Poggio Mireto e Velletri-Segni.

Eufemismos e disfemismos

Oito ou oitenta

«Nascido a 19 de Outubro de 1936, numa família de 17 filhos, na América de Franklin D. Roosevelt, o afro-americano serviu duas vezes na Marinha antes de terminar o curso no Seminário Teológico Baptista de Nashville» («O conselheiro rebelde de Martin Luther King», Diário de Notícias, 26.12.2008, p. 37). Eu já aqui disse que conheço mais africanos brancos do que negros? Não? Mas disse isto. A moda do politicamente correcto está para durar. Claro que, em paralelo, também vão sendo largados alguns disfemismos, como este: «Um minuto. Foi o tempo que demoraram os agentes da PSP a chegar ao local do crime e a apanhar o bandido em flagrante» («Homem-aranha apanhado na ‘teia’ da PSP», Valentina Marcelino, Diário de Notícias, 6.02.2009, p. 18).

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