Apóstrofo

Apóstrofo inútil


      E, a propósito de apóstrofo, um poema da Mensagem, de Fernando Pessoa, tem por título «Nunálvares Pereira». Pelo menos numa edição que aqui tenho, da Assírio & Alvim (Lisboa, 3.ª ed., 2002), da responsabilidade de Fernando Cabral Martins, que, em nota final, esclarece: «O título do único poema aqui incluído é transcrito sem modificação pela edição crítica [Mensagem. Poemas Esotéricos, edição coordenada por José Augusto Seabra. Madrid, Colecção Archivos, CSIC, 1993], mas sofre na edição de David Mourão-Ferreira uma alteração de “Nunalvares» para “Nun’Álvares”[,] o que parece consistir apenas numa actualização ortográfica. No entanto, a grafia do nome tem uma dupla tradição, que remonta às primeiras edições impressas da Crónica do Condestável, no século XVI: ou com os dois nomes separados (por exemplo, “Nuno Alvarez”) ou juntos (por exemplo, “Nunalvrez”). Em Herculano, o nome é escrito também dos dois modos, “Nunalvares” e “Nuno Alvares”, nas primeiras edições de Lendas e Narrativas e de O Monge de Cister, por exemplo. Talvez tenha sido em Herculano que Pessoa leu esta possibilidade de grafia do nome — que torna a utilização do apóstrofo inútil» (pp. 99-100).

«Portfólio», «portefólio»


Um ezinho mais…

«Assim, até 28 deste mês, os candidatos podem inscrever-se através do site www.olhares.com/concursos/fhm e enviar o seu portfólio, que poderá incluir entre sete e 15 fotografias, todas subordinadas ao tema da moda e glamour» («Olhares.pt procura quem fotografe capa da ‘FHM’», Paula Brito, Diário de Notícias, 2.02.2009, p. 54). Um pouco mais de sol — eu era brasa… Não, não é isso. Um ezinho mais, e parecia português de lei. Na notícia acima, do pouco cuidadoso diário económico Oje, é portefólio que se usou.

Neologismo «referenciação»

Talvez faça falta

«Agora, com os critérios de Bolonha, as teses são significativamente encurtadas, seguindo uma filosofia mais anglo-saxónica, privilegiando-se mais a inovação do que a referenciação bibliográfica» («Teses de doutoramento à venda por 50 mil euros», Carla Aguiar, Diário de Notícias, 2.02.2009, p. 5). O neologismo referenciação até pode não estar ainda registado em todos os dicionários, mais ei-lo aí, assim como o primo, georreferenciação. De qualquer modo, o verbo referenciar está dicionarizado e é usado. Como se usa a locução referência bibliográfica (série de indicações que possibilitam a identificação de um livro, texto, artigo, etc.), tratou-se de inventar uma forma de referir o acto de fazer essa referência. Nasceu assim — por influência do inglês referral, como alguns sugerem? — o termo referenciação.

«País das Pampas»

Em pleno processo

      «Na despedida, o mago, agora seleccionador do país das pampas, foi entrevistado pelo Benfica TV» («Diego diz que Di María marcou golo à Maradona», Bruno Pires, Diário de Notícias/DN Sport, 16.01.2009, p. 4). Já uma vez pude assistir ao raciocínio de um revisor, graças ao facto de ele, sentindo-se observado, ir falando em voz alta, que se deparou com a locução País das Pampas. Que não podia ser com maiúsculas, começou por dizer. Depois consultou o termo «pampa» no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Encontrou o que era de esperar: «designação dada à estepe de gramíneas, que se estende pela vasta e uniforme planície de terra amarela da Argentina, de que ocupa a parte média, e que constitui zona de boas pastagens, em parte já agricultada». Só pode ser com minúsculas, concluiu, ufanoso e equivocado. País das Pampas é um prosónimo, conceito que já aqui expliquei três vezes, e por isso grafa-se com maiúsculas iniciais.

Sobre «oleão»

Podia ser

Em Junho de 2004, descobriram-se quase por acaso sepulturas colectivas no edifício da Academia das Ciências, instalada desde 1836 no Convento de Nossa Senhora de Jesus, da Ordem Terceira de S. Francisco. O estudo do achado feito até hoje permite afirmar que naquela época se recorreu ao canibalismo. Nos restos, até uma beata apareceu: «Botões de osso, fragmentos de vestuário da época, uma beata de cigarro de enrolar e até uma vértebra de cobra-rateira, capaz de crescer até dois metros de comprimento, foram encontrados nas sepulturas colectivas» («Testemunhos», texto de apoio ao texto «O sismo de 1755 contado pelos ossos das vítimas», Pedro Sousa Tavares, Diário de Notícias, 2.02.2009, p. 29). Este texto podia ser sobre estes erros: «Mas uma improvável soma de coincidências ditou que o primeiro ossoário conhecido de vítimas do terramoto surgisse na Academia de Ciências […].» Mas não. É certo que se escreve ossário ou ossuário*, mas chamou-me a atenção a beata. Recentemente, alguém me perguntou aqui como se devia grafar o termo que designa o recipiente para conter óleo alimentar para reciclagem: óleão ou oleão? Uns dias depois, vi este texto: «As beatas à porta do café do bairro são a sua preocupação recente. “Deviam criar o beatão pois as pessoas fumam na rua e sujam tudo”» («Tutor encarregado de manter o bairro limpo», Rita Carvalho, Diário de Notícias, 15.02.2009, p. 56). A criatividade linguística apoia-se aqui em termos semelhantes, como pilhão e vidrão, por exemplo, já registados nos dicionários gerais da língua. O primeiro a surgir foi vidrão e logo por analogia se construiu um paradigma de unidades linguísticas parafraseáveis por «recipiente de recolha de n para reciclagem», como beatão, embalão, livrão, metalão, oleão, papelão, rolhão… Ao oleão também se dá o nome quase impronunciável de ecoóleo.

* «
Eu tenho visto a pedra, desprendida/Da montanha, levar meia floresta/Na carreira — e não há-de esse granito/Colossal, que é o Povo, despregado/Por mãos do tempo, com trabalho imenso,/Ao rolar no declive da história/Esmagar, ao correr, os troncos secos/E o mirrado ossuário do passado?» («Secol’ si rinnuova», Odes Modernas, Antero de Quental).
«A presença de jazigos e um “columbarium” (conjunto de ossuários) atesta o uso da inumação e da incineração» (Guia Bíblico e Cultural da Terra Santa, João Duarte Lourenço. Revisão de Maria José Rodrigues. Lisboa: Universidade Católica Portuguesa, 2008, p. 126).

Actualização em 7.08.2009

«Os óleos alimentares usados para cozinhar vão passar a ser colocados no oleão, uma espécie de ecoponto que as autarquias terão de disponibilizar na via pública» («Óleo de fritar doméstico terá de ser posto no oleão», Rita Carvalho, Diário de Notícias, 6.08.2009, p. 16).

MBA, “master”, mestrado

MBA, LL.M, blá-blá-blá...


      «Natalie, que completou recentemente um bacharelato em Estudos da Mulher, pretende agora iniciar um master em Casamento e Terapia Familiar, segundo o site Daily Beast» («Virgindade de Natalie já vale três milhões», Patrícias Viegas, Diário de Notícias, 2.02.2009, p. 27). Na Universidade Aberta e na Universidade Nova de Lisboa há mestrados em Estudos sobre as Mulheres. Já quanto ao master… Qual ao certo a diferença entre master e mestrado? O primeiro é um vocábulo inglês e o segundo, português, isso é certíssimo. Ou seja, fosse a estudante portuguesa, Natália, e o que ela seria era titular de um mestrado em Casamento e Terapia Familiar. E quanto a MBA e mestrado? Bem, o MBA (master business admnistration) tem características próprias e um cariz muito mais prático e aplicado, ao contrário da maioria dos mestrados, que são essencialmente teóricos, mas, sobretudo — sobretudo, repito — é um nome de fantasia, pois o Regime Jurídico das Instituições de Ensino Superior nunca usa a sigla MBA ou o seu desdobramento, master business admnistration. Trata-se, isso sim, de um curso de pós-graduação, não conferente de um título académico, como previnem algumas instituições de ensino superior. Ao lado do MBA para áreas como Gestão de Empresas, há também os LLM (ou LL.M) para a área jurídica, sigla do latim legum magister, mestre em Leis.

Léxico: «bongo»


O bom sabor da selva

Já tinham visto esta imagem do campeão olímpico Michael Phelps a pôr a boca num tubo de ensaio? Claro que não é um tubo de ensaio, anjinhos. De fóruns de discussão a artigos científicos, portugueses, em todo o lado vejo que se designa por bongo esta espécie de tubo de ensaio utilizado como cachimbo para fumar canábis. É o aportuguesamento do termo inglês bong, que por sua vez pode ter vindo do tailandês baung. É provável que tenham sido os veteranos da Guerra do Vietname a levarem o termo e o objecto para os Estados Unidos, ainda na década de 1960. Automedicação para o stress pós-traumático de guerra, dizem eles.
«O nadador e campeão olímpico norte-americano Michael Phelps apareceu ontem na capa do jornal britânico News of the World a fumar um bongo, ou seja, um cachimbo de água usado para fumar e inalar cannabis» («O bongo», Diário de Notícias, 2.02.2009, p. 7).

Uso do apóstrofo

A métrica do erro


      Freire d’Andrade? Mera adesão à obra de Sttau Monteiro. No entanto, é tão legítimo usar neste caso o apóstrofo como em Victorino D’Almeida. A verdade, porém, é que só o uso do apóstrofo nas ligações de duas formas nominais quando é necessário indicar que na primeira se elimina um o final está previsto no texto dos acordos ortográficos: Nun’Álvares, Pedr’Eanes. Em certos compostos, também se usa este sinal diacrítico para assinalar a eliminação do e da preposição de, em combinação com substantivos como borda-d’água, cobra-d’água, copo-d’água, estrela-d’alva, galinha-d’água, mãe-d’água, pau-d’água, pau-d’alho, pau-d’arco, pau-d’óleo. Recentemente, tudo o que se refere a Barack Obama é notícia, como a escolha da raça do cão para as filhas do presidente dos Estados Unidos da América: «O “melhor amigo” de Sasha e Malia, filhas de Barack Obama, já está escolhido: vai mesmo ser um cão-d’água português» («Cão da Casa Branca descende do canil de Conchita Cintrón», Rui Pedro Antunes, Diário de Notícias, 27.02.2009, p. 32). Os Brasileiros usam (e abusam) muito mais o apóstrofo do que nós, que, todavia, usamos incorrectamente «p’lo» em correspondência de carácter formal, como se tal elisão se justificasse.

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