Apodos

Hipocrisias

      No drama Felizmente Há Luar, António de Sousa Falcão, amigo do general Gomes Freire d’Andrade, diz a Matilde de Melo, mulher do general: «D. Miguel [Forjaz, do Conselho de Regência] é um cristão de domingo, Matilde» (Porto: Areal Editores, 2003, Acto I, p. 117). O que me fez lembrar a alcunha alentejana comunista de Inverno, de que falei aqui. Trata-se do mesmo: referir, de forma jocosa, a falsa adesão a princípios, a hipocrisia de quem se diz comunista ou cristão apenas para interesse próprio.

Vírgula depois de reticências

Eu faço e você explica

Suponham agora que um autor escrevia esta frase: «Embora tenha sempre compreendido a necessidade da disciplina, foram muitas as vezes em que discuti as ordens..., mas eu não constituía um perigo sério.» Suponham também que o autor implicava, após a revisão do texto, com a vírgula depois das reticências e queria que o revisor justificasse a correcção da mesma. Absurdo, não é? No fundo, o código da escrita não é muito diferente do código da estrada: o que não é proibido é permitido. Consultei a Academia Brasileira de Letras, que me respondeu: «Se a vírgula fizer parte do texto ao final das reticências, deve ser mantida. Nessa frase, deve ser mantida por estar antes da conjunção adversativa mas

Substantivos sigmáticos

E se eles não sabem?...



      «Marguerite, a baronesa de Reuter, a última sobrevivente da família que fundou a agência internacional de notícias Reuters, faleceu ontem, aos 96 anos, num lar de idosos francês na fronteira com o Mónaco. Mecena das artes, Marguerite era viúva de Oliver, quarto barão de Reuter, cujo avô Paul Julius Reuter fundou a agência» («Baronesa de Reuter morre em França», Diário de Notícias, 26.01.2009, p. 56).
      Pode ser gralha, sim, mas quem sabe? O substantivo assinalado é sigmático, isto é, termina em s, como lápis, pires, ténis. Conceito diferente dos pluralia tantum, de que já aqui falei uma vez, que são palavras usadas apenas no plural, como afazeres, algemas, alvíssaras, anais, antolhos, armas (brasão), arras, arredores, avós (antepassados), belas-artes, belas-letras, calças, calendas, cãs, cócegas, confins, costas, endoenças, esponsais, exéquias, férias, fezes, hemorróidas, idos, maiores (antepassados), matinas, núpcias, óculos, olheiras, parabéns, penates, pêsames, primícias, suíças, trevas, vísceras, víveres… Como também há os singularia tantum, palavras usadas apenas no singular, como sucede com as palavras que expressam ciências e artes (arquitectura, pintura), os nomes dos minerais (ouro, prata), o nome de produtos animais ou vegetais (leite, manteiga), o nome das virtudes ou vícios (caridade, malvadez), o nome de substâncias inorgânicas (azoto, oxigénio), os nomes abstractos (brancura, nobreza), alguns colectivos (prole, plebe), etc.


Tradução: «essay»

Ensaio… de porrada

Matt, o irmão de Lizzie McGuire, um miúdo de 11 anos, para participar num concurso tinha de redigir um ensaio. Quer dizer, para a tradutora, Celina Marto, da série Lizzie McGuire é que se tratava de um ensaio. Não fez a coisa por menos: ensaio. Que eu saiba, um ensaio é um texto de análise e interpretação crítica de determinado assunto, muito usado em teses académicas, por exemplo. É um erro muito comum e decorre do método habitual de traduzir: escolhe-se a primeira acepção dos dicionários de inglês-português e já está. Além de «ensaio», essay também significa «tentativa, experiência» e, é o caso, «composição, redacção». No âmbito escolar e mesmo extra-escolar, é o exercício que consiste em escrever um texto sobre um tema proposto («a short piece of writing on a particular subject, especially one done by students as part of the work for a course», na definição do Cambridge Advanced Learner’s Dictionary).

A pronúncia de «icebergue»

Incoerência


      «Mesmo para passar o tempo há muita gente que joga a bisca dos nove, faz um desenho com nove espaços para o jogo do galo, vai ver os golos que no futebol são marcados sobretudo pelo camisola 9, tenta perceber as manobras dos nove jogadores da equipa que defende no beisebol» («A nossa vida de cada dia costuma abrir às nove», Fernando Madaíl, Diário de Notícias/DN Gente, 3.01.2009, p. 20). Isto é coerente: queremos ler à inglesa a palavra, então escrevemo-la «beisebol». O mesmo deveria suceder com o vocábulo «icebergue». Se queremos lê-lo à inglesa, deveremos escrever «iceberg»; se queremos lê-lo à portuguesa, deveremos escrever «icebergue». Mas não é assim que acontece. O Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, da Academia das Ciências de Lisboa, indica para o vocábulo «icebergue» duas pronúncias: com i e com ai. O Vocabulário da Língua Portuguesa, de Rebelo Gonçalves, já registava a grafia «icebergue», aportuguesamento do inglês iceberg, mas sem indicar o valor de i, mas presume-se que vale i.

Léxico: «quadriciclo»

Imagem: http://www.lanciaflavia.it/

Então é isso

«A Polícia Judiciária de Coimbra está a investigar as circunstâncias em que Isaura Maria Simões Baptista, de 47 anos, morreu submersa nas águas da Barragem da Raiva (Penacova) quando conduzia o seu quadriciclo — veículo de quatro rodas para o qual não é necessário carta de condução —, ontem de manhã» («PJ investiga morte de mulher que caiu com o carro numa barragem», Paula Carmo, Diário de Notícias, 3.01.2009, p. 35). São vários os dicionários que registam o vocábulo «quadriciclo», de que dizem tão-só ser um veículo de quatro rodas.

Ortografia: «contramensagem»

Muito bonito, mas…

… incorrecto: «Em Madrid, a cidade que se segue, já está a funcionar a contra-mensagem cristã: “Deus existe. Goza a vida em Cristo”» («Ateístas espanhóis adoptam campanha britânica sobre rodas», Susana Salvador, Diário de Notícias, 11.01.2009, p. 37). Não se escreve assim agora nem se vai escrever assim na vigência do novo acordo ortográfico. Segundo as regras do Acordo Ortográfico de 1945, somente se emprega hífen nos compostos formados com o prefixo contra quando o segundo elemento tem vida à parte e começa por vogal, h, r ou s: contra-almirante, contra-harmónico, contra-regra, contra-senha. O Acordo Ortográfico de 1990 só veio trazer uma alteração: nas formações em que o prefixo termina em vogal e o segundo elemento começa por r ou s, estas consoantes duplicam-se: contrarregra, contrassenha. Exemplos correctos: «“Por imperativo de cidadania. Escrevi-o pro bono [a título gratuito], e por saber que podia pôr os meus conhecimentos de Direito Constitucional ao serviço de uma causa que me parece essencial não ser adiada mais tempo”» («“Direitos fundamentais são contramaioritários”», Fernanda Câncio entrevista Isabel Mayer Moreira, constitucionalista, Diário de Notícias, 29.09.2008, p. 63). «Por essa altura, já havia contra-anúncios em que um cowboy, chapéu Stetson na cabeça, dizia para outro cowboy: “Bob, tenho um enfisema”» («Drogados em dívidas», Ferreira Fernandes, Notícias Sábado, 12.02.2009, p. 4). «Frank pede-me desculpa, caso tenha ofendido algum valor moral meu. Não ofendeu, mas vou fazer-lhe uma contraproposta de metade-metade. Espero que isso não o ofenda» («Ao computador todos temos cara de tansos», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 20.4.2008, p. 11).

Léxico: «sanecan»

Imagem: http://tensagus.blogspot.com/

Mais um neologismo

«Na Quinta de São Martinho, a instalação dos sanecans foi uma das maiores vitórias do tutor do bairro, figura criada pela EMAC, a empresa de ambiente de Cascais, com o objectivo de monitorizar a limpeza urbana do concelho» («Tutor encarregado de manter o bairro limpo», Rita Carvalho, Diário de Notícias, 15.02.2009, p. 56). Depois dos polibans, os sanecans. A diferença é que o primeiro vocábulo vem do espanhol polibán (bañera de asiento), já dicionarizado como «polibã», e o segundo recebeu o nome a partir de uma marca comercial e designa o contentor para recolha de excrementos caninos. A vingar esta designação, poderá, seguindo o mesmo processo do vocábulo «polibã», aportuguesar-se em «sanecã». Mais lógico ainda seria «sanecão». Ou «sanicão», de sani(tário)+cão.

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