Tradução: «essay»

Ensaio… de porrada

Matt, o irmão de Lizzie McGuire, um miúdo de 11 anos, para participar num concurso tinha de redigir um ensaio. Quer dizer, para a tradutora, Celina Marto, da série Lizzie McGuire é que se tratava de um ensaio. Não fez a coisa por menos: ensaio. Que eu saiba, um ensaio é um texto de análise e interpretação crítica de determinado assunto, muito usado em teses académicas, por exemplo. É um erro muito comum e decorre do método habitual de traduzir: escolhe-se a primeira acepção dos dicionários de inglês-português e já está. Além de «ensaio», essay também significa «tentativa, experiência» e, é o caso, «composição, redacção». No âmbito escolar e mesmo extra-escolar, é o exercício que consiste em escrever um texto sobre um tema proposto («a short piece of writing on a particular subject, especially one done by students as part of the work for a course», na definição do Cambridge Advanced Learner’s Dictionary).

A pronúncia de «icebergue»

Incoerência


      «Mesmo para passar o tempo há muita gente que joga a bisca dos nove, faz um desenho com nove espaços para o jogo do galo, vai ver os golos que no futebol são marcados sobretudo pelo camisola 9, tenta perceber as manobras dos nove jogadores da equipa que defende no beisebol» («A nossa vida de cada dia costuma abrir às nove», Fernando Madaíl, Diário de Notícias/DN Gente, 3.01.2009, p. 20). Isto é coerente: queremos ler à inglesa a palavra, então escrevemo-la «beisebol». O mesmo deveria suceder com o vocábulo «icebergue». Se queremos lê-lo à inglesa, deveremos escrever «iceberg»; se queremos lê-lo à portuguesa, deveremos escrever «icebergue». Mas não é assim que acontece. O Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, da Academia das Ciências de Lisboa, indica para o vocábulo «icebergue» duas pronúncias: com i e com ai. O Vocabulário da Língua Portuguesa, de Rebelo Gonçalves, já registava a grafia «icebergue», aportuguesamento do inglês iceberg, mas sem indicar o valor de i, mas presume-se que vale i.

Léxico: «quadriciclo»

Imagem: http://www.lanciaflavia.it/

Então é isso

«A Polícia Judiciária de Coimbra está a investigar as circunstâncias em que Isaura Maria Simões Baptista, de 47 anos, morreu submersa nas águas da Barragem da Raiva (Penacova) quando conduzia o seu quadriciclo — veículo de quatro rodas para o qual não é necessário carta de condução —, ontem de manhã» («PJ investiga morte de mulher que caiu com o carro numa barragem», Paula Carmo, Diário de Notícias, 3.01.2009, p. 35). São vários os dicionários que registam o vocábulo «quadriciclo», de que dizem tão-só ser um veículo de quatro rodas.

Ortografia: «contramensagem»

Muito bonito, mas…

… incorrecto: «Em Madrid, a cidade que se segue, já está a funcionar a contra-mensagem cristã: “Deus existe. Goza a vida em Cristo”» («Ateístas espanhóis adoptam campanha britânica sobre rodas», Susana Salvador, Diário de Notícias, 11.01.2009, p. 37). Não se escreve assim agora nem se vai escrever assim na vigência do novo acordo ortográfico. Segundo as regras do Acordo Ortográfico de 1945, somente se emprega hífen nos compostos formados com o prefixo contra quando o segundo elemento tem vida à parte e começa por vogal, h, r ou s: contra-almirante, contra-harmónico, contra-regra, contra-senha. O Acordo Ortográfico de 1990 só veio trazer uma alteração: nas formações em que o prefixo termina em vogal e o segundo elemento começa por r ou s, estas consoantes duplicam-se: contrarregra, contrassenha. Exemplos correctos: «“Por imperativo de cidadania. Escrevi-o pro bono [a título gratuito], e por saber que podia pôr os meus conhecimentos de Direito Constitucional ao serviço de uma causa que me parece essencial não ser adiada mais tempo”» («“Direitos fundamentais são contramaioritários”», Fernanda Câncio entrevista Isabel Mayer Moreira, constitucionalista, Diário de Notícias, 29.09.2008, p. 63). «Por essa altura, já havia contra-anúncios em que um cowboy, chapéu Stetson na cabeça, dizia para outro cowboy: “Bob, tenho um enfisema”» («Drogados em dívidas», Ferreira Fernandes, Notícias Sábado, 12.02.2009, p. 4). «Frank pede-me desculpa, caso tenha ofendido algum valor moral meu. Não ofendeu, mas vou fazer-lhe uma contraproposta de metade-metade. Espero que isso não o ofenda» («Ao computador todos temos cara de tansos», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 20.4.2008, p. 11).

Léxico: «sanecan»

Imagem: http://tensagus.blogspot.com/

Mais um neologismo

«Na Quinta de São Martinho, a instalação dos sanecans foi uma das maiores vitórias do tutor do bairro, figura criada pela EMAC, a empresa de ambiente de Cascais, com o objectivo de monitorizar a limpeza urbana do concelho» («Tutor encarregado de manter o bairro limpo», Rita Carvalho, Diário de Notícias, 15.02.2009, p. 56). Depois dos polibans, os sanecans. A diferença é que o primeiro vocábulo vem do espanhol polibán (bañera de asiento), já dicionarizado como «polibã», e o segundo recebeu o nome a partir de uma marca comercial e designa o contentor para recolha de excrementos caninos. A vingar esta designação, poderá, seguindo o mesmo processo do vocábulo «polibã», aportuguesar-se em «sanecã». Mais lógico ainda seria «sanecão». Ou «sanicão», de sani(tário)+cão.

Acordo Ortográfico


Entre a recessão e a trovoada

Escrevi aqui recentemente que o Record apenas recuou numa opção quanto às novas regras ortográficas. Esqueci-me foi de dizer que, desde o início, o jornal não aplicou todas as regras do novo acordo ortográfico, o que obrigou ao aviso acima, entalado entre a informação bolsista e a meteorologia. Quanto a livros, ainda revi somente três já segundo as novas regras ortográficas, e apenas um tinha o aviso de que «por vontade dos autores, o texto respeita já as normas do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990».

Tradução: «greening»

Aceitem mais este

Em princípio, só os estrangeirismos bem formados e necessários deviam entrar na língua. Na prática, porém, entra tudo, e os jornalistas, que são os «grandes obreiros» da língua, deviam ser mais criteriosos. Para isso, também precisavam de ter melhor formação na língua portuguesa. O estrangeirismo de hoje, greening, encontrou felizmente umas roupagens portuguesas que lhe assentam bem e o neologismo já é usado com alguma frequência: ambientalização ou ecologização. Tanto um como outro até já têm acolhimento em documentos oficiais.

Verbo «abster-se»

X, o Abscrevente

Um clube de futebol, o Paços de Ferreira, suponhamos, apresentou em assembleia geral o balanço e viu-se que o exercício resultou num prejuízo de 275 140 euros. E quanto a votações? O jornalista asseverou que «apenas 3 dos cerca de 30 associados se absteram na votação». Isto é grave. Não a votação, mas o atentado à gramática. Um jornalista… Devia era voltar ao ensino básico.
O verbo abster-se conjuga-se como o verbo ter, pelo que correcto é abstiveram-se. O verbo abster traz-nos o sentido de «manter-se longe». Um abstencionista mantém-se longe da urna de voto; um abstinente, longe de carnes na Quarta-Feira de Cinzas e nas sextas-feiras do ano que não coincidam com solenidades litúrgicas. Um abscrevente, que acabo de inventar, devia manter-se longe da escrita. Claro que a abstinência é também abstenção. Já agora, devo lembrar que os verbos derivados de ter, como abster (e conter, deter, entreter, manter, obter, reter, suster, entre outros), quando conjugados na terceira pessoa do singular e na terceira do plural do presente do indicativo, apresentam formas que são diferenciadas por um acento gráfico. Na terceira do singular, emprega-se o acento agudo: ele abstém, advém, contém, convém, detém, entretém, mantém, obtém, provém, retém, sustém. Na terceira do plural, emprega-se o acento circunflexo: eles abstêm, advêm, contêm, convêm, detêm, entretêm, intervêm, mantêm, obtêm, provêm, retêm, sustêm. Nestes vocábulos, o acento agudo no singular é por formarem uma palavra oxítona terminada em -em (todos os vocábulos terminados em -em cuja última sílaba seja mais forte que as demais recebem acento agudo no -em: amém, armazém, ninguém, porém, Santarém, também…). O acento circunflexo no plural serve para diferençá-lo do singular. O Acordo Ortográfico de 1990 mantém inalterada esta regra. Acreditem: há mais gente a errar nisto do que possam pensar. A propósito, o Instituto Camões não tinha um Curso de Português para Jornalistas?

Arquivo do blogue