«Foredge painting»

Pintura do corte da frente

Por uma reportagem do Diário de Notícias, ficámos a conhecer uma nova técnica de ornamentação dos livros: «A pintura é a grande auxiliar da encadernação e a sua forma mais subtil de colaboração é o foredge painting. Técnica que consiste em pintar a aguarela o corte da frente das folhas do livro, num plano inclinado, e depois dourá-la no plano vertical, escondendo a pintura sem a estragar. A técnica foi inventada em Inglaterra, no século XVII e, por ser de difícil execução, foi praticada em muito poucos países. Existirão apenas dez mil volumes e a Invicta Livro é um dos quatros ateliers do mundo a produzir obras com foredge painting» («‘Alfaiates’ do livro restauram obras de todas as épocas», Joana de Belém, Diário de Notícias, 31.03.2009, p. 27).

Aplicação do Acordo Ortográfico

Para se habituarem

Quando dá jeito, também o Diário de Notícias já aplica as novas regras ortográficas: «Com apenas 17 milímetros de comprimento, esta nova espécie de rã, de nome científico Albericus sp, foi descoberta na Papua-Nova Guiné, no decurso de uma expedição promovida em 2005 pela Conservation International. Existe apenas numa montanha chamada Montane, na região de Kaijende» («Minirrã», texto de apoio ao texto «Descobertas 56 novas espécies», Filomena Naves, Diário de Notícias, 31.03.2009, p. 28). Segundo o Acordo Ortográfico de 1990, não se usa hífen «nas formações em que o prefixo ou falso prefixo termina em vogal e o segundo elemento começa por r ou s, devendo estas consoantes duplicar-se, prática aliás já generalizada em palavras deste tipo pertencentes aos domínios científico e técnico. Assim: antirreligioso, antissemita, contrarregra, contrassenha, cosseno, extrarregular, infrassom, minissaia, tal como biorritmo, biossatélite, eletrossiderurgia, microssistema, microrradiografia». Logo, minirrã.

Preposições «de» e «desde»

Não espanholize, Luís

      «Até agora o colectivo de juízas de Oeiras ouviu sete testemunhos, um dos quais por vídeo conferência desde o Tribunal de Ansião, concelho onde viveu a sogra do arguido» («Isaltino satisfeito com testemunhas», Luís Galrão, Diário de Notícias, 1.04.2009, p. 9). Talvez pudéssemos, com alguma prestidigitação, subentender ali um «até», mas é mais correcto dizer e escrever «de»: «do Tribunal de Ansião». Os repórteres desportivos é que gostam de transmitir «desde o Estádio Municipal de Braga, a Pedreira», «desde o Estádio da Luz, a Catedral», «desde o Estádio Algarve, em Faro», e por aí fora. Vão para Espanha falar assim, se fazem favor.

Prefixos re- e co-

Corrector incorrecto


      No início de Janeiro, a Academia Brasileira de Letras (ABL) lançou a 2.ª edição do Dicionário Escolar da Língua Portuguesa. Foram 56 as alterações, todas referentes aos prefixos co- e re-, que fez em relação à 1.ª edição. Nesta, estavam registadas palavras como re-edificação, re-edificar, re-editar, re-educação, re-educar, re-eleger, re-eleição, re-eleito, re-embolsar, re-embolso, re-encarnação, re-encarnar, re-encontrar, re-encontro, re-engenharia, re-entrância, re-entrante, re-entrar, re-enviar, re-erguer, re-escalonamento, re-escalonar, re-escrever, re-escrito, re-estruturação, re-estruturar, re-estudar, re-exame e re-examinar. Na 2.ª edição, o hífen desapareceu, como já tínhamos referido aqui. Também escrevemos então que alguns dicionários portugueses difundiam o erro. E não só dicionários, comprovei-o ontem: também o corrector ortográfico Flip 7, da Priberam. Como os computadores da secção de revisão do Record o têm instalado, experimentei-o. Escrevi: «Reencontram-se na terra de ninguém entre a memória e o esquecimento, os tempos e os espaços em que o futuro foi uma realidade.» A ferramenta sublinhou a vermelho a palavra «re-encontram-se». Abro as opções e vejo que correcto é escrever «re-encontram-se». Agora vamos ver, como diria um tecnocrata enfatuado, o time lag da Priberam, o tempo que decorre entre a correcção no Brasil e a necessária (e mais barata) correcção a fazer cá. É que em algumas editoras já se vai usando o corrector ortográfico como se de uma autoridade se tratasse.

Grafia dos nomes próprios

Questão homérica

Ao ler agora o texto «Ruy, a Águya de Haya», que faz parte da obra What língua is esta?, de Sérgio Rodrigues (Gradiva, 2009), não pude deixar de pensar no leitor Pedro Bingre e na acusação de que eu também dormitei, qual Homero. Quandoque bonus dormitat Homerus. Felizmente já estou habituado a elogios, caso contrário poderia fazer-me mal ser comparado a um génio. Só uma coisa me desagrada na comparação: Homero, e Pedro Bingre, professor na Escola Superior Agrária de Coimbra, não há-de ignorá-lo, poderá nunca ter existido. Mas voltando a Sérgio Rodrigues. Resumo o texto: os descendentes de Rui Barbosa (este sim, um génio) querem recuperar o ípsilon que ele perdeu na reforma ortográfica de 1943. Escreve Sérgio Rodrigues: «Como se sabe, a lei de 1943, regulamentada por decreto presidencial dois anos e meio depois, foi prontamente acatada nos dicionários, nas escolas, na imprensa, por todo lado. Nos cartórios é que não houve jeito de pegar. O professor Celso Pedro Luft admite, em seu Novo guia ortográfico, que “a tradição entre nós (…) tem contrariado a lei”. Tem mesmo, e como. Uma discreta mas tenaz desobediência civil acabou se impondo na questão dos nomes próprios. Vez por outra, algum escrivão radical ainda tenta fazer valer o manual, mas a causa parece perdida. Luiz Inácio Lula da Silva, para citar um exemplo ilustre, se insere nessa tradição de contrariar a lei de 1943, segundo a qual todo Luís deveria ser escrito com s e acento» (p. 180).

Aplicação do AO

Espectáculo

      «“Os professores, jornalistas e tradutores serão os grandes obreiros da mudança com a entrada em vigor do AO, que vai permitir ao português dispor de uma única ortografia a nível internacional”, afirmou aos jornalistas João Malaca Casteleiro, que participou, nos Açores, numa sessão de esclarecimento sobre o tema na Escola Básica Integrada da Maia», leio no Diário de Notícias. Esqueceu-se, é claro, dos obscuros revisores (obreiros menores). Mas isso agora não interessa. Estou de novo, e por uns dias, no Record. Até agora, o jornal, que está a aplicar as novas regras ortográficas, apenas recuou numa opção. Tinha decidido escrever «espetador», e num jornal desportivo escreve-se milhares de vezes a palavra, e logo a indignação de alguns leitores se fez ouvir. Confunde-se, argumentam, com espetador, aquele que espeta. Parece que José Pedro Gomes e António Feio, na Conversa da Treta, já brincaram com esta alteração trazida pelo acordo ortográfico. Como se fosse novidade na língua. E os falantes não sabem distinguir entre «pregar», fixar ou segurar com prego, e «pregar», anunciar ou desenvolver um assunto em prédica ou sermão? Este último até já se escreveu prègar, mas a verdade é que a ortografia actual não impede a realização fonética considerada correcta. Por vezes, porém, em relação a algumas palavras a distinção fonética tem-se vindo a perder, como no caso de «bordo» (do frâncico bord), interior de navio ou avião, e «bordo» (do latim alburnu), árvore da família das Aceráceas. A brincar, costumo dizer que /bôrdo/ em relação a aviões só no caso do aeromodelismo, em que se usa essa madeira.

Transcrição da fala


Calma lá

«Na tentativa de dar um exemplo, Isaltino começa a explicar um negócio passado na década de 70, mas dá a entender uma fuga ao fisco. “O soutôr gosta de confessar crimes prescritos”, comenta o procurador» («Notas no bolso e crimes prescritos na mira do MP», Luís Galrão, Diário de Notícias, 28.03.2009, p. 12). Pode dar uma nota de graça ao texto fazer aquela transcrição da fala, mas é um caminho potencialmente perigoso. Imagine-se agora que o repórter tinha um ataque de fidelidade semelhante quando ouvisse, por exemplo, o procurador-geral da República, Pinto Monteiro, com a sua pronunciadíssima pronúncia regional com todas as sibilantes a transformarem-se em chiantes.

«IV República»?

Ora contemos

      «O ex-secretário-geral do PSD, Ribau Esteves, disse ontem estar em preparação um movimento para fazer “uma boa revolução” para implantar “a IV República”» («Ribau diz que fala na IV República», Diário de Notícias, 28.03.2009, p. 16). Quando um dia revi um livro da autoria do Dr. Mário Soares, levantei esta questão da contagem das repúblicas: estávamos na II ou na III Repúblicas? O Dr. Mário Soares mandou dizer que o Estado Novo não foi uma república, mas sim uma monocracia, uma ditadura. Logo, estamos na II República. Realmente, pensei depois, até o nome é uma indicação. O Estado Novo não foi uma república, como Vichy também o não foi. Nem a República de Saló. Nem o III Reich, que nunca aboliu formalmente a República de Weimar. Mas também formalmente, contudo, estamos na III República.

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