Transcrição da fala


Calma lá

«Na tentativa de dar um exemplo, Isaltino começa a explicar um negócio passado na década de 70, mas dá a entender uma fuga ao fisco. “O soutôr gosta de confessar crimes prescritos”, comenta o procurador» («Notas no bolso e crimes prescritos na mira do MP», Luís Galrão, Diário de Notícias, 28.03.2009, p. 12). Pode dar uma nota de graça ao texto fazer aquela transcrição da fala, mas é um caminho potencialmente perigoso. Imagine-se agora que o repórter tinha um ataque de fidelidade semelhante quando ouvisse, por exemplo, o procurador-geral da República, Pinto Monteiro, com a sua pronunciadíssima pronúncia regional com todas as sibilantes a transformarem-se em chiantes.

«IV República»?

Ora contemos

      «O ex-secretário-geral do PSD, Ribau Esteves, disse ontem estar em preparação um movimento para fazer “uma boa revolução” para implantar “a IV República”» («Ribau diz que fala na IV República», Diário de Notícias, 28.03.2009, p. 16). Quando um dia revi um livro da autoria do Dr. Mário Soares, levantei esta questão da contagem das repúblicas: estávamos na II ou na III Repúblicas? O Dr. Mário Soares mandou dizer que o Estado Novo não foi uma república, mas sim uma monocracia, uma ditadura. Logo, estamos na II República. Realmente, pensei depois, até o nome é uma indicação. O Estado Novo não foi uma república, como Vichy também o não foi. Nem a República de Saló. Nem o III Reich, que nunca aboliu formalmente a República de Weimar. Mas também formalmente, contudo, estamos na III República.

«Bairros “sensíveis”»

Sensibilidades



      «A intervenção policial, de acordo com as informações oficiais da PSP, incidiu especialmente nos interfaces de transportes públicos, em alguns bairros “sensíveis” e nas áreas envolventes aos estabelecimentos de diversão nocturna» («PSP faz operação musculada para combater criminalidade», Paula Sanchez, Diário de Notícias, 29.03.2009, p. 23). Este eufemismo, «sensível», para designar os bairros de habitação social problemáticos começou a ser usado há mais de vinte anos em França, quartiers sensibles. Lá como cá, o adjectivo está carregado de conotações negativas. Em Portugal ainda se vai envolvendo, pudicamente, o adjectivo em aspas.


Insustentável


      «Na realidade, apesar de o sol poder conduzir aos mesmos efeitos nocivos, o solário “é mais pernicioso porque concentra raios ultravioletas do tipo A de altíssima intensidade, enquanto na luz do Sol são mais dispersos”, sustém o dermatologista» («ASAE fechou 132 solários que não cumpriam a lei», Sara Gamito, Diário de Notícias, 29.03.2009, p. 18). Não nego: são parecidíssimos. Ainda assim, uma jornalista tem a estrita obrigação de saber o que significa sustentar e o que significa suster. Se, durante a entrevista, o dermatologista tivesse sustido nas mãos a página de um dicionário com o verbete «suster», a jornalista poderia ter visto que significa: «segurar para que não caia, sustentar, amparar; fazer face a; fazer parar; alimentar, nutrir; refrear, moderar; manter-se, conservar-se; recuperar o equilíbrio, equilibrar-se; conter-se».

«Ex situ»/«in situ»

Latim

«As instalações de Silves, construídas pela Águas do Algarve ao abrigo das medidas de compensação relativa à barragem de Odelouca, vão integrar a rede destes centros ibéricos do programa de conservação ex situ da espécie (fora do seu habitat natural), que se iniciou em 2004, com a reprodução em cativeiro, em Espanha» («Lince-ibérico reintroduzido em Silves esta Primavera», Filomena Naves, Diário de Notícias, 29.03.2009, p. 66). Não é todos os dias que se vê esta locução latina, convenientemente explicada pela jornalista, na imprensa. Opõe-se à muito mais conhecida in situ, também usada no artigo: «“A verdadeira prioridade é a conservação in situ (no habitat natural)”, esclarece o investigador português [Rodrigo Serra].»

«Descobertas/Descobrimentos»

Imagem: http://www.licoresabadia.com/pt/

Até um licorista



      «Cristo-Rei, Ponte 25 de Abril, Torre de Belém, Mosteiro dos Jerónimos, Castelo de São Jorge, Padrão das Descobertas, Centro Cultural de Belém, Museu da Electricidade e os Paços do Concelho serão os pontos da capital que ficarão às escuras em prol daquela campanha global de alerta para a necessidade de adopção de medidas eficazes na luta contra as alterações climáticas» («Apagão global», Vera Mendão Costa, Visão, 12.03.2009, p. 96). Mesmo para quem passa ao lado da questão relativa à vernaculidade de «Descobertas», e são milhões, uma coisa é certa: o nome oficial do monumento é mesmo Padrão dos Descobrimentos. Até um licorista de Alcobaça sabe isso.

Acento diferencial: «pêra/pera»

Está no «etc.»

A propósito do vocábulo «pólo», que passará, em conformidade com as novas regras ortográficas, a escrever-se «polo», uma professora de Português perguntou-me ontem se o vocábulo «pêra» não iria sofrer as mesmas alterações. Respondi que sim. A dificuldade, replicou-me maliciosamente, é dizer qual a norma que o estabelece. Mostrei-lhe o texto do acordo e apontei para o artigo 9.º da Base IX (Da acentuação gráfica das palavras paroxítonas). Sim, mas onde está exactamente escrito, insistiu. No «etc.», respondi.
Faz parte da natureza humana tentar ignorar um problema, como se, agindo dessa maneira, o problema deixasse magicamente de existir. Não quero generalizar, mas parece-me que muitos professores de Português (e os das outras disciplinas?) estão tão preparados para usarem as novas regras ortográficas como a generalidade da população. Pesquisando melhor, porém, verifico que D’Silvas Filho também afirma, majestaticamente, num texto de análise ao novo acordo ortográfico, «não encontrámos no novo acordo referência às actuais grafias pêra e pêro, acentuados». Admito que, neste caso que conto, também está em causa alguma obtusidade e falta de cultura. O vocábulo «pêra» só é acentuado para o distinguir da preposição antiga «pera», razão por que o plural não é acentuado: peras.

Selecção lexical

Aquela base

«O seu estado [de Josef Fritzl, o “monstro de Amstetten”] de saúde mental será avaliado numa base anual» («Fritzl voltará a tribunal por mais quatro anos», Abel Coelho de Morais, Diário de Notícias, 20.03.2009, p. 26). Cada época, já aqui o escrevi uma vez, tem as suas manias, os seus modismos. Houve uma altura em que a palavra «base» estava, a propósito mas mais a despropósito, na boca de quase toda a gente. Esta redacção, «numa base anual», fez-me lembrar esses tempos. Quanto melhor não seria o jornalista ter escrito, por exemplo, isto: «O seu estado de saúde mental será avaliado anualmente.» Ou isto: «O seu estado de saúde mental será avaliado todos os anos.»

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