«Descobertas/Descobrimentos»

Imagem: http://www.licoresabadia.com/pt/

Até um licorista



      «Cristo-Rei, Ponte 25 de Abril, Torre de Belém, Mosteiro dos Jerónimos, Castelo de São Jorge, Padrão das Descobertas, Centro Cultural de Belém, Museu da Electricidade e os Paços do Concelho serão os pontos da capital que ficarão às escuras em prol daquela campanha global de alerta para a necessidade de adopção de medidas eficazes na luta contra as alterações climáticas» («Apagão global», Vera Mendão Costa, Visão, 12.03.2009, p. 96). Mesmo para quem passa ao lado da questão relativa à vernaculidade de «Descobertas», e são milhões, uma coisa é certa: o nome oficial do monumento é mesmo Padrão dos Descobrimentos. Até um licorista de Alcobaça sabe isso.

Acento diferencial: «pêra/pera»

Está no «etc.»

A propósito do vocábulo «pólo», que passará, em conformidade com as novas regras ortográficas, a escrever-se «polo», uma professora de Português perguntou-me ontem se o vocábulo «pêra» não iria sofrer as mesmas alterações. Respondi que sim. A dificuldade, replicou-me maliciosamente, é dizer qual a norma que o estabelece. Mostrei-lhe o texto do acordo e apontei para o artigo 9.º da Base IX (Da acentuação gráfica das palavras paroxítonas). Sim, mas onde está exactamente escrito, insistiu. No «etc.», respondi.
Faz parte da natureza humana tentar ignorar um problema, como se, agindo dessa maneira, o problema deixasse magicamente de existir. Não quero generalizar, mas parece-me que muitos professores de Português (e os das outras disciplinas?) estão tão preparados para usarem as novas regras ortográficas como a generalidade da população. Pesquisando melhor, porém, verifico que D’Silvas Filho também afirma, majestaticamente, num texto de análise ao novo acordo ortográfico, «não encontrámos no novo acordo referência às actuais grafias pêra e pêro, acentuados». Admito que, neste caso que conto, também está em causa alguma obtusidade e falta de cultura. O vocábulo «pêra» só é acentuado para o distinguir da preposição antiga «pera», razão por que o plural não é acentuado: peras.

Selecção lexical

Aquela base

«O seu estado [de Josef Fritzl, o “monstro de Amstetten”] de saúde mental será avaliado numa base anual» («Fritzl voltará a tribunal por mais quatro anos», Abel Coelho de Morais, Diário de Notícias, 20.03.2009, p. 26). Cada época, já aqui o escrevi uma vez, tem as suas manias, os seus modismos. Houve uma altura em que a palavra «base» estava, a propósito mas mais a despropósito, na boca de quase toda a gente. Esta redacção, «numa base anual», fez-me lembrar esses tempos. Quanto melhor não seria o jornalista ter escrito, por exemplo, isto: «O seu estado de saúde mental será avaliado anualmente.» Ou isto: «O seu estado de saúde mental será avaliado todos os anos.»

Sobre «cabouqueiro»

Pedreira em Borba. Imagem: http://abitpixel.files.wordpress.com/


Olhe que não


      «António Medeiros Alexandre define-se como “cabouqueiro”, o nome que em São Miguel, nos Açores, era dado aos homens que partiam a pedra com a ajuda de maços e picaretas» («Cabouqueiro parte pedra para os passeios da ilha», P. F., Diário de Notícias, 23.03.2009, p. 5). Escrito assim, até parece que se trata de um regionalismo. Nada mais errado. Em todo o País se dá o nome de cabouqueiro a quem extrai pedras de uma pedreira. Acrescenta o jornalista: «Faça chuva ou faça sol, e vem todos os dias (com excepção dos domingos e feriados) da Lomba de Santa Bárbara para a sua pedreira improvisada junto à praia.»
      Claro que há pedreiras e pedreiras. Nas pedreiras do chamado «Triângulo dos Mármores», Vila Viçosa-Borba-Estremoz, algumas com dezenas de metros de profundidade, uma das primeiras operações para a extracção dos blocos de mármore é a realização de um barrano, que é a perfuração que se faz na rocha e em que se introduz dinamite (e foi precisamente numa pedreira em Redhill, Surrey, Sul da Inglaterra, que Alfred Nobel fez em 1867 a sua primeira experiência com dinamite) que, explodindo, as faz rebentar; ao tiro dá-se o nome de barreno. Posteriormente, os blocos são desmontados e serrados, desbastados com fio diamantado que corre sobre polés. Ora, a esse buraco que se faz na rocha para a rebentar depois de se encher de pólvora também se dá o nome de cabouco, e ao trabalhador que o faz, cabouqueiro.



Etnias, povos e raças

Depende, não é?

      Entre outros aspectos, o uso da maiúscula não ficou bem explicitado no Acordo Ortográfico de 1990. Até já aqui vimos como em relação às raças, aos povos e às populações nada se diz. Vejam-se estes exemplos do Diário de Notícias para se perceber como muitas vezes os meios de comunicação não têm critério.
      «Na zona, é maioritária a etnia pastune, tradicionalmente dominante no Afeganistão» («Autoridades vencem batalhas mas há mais vítimas civis», Luís Naves, 16.07.2006, p. 13). «A visita de Rice incluiu o Curdistão e a representante americana defendeu que “o petróleo deve ser um recurso partilhado pelo conjunto do povo iraquiano”» («Casa Branca reafirma apoio a Al-Maliki», Luís Naves, 7.10.2006, p. 17). «O seu regime foi bastante violento, incluindo uma brutal purga em 1985, onde foram fuzilados vários dirigentes de etnia balanta» («Uma multidão comovida despediu-se de Nino Vieira», Luís Naves, 11.03.2009, p. 24). «O estudo utilizou pessoas do povo Mafa, um dos 250 grupos étnicos dos Camarões» («Linguagem da música parece ser universal», 22.03.2009, p. 37).
   Parece que não têm dúvidas sobre as etnias, mas já quanto aos povos, não sabem se obriga a maiúscula — e deviam saber. Pior do que ter um critério errado é não ter critério.

Sobre «farda»


Outrora

Não nasci a tempo de pertencer à Mocidade Portuguesa. Mas usei bibe na escola primária e não gostava nada. A pertença à Mocidade Portuguesa obrigava ao uso de farda, que se comprava a pronto ou a prestações. A farda, diziam os estatutos, era o uniforme de trabalho. Bivaque, camisa, cinto (com um s, fosse de «servir» ou de «Salazar»), calções e meias. Nem é por acaso que à farda se dá o nome de uniforme. Uniforme porque uniformiza, anula as características individuais, torna os membros todos iguais, mais facilmente controláveis. Curioso é que «farda» e «fardo» tenham o mesmo étimo árabe. E figuradamente, um fardo é um peso, algo que incomoda ou custa a suportar. Era objectivo da Mocidade Portuguesa fazer de cada membro um «português perfeito», seja isso lá o que for.

Uso da maiúscula

Lacunas

E a propósito de Portugueses e Galegos: D’Silvas Filho depreende que, no âmbito do novo acordo ortográfico, as raças, os povos e as populações não obrigarão a maiúscula em Portugal (os portugueses, os galegos). Eu depreendo exactamente o contrário. Como o texto do Acordo Ortográfico de 1990 não é explícito em relação a esta questão (ao contrário do Acordo Ortográfico de 1945), esta poderá ser mais uma questão que só o vocabulário ortográfico comum poderá e deverá esclarecer. Não se pode é argumentar, como fez um autor há dias em conversa comigo, que já agora pouca gente faz a distinção entre sentido geral, em que constituem verdadeiras formas onomásticas, e sentido particular, em que são meros substantivos comuns. É um argumento que invoca não a força do uso, mas a força da ignorância.

Sobre a dupla grafia

Falta o melhor

Enquanto não houver um vocabulário ortográfico comum, o Acordo Ortográfico de 1990 não terá uma aplicação sensata nem uniforme. Nos últimos dias, tenho visto como as confusões à volta do conceito de dupla grafia já vão fazendo estragos. Os falantes não se entendem e, ainda pior, os linguistas também não. Haverá dupla grafia quer no âmbito da língua portuguesa como um todo, ou lusofonia, como agora se diz, em especial na oposição variante brasileira/variante luso-afro-asiática, quer no âmbito mais restrito da mesma comunidade linguística. Assim, no âmbito mais alargado, no Brasil continuará a escrever-se, por exemplo, fato e recepção, o que corresponderá a facto e receção em Portugal. No âmbito da mesma comunidade, a oscilação de pronúncia relativamente às consoantes mudas c e p (cacto e cato, dicção e dição, sector e setor, etc.) também conduzirá a uma legítima dupla grafia. É assim errada a noção, largamente difundida, de que o novo acordo ortográfico permite uma ampla liberdade na grafia.
É decerto muito útil haver já uma nova edição do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP) da Academia Brasileira de Letras com as novas regras ortográficas. Até o podemos entender como um passo oportuno e mesmo decisivo para termos um verdadeiro vocabulário ortográfico comum, como exige o preâmbulo do acordo, mas a verdade é que são contributos como o da Academia Galega da Língua Portuguesa (AGLP), que entregou na Academia das Ciências de Lisboa (ACL) um vocabulário com léxico comum a Portugueses e Galegos, que edificarão um vocabulário ortográfico comum. Falta agora o melhor: fazer-se esse vocabulário ortográfico comum que contemple todas as variantes e estabeleça as duplas grafias para cada país signatário.

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