Sobre «cabouqueiro»

Pedreira em Borba. Imagem: http://abitpixel.files.wordpress.com/


Olhe que não


      «António Medeiros Alexandre define-se como “cabouqueiro”, o nome que em São Miguel, nos Açores, era dado aos homens que partiam a pedra com a ajuda de maços e picaretas» («Cabouqueiro parte pedra para os passeios da ilha», P. F., Diário de Notícias, 23.03.2009, p. 5). Escrito assim, até parece que se trata de um regionalismo. Nada mais errado. Em todo o País se dá o nome de cabouqueiro a quem extrai pedras de uma pedreira. Acrescenta o jornalista: «Faça chuva ou faça sol, e vem todos os dias (com excepção dos domingos e feriados) da Lomba de Santa Bárbara para a sua pedreira improvisada junto à praia.»
      Claro que há pedreiras e pedreiras. Nas pedreiras do chamado «Triângulo dos Mármores», Vila Viçosa-Borba-Estremoz, algumas com dezenas de metros de profundidade, uma das primeiras operações para a extracção dos blocos de mármore é a realização de um barrano, que é a perfuração que se faz na rocha e em que se introduz dinamite (e foi precisamente numa pedreira em Redhill, Surrey, Sul da Inglaterra, que Alfred Nobel fez em 1867 a sua primeira experiência com dinamite) que, explodindo, as faz rebentar; ao tiro dá-se o nome de barreno. Posteriormente, os blocos são desmontados e serrados, desbastados com fio diamantado que corre sobre polés. Ora, a esse buraco que se faz na rocha para a rebentar depois de se encher de pólvora também se dá o nome de cabouco, e ao trabalhador que o faz, cabouqueiro.



Etnias, povos e raças

Depende, não é?

      Entre outros aspectos, o uso da maiúscula não ficou bem explicitado no Acordo Ortográfico de 1990. Até já aqui vimos como em relação às raças, aos povos e às populações nada se diz. Vejam-se estes exemplos do Diário de Notícias para se perceber como muitas vezes os meios de comunicação não têm critério.
      «Na zona, é maioritária a etnia pastune, tradicionalmente dominante no Afeganistão» («Autoridades vencem batalhas mas há mais vítimas civis», Luís Naves, 16.07.2006, p. 13). «A visita de Rice incluiu o Curdistão e a representante americana defendeu que “o petróleo deve ser um recurso partilhado pelo conjunto do povo iraquiano”» («Casa Branca reafirma apoio a Al-Maliki», Luís Naves, 7.10.2006, p. 17). «O seu regime foi bastante violento, incluindo uma brutal purga em 1985, onde foram fuzilados vários dirigentes de etnia balanta» («Uma multidão comovida despediu-se de Nino Vieira», Luís Naves, 11.03.2009, p. 24). «O estudo utilizou pessoas do povo Mafa, um dos 250 grupos étnicos dos Camarões» («Linguagem da música parece ser universal», 22.03.2009, p. 37).
   Parece que não têm dúvidas sobre as etnias, mas já quanto aos povos, não sabem se obriga a maiúscula — e deviam saber. Pior do que ter um critério errado é não ter critério.

Sobre «farda»


Outrora

Não nasci a tempo de pertencer à Mocidade Portuguesa. Mas usei bibe na escola primária e não gostava nada. A pertença à Mocidade Portuguesa obrigava ao uso de farda, que se comprava a pronto ou a prestações. A farda, diziam os estatutos, era o uniforme de trabalho. Bivaque, camisa, cinto (com um s, fosse de «servir» ou de «Salazar»), calções e meias. Nem é por acaso que à farda se dá o nome de uniforme. Uniforme porque uniformiza, anula as características individuais, torna os membros todos iguais, mais facilmente controláveis. Curioso é que «farda» e «fardo» tenham o mesmo étimo árabe. E figuradamente, um fardo é um peso, algo que incomoda ou custa a suportar. Era objectivo da Mocidade Portuguesa fazer de cada membro um «português perfeito», seja isso lá o que for.

Uso da maiúscula

Lacunas

E a propósito de Portugueses e Galegos: D’Silvas Filho depreende que, no âmbito do novo acordo ortográfico, as raças, os povos e as populações não obrigarão a maiúscula em Portugal (os portugueses, os galegos). Eu depreendo exactamente o contrário. Como o texto do Acordo Ortográfico de 1990 não é explícito em relação a esta questão (ao contrário do Acordo Ortográfico de 1945), esta poderá ser mais uma questão que só o vocabulário ortográfico comum poderá e deverá esclarecer. Não se pode é argumentar, como fez um autor há dias em conversa comigo, que já agora pouca gente faz a distinção entre sentido geral, em que constituem verdadeiras formas onomásticas, e sentido particular, em que são meros substantivos comuns. É um argumento que invoca não a força do uso, mas a força da ignorância.

Sobre a dupla grafia

Falta o melhor

Enquanto não houver um vocabulário ortográfico comum, o Acordo Ortográfico de 1990 não terá uma aplicação sensata nem uniforme. Nos últimos dias, tenho visto como as confusões à volta do conceito de dupla grafia já vão fazendo estragos. Os falantes não se entendem e, ainda pior, os linguistas também não. Haverá dupla grafia quer no âmbito da língua portuguesa como um todo, ou lusofonia, como agora se diz, em especial na oposição variante brasileira/variante luso-afro-asiática, quer no âmbito mais restrito da mesma comunidade linguística. Assim, no âmbito mais alargado, no Brasil continuará a escrever-se, por exemplo, fato e recepção, o que corresponderá a facto e receção em Portugal. No âmbito da mesma comunidade, a oscilação de pronúncia relativamente às consoantes mudas c e p (cacto e cato, dicção e dição, sector e setor, etc.) também conduzirá a uma legítima dupla grafia. É assim errada a noção, largamente difundida, de que o novo acordo ortográfico permite uma ampla liberdade na grafia.
É decerto muito útil haver já uma nova edição do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP) da Academia Brasileira de Letras com as novas regras ortográficas. Até o podemos entender como um passo oportuno e mesmo decisivo para termos um verdadeiro vocabulário ortográfico comum, como exige o preâmbulo do acordo, mas a verdade é que são contributos como o da Academia Galega da Língua Portuguesa (AGLP), que entregou na Academia das Ciências de Lisboa (ACL) um vocabulário com léxico comum a Portugueses e Galegos, que edificarão um vocabulário ortográfico comum. Falta agora o melhor: fazer-se esse vocabulário ortográfico comum que contemple todas as variantes e estabeleça as duplas grafias para cada país signatário.

Sobre «janela de oportunidade»


Contributos da ciência

A esta hora, deve haver criminosos a usar a expressão «janela de oportunidade». «Meu, quando tivermos uma janela de oportunidade, assaltamos aquela moradia no Restelo de que nos falaram aqueles bacanos ontem.» Janela de oportunidade não significa mais do que um breve período de tempo em que ocorrem particulares vantagens para fazer qualquer coisa. É a tradução literal do inglês window of oportunity, tendo começado a ser usada metaforicamente naquela língua, na década de 1960, na astronomia, passando depois à economia, estando agora na rua. (Não ainda nas ruas da amargura.) Na década de 1970, surgiu a locução window of vulnerability, que nunca vi traduzida para português.

Sobre «retaguarda»

Vade retro

Apanhados desprevenidos, muitos falantes não sabem se o vocábulo «retaguarda» tem ou não c. Certo, certo é que vejo a palavra inúmeras vezes incorrectamente escrita: «rectaguarda». Aconteceu agora mesmo, num texto de uma professora universitária (que não terá sido apanhada desprevenida…). Bem, talvez valha a pena esclarecer porque é que não tem c. O étimo é o espanhol retaguardia, com os mesmos significados. E este retaguardia provém de uma palavra, actualmente caída em desuso, em que o sentido de recto (como em «rectângulo») não está presente, que é retroguardia: de início, apenas a porção de uma força, de uma guarda, que avança em último lugar. Para tudo acabar bem, de acordo com as novas regras ortográficas, passar-se-á a escrever retângulo. Suspeito é que, daqui a vinte anos, muita gente ainda não saiba, como sucede com a regra da prioridade nas rotundas, que ainda não entrou na cabecinha de todos os automobilistas.

Sobre «pedigree»

Palavras bastardas

A etimologia é, não há qualquer dúvida, uma das áreas mais interessantes da língua. Acabei agora de ler que o duque de Saldanha (1790―1876) tinha «o necessário pedigree aristocrático e era um marechal do exército com fama de invencível». Pedigree é um vocábulo inglês e vem do francês pied-de-grue, que significa pata de grou. Antigamente, os criadores de cavalos marcavam os animais com três segmentos de recta alinhados de tal forma (em leque aberto) que pareciam as patas de um grou, ave encontrada em planícies e zonas pantanosas de quase todo o mundo.
A. Tavares Louro, consultor do Ciberdúvidas, sugere que, equivalendo o termo a genealogia, linhagem ou ancestralidade, «algumas pessoas podem ter relutância em usar estes vocábulos relativamente aos animais e, por isso, optam por uma palavra estrangeira». O que bem pode ser verdade. Curioso é que depois se vá buscar o termo — nesta acepção, completamente desnecessário — precisamente para referir a linhagem de determinada personagem.

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