Sobre «farda»


Outrora

Não nasci a tempo de pertencer à Mocidade Portuguesa. Mas usei bibe na escola primária e não gostava nada. A pertença à Mocidade Portuguesa obrigava ao uso de farda, que se comprava a pronto ou a prestações. A farda, diziam os estatutos, era o uniforme de trabalho. Bivaque, camisa, cinto (com um s, fosse de «servir» ou de «Salazar»), calções e meias. Nem é por acaso que à farda se dá o nome de uniforme. Uniforme porque uniformiza, anula as características individuais, torna os membros todos iguais, mais facilmente controláveis. Curioso é que «farda» e «fardo» tenham o mesmo étimo árabe. E figuradamente, um fardo é um peso, algo que incomoda ou custa a suportar. Era objectivo da Mocidade Portuguesa fazer de cada membro um «português perfeito», seja isso lá o que for.

Uso da maiúscula

Lacunas

E a propósito de Portugueses e Galegos: D’Silvas Filho depreende que, no âmbito do novo acordo ortográfico, as raças, os povos e as populações não obrigarão a maiúscula em Portugal (os portugueses, os galegos). Eu depreendo exactamente o contrário. Como o texto do Acordo Ortográfico de 1990 não é explícito em relação a esta questão (ao contrário do Acordo Ortográfico de 1945), esta poderá ser mais uma questão que só o vocabulário ortográfico comum poderá e deverá esclarecer. Não se pode é argumentar, como fez um autor há dias em conversa comigo, que já agora pouca gente faz a distinção entre sentido geral, em que constituem verdadeiras formas onomásticas, e sentido particular, em que são meros substantivos comuns. É um argumento que invoca não a força do uso, mas a força da ignorância.

Sobre a dupla grafia

Falta o melhor

Enquanto não houver um vocabulário ortográfico comum, o Acordo Ortográfico de 1990 não terá uma aplicação sensata nem uniforme. Nos últimos dias, tenho visto como as confusões à volta do conceito de dupla grafia já vão fazendo estragos. Os falantes não se entendem e, ainda pior, os linguistas também não. Haverá dupla grafia quer no âmbito da língua portuguesa como um todo, ou lusofonia, como agora se diz, em especial na oposição variante brasileira/variante luso-afro-asiática, quer no âmbito mais restrito da mesma comunidade linguística. Assim, no âmbito mais alargado, no Brasil continuará a escrever-se, por exemplo, fato e recepção, o que corresponderá a facto e receção em Portugal. No âmbito da mesma comunidade, a oscilação de pronúncia relativamente às consoantes mudas c e p (cacto e cato, dicção e dição, sector e setor, etc.) também conduzirá a uma legítima dupla grafia. É assim errada a noção, largamente difundida, de que o novo acordo ortográfico permite uma ampla liberdade na grafia.
É decerto muito útil haver já uma nova edição do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP) da Academia Brasileira de Letras com as novas regras ortográficas. Até o podemos entender como um passo oportuno e mesmo decisivo para termos um verdadeiro vocabulário ortográfico comum, como exige o preâmbulo do acordo, mas a verdade é que são contributos como o da Academia Galega da Língua Portuguesa (AGLP), que entregou na Academia das Ciências de Lisboa (ACL) um vocabulário com léxico comum a Portugueses e Galegos, que edificarão um vocabulário ortográfico comum. Falta agora o melhor: fazer-se esse vocabulário ortográfico comum que contemple todas as variantes e estabeleça as duplas grafias para cada país signatário.

Sobre «janela de oportunidade»


Contributos da ciência

A esta hora, deve haver criminosos a usar a expressão «janela de oportunidade». «Meu, quando tivermos uma janela de oportunidade, assaltamos aquela moradia no Restelo de que nos falaram aqueles bacanos ontem.» Janela de oportunidade não significa mais do que um breve período de tempo em que ocorrem particulares vantagens para fazer qualquer coisa. É a tradução literal do inglês window of oportunity, tendo começado a ser usada metaforicamente naquela língua, na década de 1960, na astronomia, passando depois à economia, estando agora na rua. (Não ainda nas ruas da amargura.) Na década de 1970, surgiu a locução window of vulnerability, que nunca vi traduzida para português.

Sobre «retaguarda»

Vade retro

Apanhados desprevenidos, muitos falantes não sabem se o vocábulo «retaguarda» tem ou não c. Certo, certo é que vejo a palavra inúmeras vezes incorrectamente escrita: «rectaguarda». Aconteceu agora mesmo, num texto de uma professora universitária (que não terá sido apanhada desprevenida…). Bem, talvez valha a pena esclarecer porque é que não tem c. O étimo é o espanhol retaguardia, com os mesmos significados. E este retaguardia provém de uma palavra, actualmente caída em desuso, em que o sentido de recto (como em «rectângulo») não está presente, que é retroguardia: de início, apenas a porção de uma força, de uma guarda, que avança em último lugar. Para tudo acabar bem, de acordo com as novas regras ortográficas, passar-se-á a escrever retângulo. Suspeito é que, daqui a vinte anos, muita gente ainda não saiba, como sucede com a regra da prioridade nas rotundas, que ainda não entrou na cabecinha de todos os automobilistas.

Sobre «pedigree»

Palavras bastardas

A etimologia é, não há qualquer dúvida, uma das áreas mais interessantes da língua. Acabei agora de ler que o duque de Saldanha (1790―1876) tinha «o necessário pedigree aristocrático e era um marechal do exército com fama de invencível». Pedigree é um vocábulo inglês e vem do francês pied-de-grue, que significa pata de grou. Antigamente, os criadores de cavalos marcavam os animais com três segmentos de recta alinhados de tal forma (em leque aberto) que pareciam as patas de um grou, ave encontrada em planícies e zonas pantanosas de quase todo o mundo.
A. Tavares Louro, consultor do Ciberdúvidas, sugere que, equivalendo o termo a genealogia, linhagem ou ancestralidade, «algumas pessoas podem ter relutância em usar estes vocábulos relativamente aos animais e, por isso, optam por uma palavra estrangeira». O que bem pode ser verdade. Curioso é que depois se vá buscar o termo — nesta acepção, completamente desnecessário — precisamente para referir a linhagem de determinada personagem.

Sobre «criatura»

Boa acepção

Na catequese, ouvíamos falar das criaturas de Deus, todos os seres criados. Em casa, ouvíamos falar, em especial depois de alguma travessura, em criaturas do Diabo. Mais tarde, ouvimos falar de outras criaturas. Leio agora que o governador do castelo de Lisboa era uma criatura do duque da Terceira, ou seja, dependia do duque. Hoje em dia, não faltarão criaturas de Sócrates. E, por causa das hierarquias, ainda mais criaturas de criaturas de Sócrates. Depois das eleições, as criaturas mudam. Andamos assim desde o século XIX.

Sobre «real»


Na real gana

Em 1834, a rainha D. Maria II enviou ao Porto o coronel João Ferreira Sarmento com uma carta para a Junta Provisória escrita «pelo seu real punho», noticiava a imprensa da época. Palavras evocam palavras: ao ler «pelo seu real punho», lembro-me logo do Paço do Lumiar. Há ali um, muito bom, restaurante chamado Tertúlia do Paço. Mais expressivo ainda, o Real Colégio de Portugal, que pertence ao Grupo Lusófona, também tem sede ali e decerto que o qualificativo advém somente da localização. Mais monárquico será a Real Funerária, também na zona, que até faz desconto a militantes (com as quotas pagas?) do Partido Popular Monárquico, um irrecusável incentivo a deixar-se morrer mais cedo. Numa república, tudo o que for ou aparentar ser monárquico será, no mínimo, alvo de atenção. As palavras têm um valor conotativo efectivo, real.

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