Ortografia: «fotobiobibliografia»


Não queriam mais nada

Vamos ver se nos entendemos. Há o vocábulo «biobibliografia», não é assim? Também há o vocábulo «fotobiografia», não é verdade? Então parece que temos de escrever «fotobiobibliografia». Parece-me que os responsáveis pela concepção deste cartaz deviam saber, pois as bibliotecas municipais de Lisboa têm, por exemplo, a obra Miguel Torga: fotobiobibliografia, da autoria de José de Melo e publicada em 1995 pela editora Estante, de Aveiro. Mais um caso de amnésia linguística...

Léxico: «marca»

Passar das marcas

O vocábulo «marca» é — já tinham reparado? — um dos mais polissémicos na nossa língua. Aprendi agora que no século XIX se dava o nome de marcas à horda de maltrapilhos que aproveitavam para dormir na tarimba dos quartéis, e que a troco de dinheiro faziam o serviço em lugar de gente graúda que pretendia eximir-se a ele.

Uso de estrangeirismos. «Vocal»

E instrumental?

      E o autor escrevia que «o grupo dos “ordeiros” se tornava cada vez mais vocal». Já vimos este vocal aqui. Nem sempre o contexto ajuda o leitor a perceber de que se trata, o que parece não tirar o sono aos autores. Vocal, escrevi então, poderá traduzir-se, por exemplo, por «que se faz ouvir»: «o grupo dos “ordeiros” que se fazia cada vez mais ouvir». Isto é português, é compreensível.

Léxico: «chamorro»

Bons ventos...

Voltemos ao século XIX, em que ficámos ontem. Como sempre acontece quando há confronto, inventam-se e refrescam-se termos com que se pretende ofender os adversários. Com a outorga da Carta Constitucional por D. Pedro IV (1798-1834) e a sua vinda para Portugal, em pleno «reinado da frase e do tiro», como lhe chamou o historiador Oliveira Martins, à volta do primeiro imperador do Brasil juntaram-se vários homens, os chamados «amigos de D. Pedro», mais tarde apodados de chamorros. O termo «chamorro» já tinha sido usado pelos Castelhanos no século XIV para referir depreciativamente os portugueses, por estes usarem a cara rapada e o cabelo curto. Chamorro significa, em espanhol, «tosquiado», e aplica-se mais facilmente a uma ovelha do que a homem.

Os prefixos co- e re-


Como se comporta a ABL



      Salvo para afirmar, na Base II, n.º 2, b), que o h inicial é suprimido quando, por via de composição, passa a interior e o elemento em que figura se aglutina ao precedente (reabilitar, reaver), nunca o Acordo Ortográfico de 1990 refere o prefixo re-, mas nem mesmo a omissão deixou a salvo a regra que tradicionalmente se observa. É sobre esta questão que versa o artigo acima do Prof. Evanildo Bechara. A questão é tanto mais importante quanto a 1.ª edição do dicionário escolar da própria Academia Brasileira de Letras (ABL), lançado em Outubro, «agasalhou» o erro, de que saiu uma errata no sítio da ABL. A 2.ª edição deste dicionário corrigiu, mas errou, conforme escreve o leitor Paulo Araujo, «o que estava certo (cri-crilar e zi-ziar em vez de cricrilar e ziziar, mas cri-cri e zi-zi-zi continuam, sob a justificativa de que os nomes onomatopeicos têm hífen, tradicionalmente), ou seja, a errata acertou mas errou. Devia haver o termo “acertata”, para nomear esse tipo de barbeiragem [erro cometido por profissional, decorrente de descuido, inabilidade ou incompetência, no exercício do seu trabalho]». Agora, o Volp não acolhe este erro, que também alguns dicionários portugueses difundem.

«Governo pasteleiro»

Outras fusões

Entre 1834, termo da guerra civil entre liberais e miguelistas, e 1851, ano do pronunciamento militar da Regeneração, imperou largamente a violência política no País, legado perdurável da Revolução Francesa de 1789. Alguns políticos, de que Rodrigo da Fonseca (1787-1858) foi um dos expoentes, procuraram evitar a ameaça por meio de concessões, que se esperava que esvaziassem de conteúdo as reivindicações dos adversários e satisfizessem as ambições pelo menos de alguns deles. Era a táctica dos governos chamados «pasteleiros», a partir dos versos jocosos que então estavam na boca do cidadão comum: «Um pasteleiro queria/fabricar um pastelão/e, porque tinha de tudo,/deu-lhe o nome de fusão.» Aos esforços de agradar às clientelas, dava-se o nome de «pastelarias».

Léxico: «cisionista»

Dá que pensar

Embora o termo «cisão», na acepção de divisão de uma agremiação, de um partido, de uma sociedade, de uma doutrina, etc., se aplique em qualquer área ideológica, parece que são quase exclusivamente os comunistas que usam o adjectivo «cisionista», que nenhum dicionário regista. Do anarquista Bakunine ao mais cordato zé-ninguém, muitos têm sido os indivíduos acusados de «actividade cisionista».

Léxico: «heminegligente»


Pela metade

Conheci ontem um novo vocábulo: «heminegligente». É a tradução do francês héminégligent e pertence ao jargão da neuropsicologia, designando o paciente que, na sequência de uma lesão parietal do hemisfério direito, ignora tudo o que se passa no seu lado esquerdo, ignora metade do seu universo. Sobretudo no campo da terminologia da medicina, há outras coisas pela metade: hemiagnosia, hemialgia, hemicrania, hemianestesia, hemianopsia, hemiopia… Contudo, o hemi- de que mais se fala, sobretudo nos meios de comunicação social, é o hemiciclo, o Parlamento.

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