Léxico: «chamorro»

Bons ventos...

Voltemos ao século XIX, em que ficámos ontem. Como sempre acontece quando há confronto, inventam-se e refrescam-se termos com que se pretende ofender os adversários. Com a outorga da Carta Constitucional por D. Pedro IV (1798-1834) e a sua vinda para Portugal, em pleno «reinado da frase e do tiro», como lhe chamou o historiador Oliveira Martins, à volta do primeiro imperador do Brasil juntaram-se vários homens, os chamados «amigos de D. Pedro», mais tarde apodados de chamorros. O termo «chamorro» já tinha sido usado pelos Castelhanos no século XIV para referir depreciativamente os portugueses, por estes usarem a cara rapada e o cabelo curto. Chamorro significa, em espanhol, «tosquiado», e aplica-se mais facilmente a uma ovelha do que a homem.

Os prefixos co- e re-


Como se comporta a ABL



      Salvo para afirmar, na Base II, n.º 2, b), que o h inicial é suprimido quando, por via de composição, passa a interior e o elemento em que figura se aglutina ao precedente (reabilitar, reaver), nunca o Acordo Ortográfico de 1990 refere o prefixo re-, mas nem mesmo a omissão deixou a salvo a regra que tradicionalmente se observa. É sobre esta questão que versa o artigo acima do Prof. Evanildo Bechara. A questão é tanto mais importante quanto a 1.ª edição do dicionário escolar da própria Academia Brasileira de Letras (ABL), lançado em Outubro, «agasalhou» o erro, de que saiu uma errata no sítio da ABL. A 2.ª edição deste dicionário corrigiu, mas errou, conforme escreve o leitor Paulo Araujo, «o que estava certo (cri-crilar e zi-ziar em vez de cricrilar e ziziar, mas cri-cri e zi-zi-zi continuam, sob a justificativa de que os nomes onomatopeicos têm hífen, tradicionalmente), ou seja, a errata acertou mas errou. Devia haver o termo “acertata”, para nomear esse tipo de barbeiragem [erro cometido por profissional, decorrente de descuido, inabilidade ou incompetência, no exercício do seu trabalho]». Agora, o Volp não acolhe este erro, que também alguns dicionários portugueses difundem.

«Governo pasteleiro»

Outras fusões

Entre 1834, termo da guerra civil entre liberais e miguelistas, e 1851, ano do pronunciamento militar da Regeneração, imperou largamente a violência política no País, legado perdurável da Revolução Francesa de 1789. Alguns políticos, de que Rodrigo da Fonseca (1787-1858) foi um dos expoentes, procuraram evitar a ameaça por meio de concessões, que se esperava que esvaziassem de conteúdo as reivindicações dos adversários e satisfizessem as ambições pelo menos de alguns deles. Era a táctica dos governos chamados «pasteleiros», a partir dos versos jocosos que então estavam na boca do cidadão comum: «Um pasteleiro queria/fabricar um pastelão/e, porque tinha de tudo,/deu-lhe o nome de fusão.» Aos esforços de agradar às clientelas, dava-se o nome de «pastelarias».

Léxico: «cisionista»

Dá que pensar

Embora o termo «cisão», na acepção de divisão de uma agremiação, de um partido, de uma sociedade, de uma doutrina, etc., se aplique em qualquer área ideológica, parece que são quase exclusivamente os comunistas que usam o adjectivo «cisionista», que nenhum dicionário regista. Do anarquista Bakunine ao mais cordato zé-ninguém, muitos têm sido os indivíduos acusados de «actividade cisionista».

Léxico: «heminegligente»


Pela metade

Conheci ontem um novo vocábulo: «heminegligente». É a tradução do francês héminégligent e pertence ao jargão da neuropsicologia, designando o paciente que, na sequência de uma lesão parietal do hemisfério direito, ignora tudo o que se passa no seu lado esquerdo, ignora metade do seu universo. Sobretudo no campo da terminologia da medicina, há outras coisas pela metade: hemiagnosia, hemialgia, hemicrania, hemianestesia, hemianopsia, hemiopia… Contudo, o hemi- de que mais se fala, sobretudo nos meios de comunicação social, é o hemiciclo, o Parlamento.

Plural de «viés»

Não me parece

O autor terminava a frase escrevendo que a manipulação linguística «acaba por criar em qualquer indivíduo bem-intencionado um mundo mental onde os viés são poderosos». Não contesto a verdade da afirmação — só a gramática. Convenho: «viés» não é palavra de todos os dias. Por isso mesmo, o autor devia ter consultado um dicionário ou gramática. O plural de viés é vieses, como o de revés é reveses. Não é como lápis, que é invariável: um lápis, duzentos lápis.

À volta de «alunagem»

Sem perigo

Há almas cândidas que se vão preocupando já com o que vai acontecer quando naves espaciais pousarem nos planetas Vénus, Plutão, Saturno e todos os outros. É que na Lua as naves alunaram… Essas almas cândidas, contudo, que se calhar nunca embarcaram num navio, dizem que o fazem num avião, num comboio… Valha-nos a catacrese, que é o nome que se dá ao uso de um termo figurado por falta de termo próprio. Se aterramos na Terra, talvez também o possamos fazer, sem perigo para ninguém, na Lua, em Marte, em Neptuno…

Actualização em 23.05.2009

«A agência espacial norte-americana, NASA, está a preparar uma nova missão à Lua. O objectivo é encontrar água e locais adequados à alunagem — duas condições essenciais para planear o regresso dos seres humanos àquele planeta e uma eventual colonização» («Procurar água e locais para novas alunagens», Patrícia Jesus, Diário de Notícias, 23.05.2009, p. 39).

Concordância verbal

A seita

Imaginem, se não custar muito, esta frase: «Nada nem ninguém, nem sequer os entes mais queridos, conseguiam persuadi-lo a abandonar a seita.» Com tantos «nem», podemos ficar obnubilados, mas, passado um bocado, indagamos que faz ali aquele plural, «conseguiam». Parece muita coisa e muita gente, mas talvez o verbo no singular seja o mais adequado. As gramáticas que consultei não contemplam este tipo de construção com pronomes indefinidos. Para já, esqueçamos o segmento «nem sequer os entes mais queridos», que, mais do que não adiantar, atrasa a análise. Sobra isto: «Nada nem ninguém conseguiam persuadi-lo a abandonar a seita.» Se tivermos uma enumeração quilométrica cujo último termo seja «nada», o verbo vai para o singular. Se tivermos uma enumeração quilométrica cujo último termo seja «ninguém», o verbo vai para o singular. Sendo assim, porque é que a construção «nada nem ninguém» levaria o verbo para o plural? É que não são substantivos, lembrem-se.

Arquivo do blogue