Plural de «viés»

Não me parece

O autor terminava a frase escrevendo que a manipulação linguística «acaba por criar em qualquer indivíduo bem-intencionado um mundo mental onde os viés são poderosos». Não contesto a verdade da afirmação — só a gramática. Convenho: «viés» não é palavra de todos os dias. Por isso mesmo, o autor devia ter consultado um dicionário ou gramática. O plural de viés é vieses, como o de revés é reveses. Não é como lápis, que é invariável: um lápis, duzentos lápis.

À volta de «alunagem»

Sem perigo

Há almas cândidas que se vão preocupando já com o que vai acontecer quando naves espaciais pousarem nos planetas Vénus, Plutão, Saturno e todos os outros. É que na Lua as naves alunaram… Essas almas cândidas, contudo, que se calhar nunca embarcaram num navio, dizem que o fazem num avião, num comboio… Valha-nos a catacrese, que é o nome que se dá ao uso de um termo figurado por falta de termo próprio. Se aterramos na Terra, talvez também o possamos fazer, sem perigo para ninguém, na Lua, em Marte, em Neptuno…

Actualização em 23.05.2009

«A agência espacial norte-americana, NASA, está a preparar uma nova missão à Lua. O objectivo é encontrar água e locais adequados à alunagem — duas condições essenciais para planear o regresso dos seres humanos àquele planeta e uma eventual colonização» («Procurar água e locais para novas alunagens», Patrícia Jesus, Diário de Notícias, 23.05.2009, p. 39).

Concordância verbal

A seita

Imaginem, se não custar muito, esta frase: «Nada nem ninguém, nem sequer os entes mais queridos, conseguiam persuadi-lo a abandonar a seita.» Com tantos «nem», podemos ficar obnubilados, mas, passado um bocado, indagamos que faz ali aquele plural, «conseguiam». Parece muita coisa e muita gente, mas talvez o verbo no singular seja o mais adequado. As gramáticas que consultei não contemplam este tipo de construção com pronomes indefinidos. Para já, esqueçamos o segmento «nem sequer os entes mais queridos», que, mais do que não adiantar, atrasa a análise. Sobra isto: «Nada nem ninguém conseguiam persuadi-lo a abandonar a seita.» Se tivermos uma enumeração quilométrica cujo último termo seja «nada», o verbo vai para o singular. Se tivermos uma enumeração quilométrica cujo último termo seja «ninguém», o verbo vai para o singular. Sendo assim, porque é que a construção «nada nem ninguém» levaria o verbo para o plural? É que não são substantivos, lembrem-se.

«Pegada de carbono»

Imagem: http://bioplasticnews.blogspot.com/

Pensem bem

Poucas vezes se adoptou, traduzindo, tão rapidamente uma palavra ou expressão do inglês como aconteceu com carbon footprint. Sem contestação nem estranheza. O pior, e o que motiva este texto, é que muitos jornalistas a usam sem a explicarem. Isso é um erro. A pegada de carbono, deviam esclarecer, é a medida do impacto das actividades humanas sobre as emissões de gases com efeito de estufa, ou seja, representa a quantidade de dióxido de carbono equivalente libertada na realização de cada actividade do nosso dia-a-dia.

Porquê «Serra algarvia»?

Alto conceito

Se se aceitasse, à luz das regras que nos regem, que se escrevesse Planície alentejana, Lezíria ribatejana, Sertão brasileiro e Tundra siberiana, por exemplo, então sim, também teria de se aceitar Serra algarvia. O que acho é que é mais um caso de uso arbitrário da inicial maiúscula (a «letra grelada» a que se referia o poeta António Feliciano de Castilho). Juizinho.

Actualização em 22.05.2009

Nos jornais, por vezes escrevem correctamente: «Para os mais experientes ou determinados, os 240 quilómetros da Via Algarviana, que faz a ligação pedestre entre Alcoutim e o cabo de São Vicente, serão o desafio a não perder, sobretudo se estão interessados em conhecer melhor a serra algarvia» («Caminhando pelos trilhos de Portugal», Liliana Duarte, Público, 22.05.2009, p. 42).

Principal Sousa, de novo

Populares?




      Afinal, D. José António de Meneses e Sousa Coutinho é mais parecido ao inspector Varatojo, por exemplo, do que a Che Guevara — principal Sousa se deveria ter escrito. Pus-me a reler Felizmente Há Luar! e leio esta fala de Beresford: «Sim, também aqui se pode sair a cavalo, mas os prados são secos, Excelência, e as árvores tão entisicadas que parecem ter sido todas plantadas pelo principal Sousa…» (Porto: Areal Editores, 2003, Acto I, p. 57). E vejo coisas curiosas. Manuel, uma personagem popular, pergunta: «Que é isto?» Talvez por ser «o mais consciente dos populares». Mas também Vicente, «um provocador em vias de promoção», pergunta: «Que me quer ele?» E Beresford: «Excelências: não vim aqui para perder tempo com conversas filosóficas. Venho falar-lhes de coisas mais sérias» (p. 41). Sttau Monteiro sabia escrever. Demasiado bem, talvez.


O valor de ex-

Xelente actor

Há muito sei que a noção de que ex- vale eis se vem perdendo, mas ainda vou ficando surpreendido. Ontem, o Pascoal (João Didelet) da Floribella servia, no seu Chá de Letras, uma chávena de leite com mel à mãe do seu futuro filho, argumentando que o café que ela queria lhe faria mal, porque «toda a gente sabe que o café é /xitante/». Ainda se para a composição da personagem fosse necessário falar deste modo, vá lá. No blogue da série, a personagem é apresentada como tratando «os livros como se fossem seus filhos e faz questão de vigiar de perto quem os compra, recusando-se mesmo a vender livros a certas pessoas, se não lhe agradam». De alguém assim, esperava-se que não atropelasse a língua. E o actor, não teve lições de dicção?

Novas regras ortográficas

Depois do Acordo Ortográfico

Vai ter de chegar lá por analogia, como em inúmeras situações, cara Luísa Pinto. Se antes escrevia (espero!) «anti-semita» e com o Acordo Ortográfico de 1990 vai passar a escrever «antissemita», da mesma forma passará a escrever «antissalazarista», porque antes escrevia «anti-salazarista» (espero!). Anti- só se ligará por meio de hífen ao segundo elemento quando este começa por h (anti-higiénico), por r ou s (antirreligioso, antissemita) ou por i (anti-ibérico).

Arquivo do blogue