«Pegada de carbono»

Imagem: http://bioplasticnews.blogspot.com/

Pensem bem

Poucas vezes se adoptou, traduzindo, tão rapidamente uma palavra ou expressão do inglês como aconteceu com carbon footprint. Sem contestação nem estranheza. O pior, e o que motiva este texto, é que muitos jornalistas a usam sem a explicarem. Isso é um erro. A pegada de carbono, deviam esclarecer, é a medida do impacto das actividades humanas sobre as emissões de gases com efeito de estufa, ou seja, representa a quantidade de dióxido de carbono equivalente libertada na realização de cada actividade do nosso dia-a-dia.

Porquê «Serra algarvia»?

Alto conceito

Se se aceitasse, à luz das regras que nos regem, que se escrevesse Planície alentejana, Lezíria ribatejana, Sertão brasileiro e Tundra siberiana, por exemplo, então sim, também teria de se aceitar Serra algarvia. O que acho é que é mais um caso de uso arbitrário da inicial maiúscula (a «letra grelada» a que se referia o poeta António Feliciano de Castilho). Juizinho.

Actualização em 22.05.2009

Nos jornais, por vezes escrevem correctamente: «Para os mais experientes ou determinados, os 240 quilómetros da Via Algarviana, que faz a ligação pedestre entre Alcoutim e o cabo de São Vicente, serão o desafio a não perder, sobretudo se estão interessados em conhecer melhor a serra algarvia» («Caminhando pelos trilhos de Portugal», Liliana Duarte, Público, 22.05.2009, p. 42).

Principal Sousa, de novo

Populares?




      Afinal, D. José António de Meneses e Sousa Coutinho é mais parecido ao inspector Varatojo, por exemplo, do que a Che Guevara — principal Sousa se deveria ter escrito. Pus-me a reler Felizmente Há Luar! e leio esta fala de Beresford: «Sim, também aqui se pode sair a cavalo, mas os prados são secos, Excelência, e as árvores tão entisicadas que parecem ter sido todas plantadas pelo principal Sousa…» (Porto: Areal Editores, 2003, Acto I, p. 57). E vejo coisas curiosas. Manuel, uma personagem popular, pergunta: «Que é isto?» Talvez por ser «o mais consciente dos populares». Mas também Vicente, «um provocador em vias de promoção», pergunta: «Que me quer ele?» E Beresford: «Excelências: não vim aqui para perder tempo com conversas filosóficas. Venho falar-lhes de coisas mais sérias» (p. 41). Sttau Monteiro sabia escrever. Demasiado bem, talvez.


O valor de ex-

Xelente actor

Há muito sei que a noção de que ex- vale eis se vem perdendo, mas ainda vou ficando surpreendido. Ontem, o Pascoal (João Didelet) da Floribella servia, no seu Chá de Letras, uma chávena de leite com mel à mãe do seu futuro filho, argumentando que o café que ela queria lhe faria mal, porque «toda a gente sabe que o café é /xitante/». Ainda se para a composição da personagem fosse necessário falar deste modo, vá lá. No blogue da série, a personagem é apresentada como tratando «os livros como se fossem seus filhos e faz questão de vigiar de perto quem os compra, recusando-se mesmo a vender livros a certas pessoas, se não lhe agradam». De alguém assim, esperava-se que não atropelasse a língua. E o actor, não teve lições de dicção?

Novas regras ortográficas

Depois do Acordo Ortográfico

Vai ter de chegar lá por analogia, como em inúmeras situações, cara Luísa Pinto. Se antes escrevia (espero!) «anti-semita» e com o Acordo Ortográfico de 1990 vai passar a escrever «antissemita», da mesma forma passará a escrever «antissalazarista», porque antes escrevia «anti-salazarista» (espero!). Anti- só se ligará por meio de hífen ao segundo elemento quando este começa por h (anti-higiénico), por r ou s (antirreligioso, antissemita) ou por i (anti-ibérico).

Conversão de unidades de medida


Não se convertem


      «Espremeu uma delas e saiu uma libra de sumo; o sabor era de mel.» É assim, sob o signo de S. Brandão, na Navigatio Sancti Brendani, que começo este texto para manifestar mais uma vez a minha estranheza por alguns tradutores deixarem para alguém — já adivinharam quem — a tarefa de converter unidades de medida que nos são estranhas. Que sentido faz, por exemplo, não converter graus Fahrenheit? Acho que até já vi a indicação em graus Réaumur! É claro que há técnicas de conversão facílimas, mas hoje em dia até alguns telemóveis têm conversores. A Internet tem conversores. Usem-nos.

Ortografia: «microespaço»

Os pseudoprefixos


      O leitor A. M. L. pergunta-me como se deve escrever: «micro-espaço» ou «microespaço». Bem, não o escreveu, mas quem sabe se não ponderou também a hipótese de se escrever «microspaço». Sim? O Acordo Ortográfico de 1945, agora na pré-reforma, estabelece que com o elemento micro- nunca se usa o hífen. O problema, contudo, é que a par de «microempresa», por exemplo, temos também dicionarizado e vai-se usando «microsfera»…
      Esta parte da língua não é propriamente um locus amoenus, um lugar ameno. A Base XVI, 1.º, b) do Acordo Ortográfico de 1990 estabelece que apenas se usa hífen «nas formações em que o prefixo ou pseudoprefixo termina na mesma vogal com que se inicia o segundo elemento: anti-ibérico, contra-almirante, infra-axilar, supra-auricular; arqui-irmandade, auto-observação, eletro-ótica, micro-onda, semi-interno». Assim, inequivocamente, microespaço.

Frases negativas

Partículas desconsagradas

Cruzei-me ontem na rua com duas mulheres, e uma delas ia contando: «Dizia ela: “Eu já não disse que eu é que sou a professora?”» Se a citação era fiel, estamos mal — ou estão mal os alunos da referida professora. Esta é mais uma área problemática da língua portuguesa. Em frases negativas, alguns, muitos, falantes (que o meu preconceito [se fosse sociolinguista, certeza científica] logo estabelece como pertencendo a certo estrato social) não sabem onde encaixar certas partículas. E por ali ficam elas, ao deus-dará.

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