Conversão de unidades de medida


Não se convertem


      «Espremeu uma delas e saiu uma libra de sumo; o sabor era de mel.» É assim, sob o signo de S. Brandão, na Navigatio Sancti Brendani, que começo este texto para manifestar mais uma vez a minha estranheza por alguns tradutores deixarem para alguém — já adivinharam quem — a tarefa de converter unidades de medida que nos são estranhas. Que sentido faz, por exemplo, não converter graus Fahrenheit? Acho que até já vi a indicação em graus Réaumur! É claro que há técnicas de conversão facílimas, mas hoje em dia até alguns telemóveis têm conversores. A Internet tem conversores. Usem-nos.

Ortografia: «microespaço»

Os pseudoprefixos


      O leitor A. M. L. pergunta-me como se deve escrever: «micro-espaço» ou «microespaço». Bem, não o escreveu, mas quem sabe se não ponderou também a hipótese de se escrever «microspaço». Sim? O Acordo Ortográfico de 1945, agora na pré-reforma, estabelece que com o elemento micro- nunca se usa o hífen. O problema, contudo, é que a par de «microempresa», por exemplo, temos também dicionarizado e vai-se usando «microsfera»…
      Esta parte da língua não é propriamente um locus amoenus, um lugar ameno. A Base XVI, 1.º, b) do Acordo Ortográfico de 1990 estabelece que apenas se usa hífen «nas formações em que o prefixo ou pseudoprefixo termina na mesma vogal com que se inicia o segundo elemento: anti-ibérico, contra-almirante, infra-axilar, supra-auricular; arqui-irmandade, auto-observação, eletro-ótica, micro-onda, semi-interno». Assim, inequivocamente, microespaço.

Frases negativas

Partículas desconsagradas

Cruzei-me ontem na rua com duas mulheres, e uma delas ia contando: «Dizia ela: “Eu já não disse que eu é que sou a professora?”» Se a citação era fiel, estamos mal — ou estão mal os alunos da referida professora. Esta é mais uma área problemática da língua portuguesa. Em frases negativas, alguns, muitos, falantes (que o meu preconceito [se fosse sociolinguista, certeza científica] logo estabelece como pertencendo a certo estrato social) não sabem onde encaixar certas partículas. E por ali ficam elas, ao deus-dará.

«Volp»


Ei-lo


      O Assim Mesmo esteve ontem presente, por interposta pessoa, na palestra de Evanildo Bechara na Academia Brasileira de Letras. O leitor Paulo Araujo assistiu e pôde comprovar como aquele filólogo, responsável pela equipa que reviu o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, garantiu, «com muita ênfase, que todo o trabalho foi feito no estrito cumprimento da letra do Acordo e mais, onde ficou margem a dúvida, ou não está especificamente citado, ou não se enquadra nas regras, ainda assim valeu a tradição do Acordo de 1945, que o Brasil não adotou na época, mas agora, ironicamente, rende-se ao que ali foi estatuído. Portanto, ao que me parece, será aceito em Portugal, sem objeções».
      Como podemos ler no artigo do Estadão, enviado por Paulo Araujo, para o professor de Português e lexicógrafo da Academia Brasileira de Letras Sérgio Pachá, o vocabulário está a ser visto como um Messias. Para nós, será, suspeito, um D. Sebastião.

Principal Sousa

Próxima paragem

      Não ouvi, como sucedeu com Santo Agostinho, uma voz dizer-me «tolle, lege, tolle, lege!», mas foi o que fiz. Apanhei a folha A4 e pus-me a lê-la. Não tinha cabeçalho, mas era parte de um teste de Língua Portuguesa (12.º ano?). Uma das perguntas era porque se dava a D. José António de Meneses e Sousa Coutinho o nome de Principal Sousa. (Tão importante, suponho, do que saber porque a Ernesto Guevara se chamava Che…) O nome estava adormecido na memória e lera-o, decerto, no Felizmente Há Luar! de Sttau Monteiro. Mas porquê Principal Sousa foi uma pergunta que só não me deixou emudecido porque eu estava calado, como normalmente estão calados dois desconhecidos numa paragem de autocarro.
      A personagem pertencia, isso é certo, ao clero, que representava na Regência. E o termo eclesiástico «principal» designa o superior de uma comunidade religiosa. Será por isto? É o que se me afigura plausível. No caso, não só era principal, como estava entre os principais (outra acepção, esta no plural): pessoas importantes ou influentes numa dada sociedade. Sendo irmão de D. Rodrigo de Sousa Coutinho, 1.º conde de Linhares e ministro de D. João VI, e do conde do Funchal, Domingos de Sousa Coutinho, embaixador em Londres, que negociou a ajuda inglesa contra os Franceses, pertencia ao escol.


«Continente Negro»

Sem desculpa

      No dia 14 de Fevereiro de 2008, às 9.30, um locutor da NPR, um operador público de rádio nos Estados Unidos, afirmou que o presidente Bush estava no «dark continent». Uma hora mais tarde, o locutor pedia desculpa por ter usado a expressão. Dois dias depois, o próprio sítio da rádio na Internet referia-se ao caso, concluindo: «This was totally inappropriate and offensive, and we apologize for allowing such an antiquated and pejorative term to air.» Bem, inadequada ou não, usa-se. Ainda ontem, no Diário de Notícias, num texto assinado por Helena Tecedeiro sobre a visita do papa a África, se podia ler: «Bento XVI no continente negro». A meu ver, o Diário de Notícias devia era pedir desculpa por escrever incorrectamente. Tratando-se de um prosónimo, tem de se grafar com maiúscula inicial: Continente Negro.

«Sorte de gaiola»

Imagem: http://forcadosdemontemor.com/

Azar da sorte




      Pelo menos uma vez já aqui abordei o léxico da tauromaquia. Hoje é a vez de assinalar o uso da locução «sorte de gaiola», usada hoje na imprensa. Um elemento do Grupo de Forcados de Portalegre foi violentamente colhido por uma vaca, durante o treino do grupo no fim-de-semana, em Arronches, e faleceu ontem. «O jovem encontrava-se em estado muito grave desde que no sábado foi colhido por um touro. Francisco, há quatro anos naquele grupo de forcados, ensaiava uma pega em “sorte de gaiola” (tentativa de pegar a vaca mal esta saísse dos curros), quando sofreu o acidente e foi violentamente projectado contra a parede da Praça de Toiros» («Forcado de 25 anos morre depois de colhida», Diário de Notícias, 17.03.2009, p. 14).


Ensino de Português

Regresso ao trivium


      Portugal é o país da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico) com menos horas de língua materna (três horas por semana) segundo o presidente da Associação de Professores de Português, Paulo Feytor Pinto. Isto explica muita coisa. Explica quase tudo, na verdade. Acabo de ler no Diário de Notícias que esta associação «vai pedir hoje no Parlamento mais horas para o ensino da língua materna, sugerindo também o desdobramento das turmas nas aulas de gramática e produção escrita» («Mais português», Diário de Notícias, 17.03.2009, p. 14). Ainda regressamos ao trivium, o sistema medieval da organização dos conhecimentos, e não ficaríamos mal servidos: na Gramática estudavam-se os mecanismos da língua; na Dialéctica, os mecanismos do pensamento, da análise e da mensagem; na Retórica, estudava-se a arte de usar a linguagem para persuadir e instruir. É inacreditável, por exemplo, como as licenciaturas em Direito não têm uma cadeira de Retórica. Não sabem escrever, não sabem falar… «Peço justiça.»


Arquivo do blogue