«Volp»


Ei-lo


      O Assim Mesmo esteve ontem presente, por interposta pessoa, na palestra de Evanildo Bechara na Academia Brasileira de Letras. O leitor Paulo Araujo assistiu e pôde comprovar como aquele filólogo, responsável pela equipa que reviu o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, garantiu, «com muita ênfase, que todo o trabalho foi feito no estrito cumprimento da letra do Acordo e mais, onde ficou margem a dúvida, ou não está especificamente citado, ou não se enquadra nas regras, ainda assim valeu a tradição do Acordo de 1945, que o Brasil não adotou na época, mas agora, ironicamente, rende-se ao que ali foi estatuído. Portanto, ao que me parece, será aceito em Portugal, sem objeções».
      Como podemos ler no artigo do Estadão, enviado por Paulo Araujo, para o professor de Português e lexicógrafo da Academia Brasileira de Letras Sérgio Pachá, o vocabulário está a ser visto como um Messias. Para nós, será, suspeito, um D. Sebastião.

Principal Sousa

Próxima paragem

      Não ouvi, como sucedeu com Santo Agostinho, uma voz dizer-me «tolle, lege, tolle, lege!», mas foi o que fiz. Apanhei a folha A4 e pus-me a lê-la. Não tinha cabeçalho, mas era parte de um teste de Língua Portuguesa (12.º ano?). Uma das perguntas era porque se dava a D. José António de Meneses e Sousa Coutinho o nome de Principal Sousa. (Tão importante, suponho, do que saber porque a Ernesto Guevara se chamava Che…) O nome estava adormecido na memória e lera-o, decerto, no Felizmente Há Luar! de Sttau Monteiro. Mas porquê Principal Sousa foi uma pergunta que só não me deixou emudecido porque eu estava calado, como normalmente estão calados dois desconhecidos numa paragem de autocarro.
      A personagem pertencia, isso é certo, ao clero, que representava na Regência. E o termo eclesiástico «principal» designa o superior de uma comunidade religiosa. Será por isto? É o que se me afigura plausível. No caso, não só era principal, como estava entre os principais (outra acepção, esta no plural): pessoas importantes ou influentes numa dada sociedade. Sendo irmão de D. Rodrigo de Sousa Coutinho, 1.º conde de Linhares e ministro de D. João VI, e do conde do Funchal, Domingos de Sousa Coutinho, embaixador em Londres, que negociou a ajuda inglesa contra os Franceses, pertencia ao escol.


«Continente Negro»

Sem desculpa

      No dia 14 de Fevereiro de 2008, às 9.30, um locutor da NPR, um operador público de rádio nos Estados Unidos, afirmou que o presidente Bush estava no «dark continent». Uma hora mais tarde, o locutor pedia desculpa por ter usado a expressão. Dois dias depois, o próprio sítio da rádio na Internet referia-se ao caso, concluindo: «This was totally inappropriate and offensive, and we apologize for allowing such an antiquated and pejorative term to air.» Bem, inadequada ou não, usa-se. Ainda ontem, no Diário de Notícias, num texto assinado por Helena Tecedeiro sobre a visita do papa a África, se podia ler: «Bento XVI no continente negro». A meu ver, o Diário de Notícias devia era pedir desculpa por escrever incorrectamente. Tratando-se de um prosónimo, tem de se grafar com maiúscula inicial: Continente Negro.

«Sorte de gaiola»

Imagem: http://forcadosdemontemor.com/

Azar da sorte




      Pelo menos uma vez já aqui abordei o léxico da tauromaquia. Hoje é a vez de assinalar o uso da locução «sorte de gaiola», usada hoje na imprensa. Um elemento do Grupo de Forcados de Portalegre foi violentamente colhido por uma vaca, durante o treino do grupo no fim-de-semana, em Arronches, e faleceu ontem. «O jovem encontrava-se em estado muito grave desde que no sábado foi colhido por um touro. Francisco, há quatro anos naquele grupo de forcados, ensaiava uma pega em “sorte de gaiola” (tentativa de pegar a vaca mal esta saísse dos curros), quando sofreu o acidente e foi violentamente projectado contra a parede da Praça de Toiros» («Forcado de 25 anos morre depois de colhida», Diário de Notícias, 17.03.2009, p. 14).


Ensino de Português

Regresso ao trivium


      Portugal é o país da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico) com menos horas de língua materna (três horas por semana) segundo o presidente da Associação de Professores de Português, Paulo Feytor Pinto. Isto explica muita coisa. Explica quase tudo, na verdade. Acabo de ler no Diário de Notícias que esta associação «vai pedir hoje no Parlamento mais horas para o ensino da língua materna, sugerindo também o desdobramento das turmas nas aulas de gramática e produção escrita» («Mais português», Diário de Notícias, 17.03.2009, p. 14). Ainda regressamos ao trivium, o sistema medieval da organização dos conhecimentos, e não ficaríamos mal servidos: na Gramática estudavam-se os mecanismos da língua; na Dialéctica, os mecanismos do pensamento, da análise e da mensagem; na Retórica, estudava-se a arte de usar a linguagem para persuadir e instruir. É inacreditável, por exemplo, como as licenciaturas em Direito não têm uma cadeira de Retórica. Não sabem escrever, não sabem falar… «Peço justiça.»


Plural de «córtex»

Cérebro dividido

aqui referi o plural de palavras como «tórax» e a solução dada pelo Acordo Ortográfico de 1990. Contudo, depois ter abordado aqui a questão do plural da palavra «dúplex» (e aludi mesmo à palavra «córtex»), fiquei ainda mais convencido de que o desentendimento dos linguistas é insanável. Ontem revi um texto em que se falava de alguém «a quem se cortaram as conexões entre os córtex esquerdo e direito». Neste caso, a solução não podia ser outra: a forma culta do plural de córtex seria córtices. O texto do novo acordo ortográfico não veio, infelizmente, preconizar soluções mais lógicas neste campo.
Os anglo-saxónicos também não se entendem completamente: uns, talvez a maioria, afirmam que «the plural of cortex is cortices»; outros, que é cortices ou cortexes. Só nos resta tomar uns ataraxes ou uns xanaxes e esperar que nem os componentes nem os plurais nos façam mal.

Léxico: «mecatrónica»


Esta aparece

«Frederico “tropeçou” por acaso no curso profissional de mecatrónica, mas o colega Bruno assume ter escolhido a área porque lhe garante emprego. Juntos, formam uma das duas equipas que disputam no Campeonato Nacional das Profissões a prova de mecatrónica — profissão pluritecnológica que implica o domínio de áreas como electricidade, pneumática, electrónica e mecânica — que, num modelo também pouco habitual nos campeonatos, será disputada em equipa» («Prova de mecatrónica é novidade», Diário de Notícias, 9.03.2009, p. 34). A definição é ilustrada pela imagem acima, que pertence ao sítio da Universidade de Évora e que, concretamente, aparece na área da licenciatura em Engenharia Mecatrónica. O termo «mecatrónica» vem do inglês mechatronics (de Mechanical and Electronics [Engineering]). Já aparece registado em alguns dicionários.

«Mundividência» ‘vs.’ «mundivivência»

Dicionários mundificados


   Quantas palavras não se usam diariamente sem estarem registadas em dicionários! «Mundivivência» é uma delas. Tanto quanto sei, nenhum dicionário a regista. Há quem creia mesmo, ignorando os elementos de composição de ambos os vocábulos, que está em vez de «mundividência». A mundividência ou mundivisão (e em espanhol também se diz mundivisión) é a visão, a concepção, que uma determinada pessoa tem do mundo. A mundivivência é a vivência do mundo, a experiência que se tem do mundo.



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