Plural de «córtex»

Cérebro dividido

aqui referi o plural de palavras como «tórax» e a solução dada pelo Acordo Ortográfico de 1990. Contudo, depois ter abordado aqui a questão do plural da palavra «dúplex» (e aludi mesmo à palavra «córtex»), fiquei ainda mais convencido de que o desentendimento dos linguistas é insanável. Ontem revi um texto em que se falava de alguém «a quem se cortaram as conexões entre os córtex esquerdo e direito». Neste caso, a solução não podia ser outra: a forma culta do plural de córtex seria córtices. O texto do novo acordo ortográfico não veio, infelizmente, preconizar soluções mais lógicas neste campo.
Os anglo-saxónicos também não se entendem completamente: uns, talvez a maioria, afirmam que «the plural of cortex is cortices»; outros, que é cortices ou cortexes. Só nos resta tomar uns ataraxes ou uns xanaxes e esperar que nem os componentes nem os plurais nos façam mal.

Léxico: «mecatrónica»


Esta aparece

«Frederico “tropeçou” por acaso no curso profissional de mecatrónica, mas o colega Bruno assume ter escolhido a área porque lhe garante emprego. Juntos, formam uma das duas equipas que disputam no Campeonato Nacional das Profissões a prova de mecatrónica — profissão pluritecnológica que implica o domínio de áreas como electricidade, pneumática, electrónica e mecânica — que, num modelo também pouco habitual nos campeonatos, será disputada em equipa» («Prova de mecatrónica é novidade», Diário de Notícias, 9.03.2009, p. 34). A definição é ilustrada pela imagem acima, que pertence ao sítio da Universidade de Évora e que, concretamente, aparece na área da licenciatura em Engenharia Mecatrónica. O termo «mecatrónica» vem do inglês mechatronics (de Mechanical and Electronics [Engineering]). Já aparece registado em alguns dicionários.

«Mundividência» ‘vs.’ «mundivivência»

Dicionários mundificados


   Quantas palavras não se usam diariamente sem estarem registadas em dicionários! «Mundivivência» é uma delas. Tanto quanto sei, nenhum dicionário a regista. Há quem creia mesmo, ignorando os elementos de composição de ambos os vocábulos, que está em vez de «mundividência». A mundividência ou mundivisão (e em espanhol também se diz mundivisión) é a visão, a concepção, que uma determinada pessoa tem do mundo. A mundivivência é a vivência do mundo, a experiência que se tem do mundo.



Léxico: «chancas»

Imagem: in Público/P2, 6.03.2009, p. 2

Muito teológico

Pouca gente já conhecerá o termo (o significado) «chancas», principalmente porque o próprio objecto (o referente) só se encontra actualmente em museus. Eu próprio nunca vi umas chancas na minha vida, excepto em imagens. Lembro-me é de a minha mãe usar a expressão «entrar de chancas». As chancas são uma espécie de calçado com base de madeira, pelo que quem andar assim calçado não entrará de mansinho onde quer que seja. O vocábulo «chanca» vem do latim planca, «tábua», que também originou «prancha». A tábua de salvação teológica de Tertuliano era uma planca: planca post naufragium. O naufrágio, entenda-se, que é a perda da graça. Há duas tábuas de salvação: a primeira é o baptismo e a segunda, a penitência.

«Pessoa humana»

Qual pleonasmo! Asno

      Não faltam, por essa lusofonia afora, ignorantes que achincalham quem usa a expressão «pessoa humana». Trata-se de um conceito técnico-jurídico largamente usado noutras áreas, como na religião e na filosofia. Qualquer participante dos cursilhos de Cristandade a conhece. No fundo, o conceito serve para distinguir entre pessoa física (eu, o leitor) e pessoa jurídica (uma empresa), ambas sujeitos de direito. Não faltam exemplos de formas de dizer peculiares de certas áreas do saber que extravasam do seu âmbito original de uso.

Plural de «duplex»

Zona pantanosa

«Há duplexes por 15 mil euros, T3 por dez mil» («Venda de casa sem papéis na origem de confrontos», Licínio Lima, Diário de Notícias, 10.03.2009, p. 19). Ora cá está um caso de dupla grafia: dúplex e duplex. Qual dupla. Tripla grafia! Duplex, dúplex, dúplice. Claro que esta última não se usa para referir o apartamento de dois pisos. Já aqui abordei uma vez o plural das palavras terminadas em -x. Não é uma questão pacífica. Celso Cunha e Lindley Cintra asseveram: «Como os paroxítonos terminados em -s, os poucos substantivos terminados em -x são invariáveis: o tórax — os tórax, o ónix — os ónix» (Nova Gramática do Português Contemporâneo, 3.ª edição, 1986, p. 185). Os dicionários, porém, seja para as formas paroxítonas (córtex, clímax…), seja para as formas oxítonas (telex, fax…), apresentam uma lição diferente. A forma culta do plural de duplex seria dúplices, mas ninguém a usa.

«Meio», advérbio

E a gramática?

Há muita gente (com os tradutores à cabeça), na ignorância, a seguir a lição camoniana: «Huns caem meios mortos…» (Os Lusíadas, III, 50). Ontem foi a vez da tradutora Mafalda Abreu, num trabalho para a Moviola: «Caso não tenhas reparado, estes tipos são meios doidos» (O Resgate do Papá, Disney Channel). É claro que muitos professores também ignoram as regras da gramática — e ninguém pode dar o que não tem.

«Offshore» e «paraíso fiscal»

Porque não?

«O Parlamento Europeu (PE) aprovou ontem, em Estrasburgo, um relatório da deputada socialista Elisa Ferreira sobre o plano de relançamento da economia europeia, com uma referência à necessidade de combater os offshores, ou paraísos fiscais» («PE aprova relatório de Elisa Ferreira sobre ‘offshores’», Diário de Notícias, 12.03.2009, p. 15). Essa é que era uma boa solução: os jornalistas passarem a escrever «paraíso fiscal» em vez de offshore. Tanto mais que alguns escrevem a palavra incorrectamente, com hífen. Espantoso mesmo é o Livro de Estilo do Público sugerir esta grafia.

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