Ortografia: «termossolar»

Imagem: http://www.aquasol.com.br/TSnovo.htm

Mais brio


Estão a ver a palavra «termossifão» na imagem? Parabéns, vêem. Agora a sério. Na edição de hoje do jornal económico Oje lia-se o seguinte título: «ACS totaliza investimentos de 2.200 milhões em eólica e termosolar». O que me pergunto é se esta gente — jornalistas, editores, revisor, paginador — não tem pelo menos curiosidade em saber como se escrevem as palavras. Acaso não aprenderam, como eu, na escola primária que um s isolado vale por z? Lidam com as palavras como se se tratasse de pedras. Termorresistente, termossifão, termossolar…

«Porque» e «por que»

Também dormita

O leitor M. C. pergunta-me se a seguinte frase de Ferreira Fernandes está correcta: «Um das razões porque gosto de futebol é que chuta a semântica para ela ser discutida em lugares impensáveis» («Mais uma discussão da treta», Diário de Notícias, 10.03.2009, p. 52). «E não me refiro», acrescenta o leitor, «à falta de concordância.» Bem me parecia que não iria incomodar-me pela falta de concordância… Tem, contudo, razão: Ferreira Fernandes deveria ter escrito «uma das razões por que», o que equivale a «uma das razões pelas quais». Que, na frase, é um pronome relativo. Substitui o nome antecedente «razões». Este continua a ser um erro bastante frequente.

Iliteracia


Não lhes falta chá

Reparem na apresentação do produto: «Infusão de plantas em saquetas individuais de 1,5 g gravadas a 1 cor. Embalagem individual de 10 saquetas.» Vamos fingir que infusão não é a operação que consiste em deixar macerar plantas ou outra substância num líquido a ferver, de forma a extrair-lhe os princípios alimentícios ou medicamentosos. No modo de preparação, lê-se: «Para garantir uma boa extracção dos activos e assim obter uma infusão de aroma intenso e paladar agradável, deve prepará-la sempre com água fervente.» Espera lá: mas a infusão não estava já preparada na saqueta?
Quem é que escreve estas parvoíces? Na Coutinho & Alexandre fariam bem em consultar um dicionário que lhes infundisse algo de bom.

Nova edição do «Volp»


Dia de São José

O leitor Paulo Araujo, a quem fico muito grato, acabou de me enviar o texto acima, publicado hoje no jornal O Estado de S. Paulo. As notícias, como podem ver, não podiam ser melhores: dia 19 a 5.ª edição do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (Volp) será lançado. O volume terá 349 737 palavras com as respectivas classificações gramaticais. Em relação a certos vocábulos, a Comissão de Lexicografia da Academia Brasileira de Letras e principal responsável do Volp teve de estabelecer critérios no vazio deixado pelo Acordo Ortográfico de 1990. «Outro caso omisso no acordo foi a utilização de “não” e “quase” como prefixos — como não fumante ou quase irmão. Preferiu-se a forma sem hífen», escreve o autor do texto, Alexandre Gonçalves, que termina o texto afirmando: «A reacção portuguesa será conhecida na primeira quinzena de Abril, quando o Volp chegará ao país.» Este Volp será, não há qualquer dúvida, a base do futuro e tão necessário vocabulário ortográfico comum exigido pelo acordo.

«Stande»?

Não me convence

Até já me esquecia que o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, da Academia das Ciências de Lisboa, regista e recomenda «stande». ‘Stá bem, mas, já agora, não era melhor «estande»? «Não se trata de nenhuma espécie de adoração de um novo carro, nem nenhum sinal de espanto perante a sua beleza. Trata-se, apenas, de dois vendedores que fazem exercício físico antes da abertura do stande, em Banguecoque. Com a crise, é preciso muita força para vender...» («Tailândia», Global Notícias, 10.03.2009, p. 2).

Estrangeirismos e moda

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Enfia este




      Se lermos uma peça jornalística sobre moda, tropeçamos em cada linha com inúmeros estrangeirismos. Valha este exemplo: «Os vestidos de cocktail expõem a pele nos sítios certos devido ao efeito de cut-out. Sapatos de salto alto, pumps, loafers (sapato clássico raso masculino) e botas sem fecho» («Peças-‘top’ de Hilfiger inspiram moda acessível», Catarina Vasques Rito, Diário de Notícias, 7.03.2009, p. 58). Contudo, antes de chegarmos a esta frase ainda topámos pelo caminho com passerelles, designer (mas a jornalista não o acha insubstituível, pois também usa «estilista»), camelhair e top, e depois desta frase ainda lemos bomber, trench-coats e pied-de-poule. Mas não nos podemos fiar: podem surgir termos que não estão em itálico e deviam estar. Não acontece no texto que estou a citar, mas noutros. Por exemplo, neste: «Ciente de que as calças chino permanecem um símbolo histórico do design americano, com lugar marcado no guarda-roupa dos fãs, o criador Tommy Hilfiger reinventou-as para a sua nova colecção Hilfiger Denim Chino, numa aposta de simplicidade e conforto» («Calças em exclusivo», Notícias Sábado, 12.02.2009, p. 59). Por parecer uma palavra portuguesa, passou a ser uma palavra portuguesa: não há itálico nem aspas. Outro exemplo: «Por essa altura, já havia contra-anúncios em que um cowboy, chapéu Stetson na cabeça, dizia para outro cowboy: “Bob, tenho um enfisema”» («Drogados em dívidas», Ferreira Fernandes, Notícias Sábado, 12.02.2009, p. 4). O termo stetson designa um tipo de chapéu, popularizado pelos cowboys, que é fabricado tanto pela empresa Stetson, agora com sede em Nova Iorque, mas no tempo de John B. Stetson, o inventor do chapéu, com sede no Missuri, como por qualquer chapelaria em S. João da Madeira. Não é, pois, uma marca.

Grafia dos antropónimos

In nomine status…

É só a mais recente intromissão do Estado, cada vez mais omnipotente, pese embora a aparência do contrário, na vida privada dos cidadãos: ao requerer o cartão de cidadão, uma pessoa pode ter a desagradável surpresa de ver que passou, por exemplo, de «Manuel» para «Manoel» ou de «Lurdes» para «Lourdes» — «para retomarem a grafia utilizada no ano de nascimento, disse, esta manhã [ontem], fonte ligada à emissão do novo documento», segundo o Jornal de Notícias. A provar que o Estado não é autoritário, há duas hipóteses para os cidadãos que não concordam: «“Ou aceitam a nova grafia do nome e o caso está resolvido ou tem que pedir um novo averbamento do nome e, depois de averbado, têm que solicitar a emissão de uma novo cartão, pagando mais 12 euros”, referiu a mesma fonte» («Cartão de Cidadão troca nomes para obedecer à grafia do ano de nascimento», 8.03.2009).

Artigo em nome de países

«Portugal empatado com Chipre»

Olhamos para o título e pensamos: «Finalmente, aprenderam.» Mas não, pois no corpo da notícia lê-se: «Frederico Gil começou o dia a ganhar, mas Rui Machado não conseguiu superar Marcos Baghdatis e a primeira eliminatória do grupo dois da zona Europa/África acabou empatada com uma vitória para Portugal e outra para o Chipre» («Portugal empatado com Chipre», Diário de Notícias, 7.03.2009, p. 15). «O Chipre»? O tanas!
Recentemente, Miguel R. M. lembrou e muito bem no seu Enxuto: «Chipre é um país que sempre foi designado em português sem artigo definido (como Marrocos ou Timor). Há uns anos, mais precisamente por volta de 2004, data da adesão de Chipre à União Europeia, passou a aparecer mais vezes na imprensa portuguesa o nome desse país mediterrânico. Um dia ouvi um locutor de televisão dizer “o Chipre” e pensei “onde é que terão ido buscar este artigo definido?” Pois bem, nestes anos tem-se repetido o aparecimento deste artigo espúrio. Porquê? Por imitação acrítica, como é óbvio. Apareceu uma vez, duas, três e agora está a generalizar-se, sabe-se lá porquê.»

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