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Vai uma linha?

Da Colômbia não vem só branca e cavalo. Da Medellín de má memória, e concretamente da Universidade de Antioquia, chega-nos a Mutatis Mutandis, Revista Latino-Americana de Tradução. Ver aqui.

Sobre «dérbi»


Para começar


      João Querido Manha, na pele de consultor do Ciberdúvidas, afirma que a palavra «derby» ou «dérbi» se aplica «ao futebol para determinar um jogo entre duas equipas da mesma cidade. Entre duas equipas da mesma cidade, e não entre duas equipas de cidades diferentes, como por erro se lê e ouve por aí...» Prefiro fiar-me no Cambridge Advanced Learner’s Dictionary: «Derby: a sports competition, especially a game of football, between two teams from the same city or area.» Logo, é correcto escrever que houve um dérbi entre o Sp. de Braga e o Vitória de Guimarães. Por aqui, então, o desportivo vimaranense não errou. Mas «derbie»? É alguma tentativa frustrada de aportuguesar a palavra? Já existe: dérbi. A imprensa portuguesa divide-se entre a que prefere dérbi e a que opta por derby. «Luisão em risco de falhar o dérbi com Sporting» (Bruno Pires, Diário de Notícias, 3.09.2008, p. 41). «Nuno Gomes sem medo de perder o derby» (Paulo Curado, Público, 26.09.2008, p. 32).

Tradução: «rentable»

Visto assim…

      Imagino que traduzir o francês rentable por «rentável» é automático, mas devemos evitar fazê-lo. Se deriva de um verbo em -er, render, como é que podia ser «rentável»? É confundir as coisas. Os adjectivos em -ável são próprios de verbos em -ar, que pertencem à 1.ª conjugação: arável, arar; desejável, desejar; evitável, evitar; fiável, fiar; imputável, imputar; louvável, louvar; manejável, manejar; negociável, negociar; prestável, prestar; questionável, questionar; realizável, realizar; sanável, sanar; tolerável, tolerar; utilizável, utilizar; venerável, venerar; etc.

Tradução: «milliard»

Ena, tanto


      «Cette même année encore, pour éviter à ses banques la faillite qui les menace, l’État japonais y injecte l’équivalent de 80 milliards de dollars, à charge pour les grands établissements, une fois restructurés et fusionnés, de rembourser les sommes qu’ils auront reçues, ce qu’ils feront», escreveu Jacques Attali. O tradutor achou que era coisa pouca aqueles 80 mil milhões de dólares — e traduziu por «80 biliões de dólares».

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I have a worm

Não tenho nada. Tenho é aqui a indicação de um texto útil a tradutores e revisores: «Os animais nos idiomatismos: interface inglês-português», de Paula Christina de Souza Falcão e Claudia Maria Xatara, do Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas da Universidade Estadual Paulista (IBILCE/UNESP).

Idiomatismos

Untar as mãos

«Elle est l’occasion de découvrir que le système est largement corrompu, rémunérant grassement ceux qui le contrôlent et le jugent, et distribuant des revenus indécents aux responsables de ces desastres», escreveu Jacques Attali na página 15 do seu La crise, et après? (Paris: Fayard, 2008). É interessante comprovar como os termos «unto», «untar» e outros correlatos andam em várias línguas associados à ideia de corrupção e aos ganhos ilícitos. Em francês, graisser la patte à quelqu’un está atestado desde o século XVII, e, mais antigo e com o mesmo significado, oindre la paume, registado logo no século XIV.

«Descobertas» e «Renascença»

O estrangeirismo simpático

Em Abril de 1930, Agostinho da Silva assinou no jornal Princípio, editado no Porto, um texto intitulado «Paladinos da linguagem». Eis um excerto: «Quanto ao vocabulário, desculpai-me, mas creio que também errais; o galicismo não é inimigo da língua, mas seu amigo, e precioso; ele vem duma civilização superior, duma civilização que não vegeta sobre as suas recordações, trazer-nos o seu auxílio generoso, todas as vezes que os Sousas e os Barros não nos deixaram o termo exacto que exprima as novas ideias: é uma coisa extremamente simpática o estrangeirismo e vós transformaste-lo num monstro.» A primeira página da publicação indica que se trata de uma «edição da Renascença Portuguesa».
Tudo isto a propósito de António Cartaxo ter acabado de dizer na Antena 1 que Henry Purcell (1659―1695) foi um compositor inglês da «Renascença». Ora, os nossos antepassados deixaram-nos «o termo exacto» que exprime a ideia: Renascimento. E quem fala em Renascença (renassaince) não deixará de falar de Descobertas (découvertes). Acaso não temos Descobrimentos? Mas ainda recentemente um autor me dizia que «sabe, há em História, como em outras ciências, certos maneirismos lexicais, ou seja, vocábulos que trazem intrínsecos conceitos específicos cuja interpretação fora da História é diferente». Pois, pois…

«Chocolatier»?


Não andamos a perder nada


      Uma leitora brasileira, professora de Inglês, pediu-me uma vez que abordasse com mais frequência o uso de estrangeirismos na língua portuguesa. Mas isso foi há dois anos. Entretanto, já muitas vezes tratei aqui da matéria. Habitualmente, é o uso desnecessário, quando não incorrecto, inadequado, de estrangeirismos que suscita a minha intervenção. É o caso de hoje. A propósito do Festival do Chocolate de Óbidos, lê-se na secção «Boa vida» da revista Notícias Sábado de 21 de Fevereiro: «Vai haver esculturas em chocolate, concursos de chocolatier do ano, montras de chocolate e concurso internacional de receitas de chocolate» (p. 52).
      Agora é muito simples: confrontamos os verbetes «chocolatier» de um dicionário de francês e «chocolateiro» de um dicionário de português. «Chocolatier: personne qui fabrique ou qui vend du chocolat. Des parfums de vanille montant du sous-sol d’un chocolatier (ZOLA, Nana, 1880, p. 1260)» (in TLFI). «Chocolateiro: que ou aquele que fabrica ou vende chocolate (‘produto alimentar’)» (in Dicionário Houaiss). Ora digam-me lá se não é por pretensão que muitas vezes se usam estrangeirismos.


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