«Assar» e «cozer»


Ainda se queima

A primeira coisa a surpreender-nos é logo o nome do programa: Jamie at Home. Para os responsáveis da Sic Mulher, estranhamente, parece ser intraduzível. Não é deste aspecto, contudo, que quero falar. Não diria nada se não fosse recorrente. Ainda ontem vi que o tradutor (Alexandre Pereira, da Dialectus) usou mais de uma vez o verbo assar (e até pré-assar) para a massa de uma quiche. Embora os verbos assar e cozer não sejam, etimológica e semanticamente, muito diferentes, é indesmentível que para bolo, para pão e para massa reservamos o termo cozer — e um tradutor tem obrigação de saber isto.

Léxico: «ptose»

Imagem: http://www.scielo.br/


Quedas médicas


      É extraordinário o poder da linguagem. Hosmany Ramos, condenado a quase 30 anos de prisão por alegadamente ter assassinado e traficado droga, e agora a monte, foi entrevistado no Brasil por José Pedro Castanheira para o Expresso. O interesse para nós reside no facto de este ex-cirurgião plástico, outrora assistente de Ivo Pitanguy, aparecer ligado ao desaparecimento, em 1981, do pianista clássico português Sérgio Varella Cid. Convidado a dizer como conheceu o pianista, respondeu: «Foi lá [em São Paulo] que conheci o Sérgio, numa garagem da Mercedes. Ele tinha uma ptose palpebral num dos lados (não me lembro qual) e interessou-se para que eu a corrigisse» («“Não matei o Varella Cid. E até pode ser que esteja vivo!”», Expresso, 24.01.2009, p. 26). E é isto: depois de cumprir 27 anos de cadeia, ter fugido mais de dez vezes e andar agora a monte, a formação médica assoma aqui ainda através da terminologia. A Medicina usa o termo «ptose», que significa «queda», para caracterizar diversas situações em que um órgão ou parte do corpo humano se localiza anormalmente numa posição inferior. À ptose palpebral também se dá o nome de blefaroptose.

Léxico: «sínico»

Mas faz


      «Um pouco à maneira de Toynbee, Huntington dividia-nos por civilizações: Ocidental (incluindo os Estados Unidos e a Europa), Latino-Americana, Islâmica, Ortodoxa (com a Rússia como núcleo), a Hindu, a Japonesa e a Sínica (incluindo China, Coreia e Vietname), talvez houvesse uma civilização africana — que iriam de vez em quando guerrear-se umas às outras» («Samuel Huntington», obituário escrito por José Cutileiro, Expresso, 24.01.2009, p. 39).
      Um cínico dirá que «sínico» não faz falta, mas faz. Sobretudo a forma reduzida, sino, faz falta e precisa de ser conhecida, porque normalmente, na formação dos adjectivos pátrios compostos, o primeiro elemento adquire uma forma reduzida (e invariável) derivada da origem erudita da palavra: afro-americano, anglo-americano, assiro-babilónico, austro-húngaro, euro-africano, greco-romano, hispano-americano, nipo-russo, sino-russo, siro-arábico… É que já um dia li numa tradução «chino-russa»...

Léxico: «corujeiro»


Alguém saberá


      Em alguns dicionários, o verbete «corujeiro» remete para «corujeira», e esta significa «pequena povoação, em lugar fragoso, própria para criação de corujas» (in Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora). No concelho da Guarda, pegado à Cova da Beira, há uma povoação chamada Corujeira. Não sei de onde virá o vocábulo «corujeiro» a designar os negociantes de fruta, mas fica registado.

Verbo «haver»


Queres festa


      Todos os dias podia referir mais um atropelo ao verbo haver, mas não me apetece. «Olá, sou o Robby. Sou o pai da Miley e do Jackson. Tenho uns filhos fantásticos, embora gostasse que ouvissem o que eu digo mais vezes.» Assim se apresenta esta personagem da série Hannah Montana, que passa no Disney Channel. No episódio de ontem, a personagem disse à filha: «Acalma-te! Vão haver mais festas.» Oxalá os jovens telespectadores também não o ouçam. O tradutor, é claro, ignora regras gramaticais básicas, e o actor que fez a dobragem não quer saber destas minudências.

Superlativo absoluto sintético de «sério»


Não temo hiatos


      Há, não posso desmentir, escritores seriíssimos a escreverem «seríssimo», mas eu é que não me convenço. O superlativo absoluto sintético obtém-se acrescentando o sufixo derivacional -íssimo (no caso, pois há outros), que nos parece tão intrinsecamente português, mas que só surgiu na língua comum no século XVI, ao adjectivo na forma positiva, suprimindo-se, por vezes, a vogal temática. Assim, será séri(o)+íssimo, seriíssimo. Não sigo, contudo, cegamente a regra, pois o superlativo de «sumário» seria sumariíssimo, o que eu jamais diria. Mas será, vendo bem, talvez o único caso em que não sigo a regra, discordando da observação de Celso Cunha e Lindley Cintra (mas qual deles escreveu esta observação?) na Nova Gramática do Português Contemporâneo: «Em lugar das formas superlativas seriíssimo, necessariíssimo e outras semelhantes, a língua actual prefere seríssimo, necessaríssimo, com um só i» (3.ª ed., Lisboa: Edições João Sá da Costa, p. 260). Será então seriíssimo, tal como cheiíssimo, feiíssimo, friíssimo, necessariíssimo, precariíssimo, variíssimo… É como diz Evanildo Bechara: «Ainda que escritores usem formas com um só i (cheíssimo, cheinho, feíssimo, seríssimo, etc.), a língua padrão insiste no atendimento à manutenção dos dois ii» (Moderna Gramática Portuguesa. 37.ª ed. Rio de Janeiro, 2002, p. 151).

Léxico: «testamento vital»


É vital perceber


      Ainda recentemente a locução inglesa living will era objecto de debate em fóruns de tradução, e as mais desvairadas sugestões estiveram sempre longe da locução que entrou agora na ordem do dia: testamento vital. «Numa altura em que se começa a debater em Portugal o testamento vital — a possibilidade de a pessoa saudável decidir se quer receber tratamentos de saúde se ficar numa situação de saúde extrema —, Alexandra reclama que também se discuta o destino dos mais novos» («“Tenho o corpo da minha filha comigo”», Catarina Gomes, Público, 22.02.2009, p. 3). O testamento vital também é conhecido como testamento biológico, opção menos colada ao inglês e talvez mais sugestiva. Embora, é verdade, tenhamos também órgãos vitais. Em francês diz-se testament biologique ou directives de fin de vie. Em italiano, testamento biologico. A verdade, porém, é que, por ser algo novo, a terminologia ainda não se consolidou. Brevemente analisarei aqui os termos «eutanásia», «ortotanásia», «distanásia» e «mistanásia».

Léxico: «cerebrovascular»

Desta vez, acertaram

A propósito da morte da italiana Eluana Englaro, o Público de domingo publicou algumas peças sobre a eutanásia. Numa delas, «O que aconteceria se Eluana Englaro fosse portuguesa?», assinada por Alexandra Campos e Catarina Gomes, pode ler-se: «Se estivesse nessa situação, João Alcântara, coordenador da Unidade Cerebrovascular do Centro Hospitalar de Lisboa Central, não tem dúvidas: “Gostava que me deixassem morrer.”» Cá está: cerebrovascular. Assim se deve escrever, e não vascular cerebral. Parece que estamos a copiar a maneira anglo-saxónica de o dizer, mas não. Ver aqui também.

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