Gentílicos depreciativos

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É só adaptar?


      O príncipe Harry de Inglaterra fez outra vez disparate, e agora tem de frequentar um curso de antixenofobia das Forças Armadas britânicas. Na última Pública lê-se: «A decisão surgiu depois de Harry se ter referido a um colega paquistanês como “paqui”, comentário xenófobo que foi imediatamente reprovado pelo exército inglês» («Princípe na escola», 22.02.2009, p. 6). Bem, não foi bem «paqui», mas «Paki», porque se trata de uma adaptação. «Our little Paki friend», terá dito o príncipe. Para as traduções, decerto que precisamos de termos correspondentes, e nem sempre os temos. Já aqui lembrei o caso de «Jap». Recentemente, um leitor perguntou-me como traduzir «spic» e «whitey». Não é fácil, pois esses termos depreciativos do inglês decorrem de uma realidade social que não é a nossa. Mas temos correspondente para «nigger», por exemplo. Na verdade, até temos um termo meio jocoso, meio depreciativo para designar um paquistanês, ou pelo menos um certo paquistanês: kefrô. Em rigor, pelo jogo linguístico subjacente, é intraduzível para inglês. Como intraduzível é o inglês «Paki».

Léxico contrastivo: «porta-trecos»

Porta-trecos ou porta-objectos sob um banco da frente


As nossas diferenças

      «Os primeiros sinais da renovação são sentidos quando se entra no sedã. Não lembra em nada o modelo que ainda hoje é comercializado. Há mais conforto e vários porta-trecos, resultado de pesquisa da montadora junto aos compradores, que se queixavam justamente disso» («Vectra, nasce a próxima edição do sedã», Antonio Puga, Jornal do Brasil/Carro e Moto, 22.02.2009, p. V5). Para nós, Portugueses, «treco» é apenas mal-estar, chilique, e ao porta-trecos dos Brasileiros chamamos porta-objectos. E no sótão guardamos os tarecos.

Tradução: «snags in the river»

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Aplanar caminho


      O leitor M. L. quer saber como traduzir o segmento assinalado na frase a seguir: «Good teachers put snags in the river of children passing by, and over the years, they redirect hundreds of lives.» Snag ou sawyer é uma árvore ou parte de árvore à superfície de um curso de água, permitindo que animais e até mesmo pessoas o atravessem, ao mesmo tempo que serve de abrigo para os peixes. Assim, traduziria, tentando manter o sentido metafórico, da seguinte maneira: «Os bons professores põem alpondras no rio para os alunos passarem, e, ao longo dos anos, dão um novo rumo a centenas de vidas.»


Palavras oxítonas


Post aberto a Belmiro de Azevedo

Os hipermercados também são responsáveis pela difusão de muitos erros ortográficos. É sabido que neles não se pode comprar peru, mas perú. E quem diz peru diz caju. Como vêem na imagem, o Continente comercializa caju — mas com acento. O acento deve ser porque é caju brasileiro (e eu até prefiro o indiano). Bem, caro Eng. Belmiro de Azevedo, onde está essa responsabilidade social?
É caju que se escreve. A regra, tal como está consignada na Base XV do Acordo Ortográfico de 1945, estabelece: «Quando as vogais tónicas i e u estão precedidas de ditongo, mas pertencem a palavras oxítonas e são finais ou seguidas de s, levam acento agudo: Piauí, teiú, tuiuiú; teiús, tuiuiús.» Assim, abacaxi, bambu, caju, canguru, colibri, nu, peru, rubi e algumas outras não terem acento enquadra-se nas excepções, pois aquelas vogais finais, seguidas ou não de s, não são precedidas de ditongo.
As palavras oxítonas ou agudas — nomes comuns, mas também antropónimos e topónimos — existem em muito maior número na variante brasileira do português, o que se deve à herança das línguas indígenas.

Prosónimo: «Grande Maçã»


Grande melão

      Vêem-se por toda a cidade de Lisboa cartazes publicitários da TAP a promover viagens a Nova Iorque. Os cartazes, contudo, têm um erro: grande maçã por Nova Iorque está errado. Já tive oportunidade de aqui lembrar que os prosónimos, que são nomes próprios que servem de cognome ou apodo (no caso, está em vez de um topónimo), se escrevem com inicial maiúscula. Logo, Grande Maçã. Se fossem mesmo inteligentes, a imagem seria preenchida por maças reinetas, por exemplo, e escreviam «grande maçã» como escreverem — e, pelo jogo linguístico subjacente, estaria correcto. Com amadores, a coisa nunca sai bem.

«Evocar» e «invocar»

É um erro, eu levo a mal


      Carlos Miguel, presidente da Câmara Municipal de Torres Vedras, ontem em declarações à Antena 1: «O Ministério Público não, não, digamos, não fundamenta o despacho, não evoca qualquer razão, mas remete para uma legislação, e essa legislação proíbe a exibição de imagens pornográficas.» O «evoca» corre parelhas com o «enquadramento judicial» que o jornalista da Antena 1 prometeu dar da questão. Como o autarca ofereceu livres-trânsitos à procuradora que fez o despacho e à juíza do processo convidando-as para irem ao Carnaval, pode bem ser que alguma das magistradas lhe ensine que se diz invocar e não evocar.

Léxico: «mantéu»


Vejamos

Um amigo telefonou ontem para me perguntar se já tinha visto o cartaz da Expolíngua 2009. Que sim, e?... «Eh, pá, tu sabes: como se chamam aquelas golas?» Bem, é uma gola de folhos. «Mas tem outro nome.» Acho que também tem a designação, salvo erro, de mantéu. «Mantéu? Mantéu? Mas isso não é um traje folclórico dos Açores?» Fiquei de confirmar.
De facto, mantéu ou mantéo (do latim mantelum), como regista o Dicionário de Morais, é a «peça de adornar o pescoço, de várias feições, enrocado, desfiado, de abanos, à Balona, etc.». E acrescenta que nos «retratos antigos até o d’el-rei D. Sebastião se vêem os taes mantéus». Enrocado quer dizer pregueado, e Morais no verbete «enrocar» esclarece: «Fazer pregas, que se usavam antigamente nos mantéus, ou voltas do pescoço.» A referência a D. Sebastião (1554-1578) é crucial. No retrato de D. Sebastião atribuído a Cristóvão de Morais e patente no Museu Nacional de Arte Antiga o rei é representado com um mantéu. Também a sua contemporânea Isabel I (1533-1603) é representada com um mantéu (ruffle lace collar, em inglês), pois era uma peça de vestuário quinhentista usada por ambos os sexos. O desta rainha teria cerca de 60 centímetros de diâmetro, para o que seriam necessários à volta de 16 metros de tecido fino. Assim, a definição de «mantéu» — «colarinho largo com abas pendentes» — que encontramos no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora está errada. E mais: este dicionário não regista todas as acepções do vocábulo, pois falta, por exemplo, a de traje académico coimbrão, o mantéu talar, que era usado com ou sem capelo.
Fernando Campos, na obra A Casa do Pó, retrata Camões de «gola de folhos, colete de fendas avelutadas, coçado, capa pendente do ombro, calções tufados pela coxa, a meia torneando a perna até morrer nos borzeguins de couro». Na imagem do cartaz da Expolíngua, só temos o mantéu de papel, que o tecido é caro e a goma não a sabem fazer, e a fazer de colete uma blusa bordada fabricada na China. Alguém emprestou a pala. A parede parece ser a do Palacete Seixas, na Avenida da Liberdade, sede do Instituto Camões.

O verbo «haver»

Apontamento

      Isabel Stilwell, na emissão de ontem dos Dias do Avesso, deu mais um pontapé na gramática: «Mas a verdade é que, eu estive a ler, continuam a não haver contactos entre a Esmeralda e os pais afectivos.» Isabel Stilwell, e refiro-o porque hoje uma caterva de blogues pode já usar o termo, usou a palavra «contra-rapto». É só isto: escreve-se contra-rapto, e não contra rapto. E mais: segundo as regras do Acordo Ortográfico de 1990, passar-se-á a escrever contrarrapto. Habituem-se. Como a agora conhecida contra-reacção passará a ser contrarreação. Aguentem. Eduardo Sá não disse nenhum disparate.

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