Sobre o uso de estrangeirismos

A coluna da Polícia da Fronteira Indo-Tibetana (ITBP) no desfile de 2002

Valia mais estar calado


Há sempre uma parte dos jornais impenetrável à compreensão do leitor médio. Não pela complexidade dos assuntos, mas pela linguagem usada. Um dos maiores obstáculos é o uso de estrangeirismos ou de neologismos não explicados. No passado mês de Janeiro, um texto assinado por um tal M. C. falava do Dia da República na Índia, um dos feriados mais importantes naquele país («em que participam estudantes e artistas representando cada região do País», podia ler-se). Sob uma das imagens, lia-se esta legenda: «Ritmo. Espectáculo hipnótico a cargo de dançarinos tradicionais do Rajastão ocidental, animados pela música, uma constante nas celebrações do dia em que foi adoptada a Constituição indiana. O ‘warm-up’ deixou água na boca» («O grande feriado nacional da Índia», M. C., Diário de Notícias/DN Gente, 24.01.2009, p. 20).
Saiam da redacção e perguntem a quem passa na rua se sabe o que significa warm-up. Este termo é usado em especial no desporto e significa «aquecimento», os exercícios (warm-up exercises) que antecedem a prática de qualquer desporto. De um modo geral, é a actividade curta que prepara (aquece) para uma actividade mais longa e complexa. No contexto, é «a preparatory activity or procedure». Ou seja, um ensaio. Em resumo: warm-up é um estrangeirismo, não explicado e desnecessário.

Sobre *vernaculoso


E isso significa?...

Com mil milhões de mil macacos! «Vernaculoso»? E que significa isso? O capitão Haddock é conhecido pelo conteúdo semântico quase nulo, mas altamente expressivo, das suas interjeições. Pedro Mexia, num texto de 2007, alude às exclamações do capitão: «Acho que nunca usei um ponto de exclamação. Tenho objecção de consciência aos pontos de exclamação. Geralmente, a mais leve aparição dessa sinalefa me desanima a ler determinado texto. E quando aparecem artigos que são manchas compactas de exclamações, nem olho mais. É como se fossem desabafos juvenis. Claro que há génios da exclamação, como Céline e o Capitão Haddock, mas convenhamos que são duas excepções, digamos, absolutamente excepcionais» («Contra a exclamação», Público, 12.05.2007). Retomando o fio à meada: «vernaculoso»? O mais próximo é «vernaculista», este sim, um vocábulo que existe. Contudo, vernaculista é a pessoa que fala ou escreve vernaculamente, isto é, que usa uma linguagem que conserva a pureza original, sem mácula, genuína. Ora, não parece aplicar-se ao verrinoso e verboso capitão.

Ortografia: «contraproducente»


Em duas palavras: extra ordinário

Um amigo acaba de me mandar o recorte de A Voz do Nordeste que encima este texto. Na resposta a agradecer, aleguei que pode tratar-se de gralha, por faltar o hífen na translineação, e não de erro. Na volta, o meu amigo argumentou, e só o podia fazer quem conhece este semanário, que «a desculpa seria aceitável se noutras ocasiões, e com espaço suficiente, eles não tivessem escrito “contra producente”» E, o que tem mais graça, citou aquela frase que se atribui a Samuel Goldwyn (o G em MGM, dos estúdios cinematográficos): «I’ll say it to you in two words: im possible!»

O prefixo des-

Sem desazo nem desbrilho

O prefixo des-, o mais produtivo na língua portuguesa, que para Said Ali não passava da romanização do prefixo latino dis-, presta-se a jogos e salva, frequentemente, uma frase. Por vezes, como é o caso que vou referir, a palavra não existe, demonstrando o seu uso apenas a criatividade de quem escreve. Se querem renovar o léxico, frequentem esta zona do dicionário.
A propósito de Joana Amaral Dias ter ficado fora da Mesa Nacional do Bloco de Esquerda, escreveu Ferreira Fernandes: «Neste caso, foi-se buscar Estaline porque os dois maiores partidos que fundaram o BE já cantaram loas, um, a UDP, a Estaline, e outro, o PSR, a Trotsky. À falta de se discutir essa união (talvez) contranatura, aproveita-se um qualquer pretexto para evocar o gosto pelo Photoshop (a arte de mudar as fotografias) dos revolucionários comunistas. Foi-se por aí, sem ninguém parar na pergunta primeira: mas Joana Amaral Dias foi apagada de quê? Um partido que já a tinha votado para a direcção desvotou-a» («Mas Joana Amaral Dias foi apagada de quê?», Diário de Notícias, 15.02.2009, p. 9).

Tradução: «gambrel roof»

Celeiro com telhado de quatro águas (c. 1920), em Eagle Mills Farms, Whatcom County
© http://www.wa.nrcs.usda.gov/


Telhados de vidro



      Consultamos o Dicionário Inglês-Português da Porto Editora e vemos que gambrel é o jarrete dos cavalos, e, fazendo parte de expressões, gambrel swelling, o que nós chamamos alifafe, um tumor nas articulações do jarrete do cavalo, e, cá está o que interessa, gambrel roof, que é o «telhado com tacaniça cortada». Só que — já aqui o escrevi? — este resultado, encontrável para vários termos e em vários dicionários, é risível. Não é, como esperávamos, a palavra ou expressão que traduz a expressão inglesa — é uma definição, e não se traduz com definições. Um gambrel roof é, na verdade, um telhado de quatro águas, e assim devia figurar no verbete.

Tradução: «double-knit»

Imagem: http://free-knitting-pattern.com/


Malhas que a tradução tece



      A rapariguinha, que era «chubby», vestia «a pair of dowdy brown double-knit stretch pants». Um horror, imagino. Mas o leitor M. L. não pretende opiniões sobre estética, mas sim traduzir aquele «double-knit», que não encontrou nos dicionários bilingues nem monolingues que consultou. É natural — e literal. Significa de «malha dupla», e assim deverá traduzir. Já agora, prevenindo, se aparecer uma rapariguinha, gorda, magra ou assim-assim, de calças narrow elastic, será elástico estreito; wide elastic, elástico largo; tricot knit, malha tricô; warp knit, malha urdume; single knit, meia malha…


Ortografia: «infra-estrutura»


O acordo é para eles

Triste ironia: quem escrevia incorrectamente há vários anos certas palavras (vimos ontem o caso de «fim-de-semana») é agora premiado pelo Acordo Ortográfico de 1990. O vocábulo «infra-estrutura», por exemplo, que até revisores deixam passar sem hífen, passa de facto a escrever-se dessa forma: infraestrutura. Antecipando-se à entrada em vigor das novas regras, é assim que já se escreve na Câmara Municipal de Lisboa. Têm muita sorte.

O Acordo Ortográfico no Brasil

Não sabiam, hã?

As provas de Língua Portuguesa em concursos públicos no Brasil são, é a ideia que tenho, mais rigorosas, mais exigentes do que em Portugal. Agora, com a entrada em vigor do Decreto 6583, que promulgou as novas regras ortográficas, esses concursos, as provas escolares e os vestibulares passam a ser um obstáculo ainda mais difícil de superar, pois se o examinando pode usar, no período entre 2009 e 2012, qualquer uma das duas normas — ou as duas no mesmo texto! — nas provas discursivas, também o examinador, nas perguntas directas, pode exigir somente o conhecimento das novas regras ou das antigas.

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