Acordo Ortográfico


Sem mais tardança


      Espero que não andem distraídos a ponto de não terem visto que o desportivo Record adoptou as regras (todas?) do Acordo Ortográfico de 1990. Fica uma amostra: a capa revela que já não temos selecção, mas seleção. É caso para dizer que vai correr menos tinta a propósito do futebol. E mais: «Em direto na Sport TV.» E ainda: o leitor ganha um cupão para um «filme de ação».

Verbos repetidos


Que estude


      Santo Deus! Mas onde é que essa gente aprendeu português? Pergunte-lhe, cara Luísa Pinto, se quer corrigir Camões: «Este [o dinheiro] a mais nobres faz fazer vilezas» (Os Lusíadas, Canto VIII, 98). Quando se tornam editores, pessoas assim são bem capazes de expurgar obras cimeiras destes «erros».

Uso de estrangeirismos


Assim não vamos lá
     


      «Em 2007, o GPIAA [Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves] recebeu 126 notificações de casos de bird strikes registados nos aeroportos portugueses. Só na Portela foram 51» («Pombais na Portela são ‘bateria antiaérea’», Global, 26.1.2009, p. 4). Por qualquer razão insondável, o jornalista achou que ficava bem usar aquela locução inglesa — sem a traduzir nem explicar. E para quê? Ainda que se designem daquela forma os incidentes de colisão de aves com aeronaves, não há motivo para usar a expressão inglesa, pois não se trata de um relatório científico, mas de uma notícia de um jornal lido maioritariamente por pessoas semianalfabetas que, tirando estes jornais gratuitos, só lêem os talões do Multibanco.

Bordões da linguagem

Perspectivas erradas


      O leitor R. A. escreveu sobre alguns bordões usados incorrectamente nos meios de comunicação social: «Ouvem-se muito as expressões “desse ponto de vista” e “do meu ponto de vista” sem que os seus emissores se dêem/deem conta do seu real significado ou sentido. É exemplo flagrante o de Luís (desse ponto de vista) Delgado, comentador residente na SIC Notícias.
      Creio bem que a equivalência entre “na minha opinião” e “do meu ponto de vista” não é exacta/exata, nem unívoca: muitas das minhas opiniões não dependem da posição onde me encontro! Por outro lado, responder à opinião do meu interlocutor com um “desse ponto de vista” pode ser interpretado como um “isso é o que tu dizes, por estares aí ou por seres o que és”, quando, muitas vezes, o contexto em que é usado esse bordão é manifestamente outro.
      Outros bordões são também curiosos por parecerem revelar, inconscientemente, que, até ao momento em que são ditos, não se estava a ver bem: é o caso de Mário (vamos lá a ver) Crespo, também da SIC Notícias.»
      Se o recurso, quase sempre inconsciente, a bordões linguísticos empobrece a comunicação, o uso de bordões inadequados é o cúmulo da falta de reflexão sobre os limites e significados da linguagem. Em pessoas que todos os dias entram em nossas casas pela televisão ainda é mais censurável essa irreflexão. É uma agravante.

«Reacção» e «reagir»

Quedas jornalísticas


      Reagir e reacção continuam em voga na linguagem jornalística: «Ao meio-dia, o primeiro-ministro vai prestar esclarecimentos sobre o caso Freeport. A conferência de imprensa está marcada para a Alfândega do Porto. Acontece depois da reacção já ontem em comunicado aos desenvolvimentos do caso do empreendimento de Alcochete. José Sócrates reagiu com indignação e repúdio às informações avançadas pelo Sol» (Antena 1, informação às 9 horas, com Nuno Rodrigues). Nas reportagens de rua, os repórteres também gostam de pespegar o microfone à frente do nariz das pessoas e perguntarem: «Como reage a…?» Por vezes, o entrevistado não reage, porque não percebe a palavra.
      E já no fim das notícias: «O mau tempo desta noite provocou dezenas de quedas de árvores.» Quanto melhor não seria: «O mau tempo desta noite provocou a queda de dezenas de árvores.» Já tínhamos quedas-d’água, agora passamos a ter quedas de árvores.

História da revisão

Mais uma tarefa

     
      Caro Vasco Lopes: isso não sei, que a história da revisão está por fazer. Sei é isto: a Sociedade da Língua Portuguesa (SLP) enviou uma vez uma carta ao ministro da Educação Nacional em que se podia ler, entre outras propostas, esta: «4.º — Todos os folhetos, opúsculos e livros devem mencionar o nome do revisor tipográfico, na página onde se indicar a data e o local da impressão» (in Manuel Pedro (Pai). Correcção de Provas Tipográficas. Porto, 1973, p. 37).

Sobre «ulemá»

Sim, onde estaríamos?

Aposto que se lembram desta questão sobre os vocábulos maulavi, mulá e mujaidine. Pois ontem vi que o romance, de resto com excelente crítica, Os Pequenos Mundos do Edifício Yacoubian, de Alaa El Aswany, traduzido por Helena Falé Chora e publicado em 2008 pela Editorial Presença, tem um glossário no fim em que se lê: «Oulamâ/Oulémas: Sábio/sábios. Especialistas em assuntos religiosos, de reconhecida autoridade, que são consultados sobre questões de doutrina e fé» (p. 230). Repito: há muitos anos que se usa ulemá/ulemás na língua portuguesa. Que seria de nós se desde sempre tivéssemos respeitado em palavras comuns grafias estranhas e observado plurais extravagantes? A língua portuguesa teria parado no tempo! Temos de nos apropriar inteiramente das palavras de outras línguas que nos sejam necessárias — aportuguesando-as de forma correcta.

Léxico contrastivo: «canudo»


Para sorver


      À minha frente estavam três brasileiros, que pediram quatro cachorros-quentes. Um deles voltou depois ao balcão, pegou em três palhinhas e disse aos outros: «Querem canudos?» Em Portugal usamos canudos para enfiar diplomas e projectos de arquitectura ou para atiçar, avivar, espertar o lume, por exemplo, mas não para sorver líquidos, como fazem os Brasileiros. Nós chamamos-lhes palhinhas.

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