Ortografia: «cabo-de-mar»

Distracções

      Caro A. M.: deve ter sido distracção dos dicionaristas. Se temos capitão-de-mar-e-guerra, capitão-de-fragata e capitão-de-corveta, por exemplo, todos com hífen, cabo-de-mar assim se há-de escrever por analogia. Mas também não encontro, mesmo sem hífen, nos dicionários que consultei. Contudo, em documentos jurídicos pode ler-se a forma com hífen, como na Declaração n.º (227IA1/83)AB de 29-09-1984, do Ministério da Defesa Nacional, pode ler-se: «No mapa III (Pessoal militarizado da Marinha), onde se lê “cabo-de-mar de 1.ª classe — cabo-de-mar de 2.ª classe” deve ler-se “cabo de manobra de 1.ª classe — cabo de manobra de 2.ª classe.”»

Vogais geminadas

Aos pares fazem mais barulho

      Um leitor, K. V., quer saber porque é que em documentos escritos em português antigo se vêem palavras com vogais não etimológicas repetidas. Encontrei a resposta na obra, já aqui citada, O Acordo Ortográfico, de Francisco Álvaro Gomes (Porto: Edições Flumen/Porto Editora, 2008, p. 63): «Os nossos copistas medievais, para marcarem a diferença entre vogais abertas e fechadas, geminavam as vogais para mostrarem o seu timbre aberto, enquanto as vogais de timbre fechado se mantinham simples.»

«Aterrar» e «aterrissar»


Mais longe

Cara Olga Castro: talvez Madalena Iglésias, na entrevista à Antena 1, tenha dito «aterrissar» por influência do espanhol aterrizar, mas o certo é que se trata de um galicismo. Repare como, até certa altura (o recorte data de 1942), pelo menos o substantivo «aterragem» ainda conservava os dois tt do francês atterrissage.

«Suspeitar», verbo transitivo-predicativo

Tachar de


      Cara Teresa Oliveira, a frase que apresenta está correcta. O verbo suspeitar também é transitivo-predicativo, isto é, selecciona um sujeito, um complemento directo e um predicativo do complemento directo. Veja esta frase de Por detrás da Magnólia, de Vasco Graça Moura (Lisboa: Círculo de Leitores, 2007): «A polícia suspeitava-o de ligações conspiratórias com os monárquicos, devido à imprudência que tinha tido de acompanhar em público, com certo ar de intimidade e parceria, alguns manda-chuvas do consulado sidonista» (p. 163).

Acordo Ortográfico

Continua húmida, a língua


      Isso é uma completa atoarda, caro João Simões. Nós, Portugueses, continuaremos a escrever «húmido» e derivados com agá, como sempre fizemos. Os Brasileiros, por sua vez, continuarão a escrever «úmido». De qualquer modo, o agá nesta palavra é pura tradição. Escreveu o Prof. Carmo Vaz a propósito das consoantes mortas, e especificamente do agá: «Há também palavras que se escrevem com h por força de uma espécie de tradição gráfica, mas não etimológica, como húmido, humor e derivados» (Carmo Vaz. Código de Escrita: Linguística Portuguesa 1. Segunda edição revista e aumentada. Lisboa: Editora Portuguesa de Livros Técnicos e Científicos, 1983, p. 126).

«Maoista», sem acento agudo


Mao Tsé-tung ainda vive

      «De maoísta a grande estadista», lê-se na notícia acima, publicada no Meia Hora. Bem podem os dicionários da língua portuguesa registar outra coisa, a Base XV do Acordo Ortográfico de 1945 estabelece: «Dispensa-se acento agudo nas vogais tónicas i e u de palavras paroxítonas, quando elas são precedidas de ditongo; nos ditongos tónicos iu e ui, quando precedidos de vogal; e na vogal tónica u, quando, numa palavra paroxítona, está precedida de i e seguida de s e outra consoante. Exemplos dos três casos: baiuca, bocaiuva, cauila, tauismo; atraiu, influiu, pauis; semiusto
      O Livro de Estilo do Público recorda que é esta a regra: «Não são acentuadas quando o i e u são precedidos de ditongo: saia, baiuca, maoismo, tauismo

«Pedir que» ‘vs.’ «pedir para»

Será mesmo assim?

Vejamos o que escreveu o Prof. Vasco Botelho de Amaral sobre a questão. «Se o povo diz pedir para, e se eu vejo que Herculano escreveu no Eurico — “pediu para falar a sós” — que me importa a mim que se critique a construção pedir para?
E que assim não lêssemos em Mestres da Língua?... Nunca se ouviu o povo dizer portuguêsmente pedir para ir e de modo semelhante?
Ocorre-me que alguém, algo pesaroso, me escreveu por eu ter defendido a construção pedir para seguida de infinitivo. Tal construção foi muito criticada por Cândido de Figueiredo e outros autores têm ido atrás da sentença do benemérito purista.
A verdade, porém, manda aconselhar paciência aos puritanos demasiado lógicos.
À minha análise lógica não repugna o dizer ou escrever peço-te para vires cá hoje, consoante já mostrei no Dicionário de Dificuldades.
Os gramáticos o que têm é de registar a dicção popular, pois já está apadrinhada pelas melhores penas da arte de escrever» (Glossário Crítico de Dificuldades do Idioma Português. Porto: Editorial Domingos Barreira, 1947, pp. 275-76).

A diferença entre «oh» e «ó»

Ó rapaz!

Escreveu o Prof. Carmo Vaz sobre a matéria: «Deve ainda acrescentar-se que, por tradição ou convenção de escrita, mas como consoante morta, usamos o “h” em poucas palavras como hã! hem! ah, oh, puh! (Note-se que, enquanto o “oh” exemplifica a função fática e emotiva da linguagem, o “ó” é geralmente seguido de outra palavra e exemplifica a função apelativa; ex.: “Ó João…”) (Carmo Vaz. Código de Escrita: Linguística Portuguesa 1. Segunda edição revista e aumentada. Lisboa: Editora Portuguesa de Livros Técnicos e Científicos, 1983, p. 126).

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