Notas tironianas

Imagem: http://aedilis.irht.cnrs.fr/

Notarii &c


«E se Cícero ficou na história pela obra portentosa que nos legou, o seu ex-escravo Tiron [ou Tiro] também ficou por se lhe atribuir o primeiro sistema de notação gráfica abreviada, conhecido como Notas Tirónias (Fr. notes tironiennes) que foi usado até à Idade Média. O sistema é simples, pois consistia em fazer corresponder a uma palavra uma breve sinalefa, embora obrigasse os “estenógrafos”, chamados notarii (funcionários que tomavam as “notas”) a bem conhecerem todas as sinalefas, o que ainda mais se complica, quando Séneca elevou estes signos a cinco mil» (Carmo Vaz. Código de Escrita: Linguística Portuguesa 1. 2.ª edição revista e aumentada. Lisboa: Editora Portuguesa de Livros Técnicos e Científicos, 1983, pp. 141-42).
A designação mais corrente entre nós é notas tironianas ou notação tironiana. É uma matéria amplamente estudada e de grande interesse para os amantes da língua.

Nome das letras

Então, se é assim…

Bem sei que Rebelo Gonçalves tinha outra opinião sobre a matéria, mas todos nos podemos enganar: «Portanto, quando os mestres, animados de boas intenções, insistem em chamar a um c quê e a um g guê (o mais corrente e quase geral até no ensino secundário), para que os seus meninos e meninas leiam bem cama, cola, cuba, gato e gume, esquecem-se de que as crianças, muito mais racionalistas do que possamos imaginar, se amolam a ler cera, cimo, gema e giro» (Carmo Vaz. Código de Escrita: Linguística Portuguesa 1. 2.ª edição revista e aumentada. Lisboa: Editora Portuguesa de Livros Técnicos e Científicos, 1983, p. 118).

Álvaro Carmo Vaz

Injustamente esquecido

      Ontem citei aqui Carmo Vaz e decerto que para quase toda a gente não é uma autoridade, mas isso deve ser porque a memória é curta e o nome não aparece na Internet: aparece um homónimo Álvaro Carmo Vaz, engenheiro especialista em barragens e professor na Universidade Eduardo Mondlane, que vim a descobrir que é sobrinho. Socorrendo-me do que sei (cheguei a corresponder-me com o Prof. Carmo Vaz quando ele tinha uma coluna, ah, agora já se lembram!, linguística no Tal & Qual) e da badana da obra ontem citada, direi: Álvaro Fernando Aleixo Peres de Carmo Vaz era natural de Goa (1915-1994), licenciou-se em Filologia Clássica pela Universidade de Lisboa, tendo-se graduado mais tarde pela Universidade de Cambridge. Foi escritor (Regresso ao Velho Mundo, entre outras obras) e tradutor de autores como James Joyce, Dylan Thomas, Aldous Huxley, Frank O’Connor, etc. Foi colunista na imprensa nacional e estrangeira, professor do ensino secundário e superior. Fundou a revista Vértice em Coimbra nos anos 40, dirigiu a revista Actualidades em Lourenço Marques nos anos 50, foi director e professor do Instituto Britânico, filial de Beja, nos anos 60, director da Biblioteca Nacional de Angola e galardoado com o prémio de ensaio no centenário d’Os Lusíadas nos anos 70.
      Nos próximos tempos, citarei aqui abundantemente a obra do Prof. Carmo Vaz.

Pontos invertidos

Ajudavam na leitura

Há mais de um mês, Rogério da Costa Pereira, no Cinco Dias pedia: «Alguma alma caridosa terá a arte e o saber para me esclarecer quando e por que forma foram os pontos de exclamação e interrogação invertidos retirados do uso corrente em português?» Seria, contudo, o próprio autor a dar a resposta algumas horas depois: a Base XLIX do Acordo Ortográfico de 1945 decreta expressamente a «abolição das formas invertidas do ponto de interrogação e do ponto de exclamação, os quais serão apenas usados nas suas formas normais (? e !), para assinalar o fim de interrogações ou exclamações».
A verdade é que não se encontra muito mais informação sobre esta questão, mas ontem, ao consultar a obra de Carmo Vaz Código de Escrita: Linguística Portuguesa 1 (2.ª edição revista e aumentada. Lisboa: Editora Portuguesa de Livros Técnicos e Científicos, 1983), a propósito dos sinais de pontuação encontrei isto: «O ponto de interrogação (?) indicando uma entoação em crescendo de voz, e função interrogativa da linguagem. Note-se que anteriormente chegou a usar-se no princípio do discurso directo um ponto de interrogação invertido, para indicar que a entoação em crescendo devia começar com o princípio do texto (¿), mas foi abolido; também se usa o p. de i. entre parênteses, intercalado no texto, para o autor indicar que “se interroga”, isto é, não sabe ou não entende o que escreveu anteriormente» (p. 133).

Recursos

Copiem isto

Ora aqui está uma excelente ideia. Chama-se Wordia é um dicionário em linha. Os conteúdos textuais são fornecidos pela prestigiada editora HarperCollins e qualquer pessoa, com um telemóvel ou uma câmara de vídeo, filma o contexto. Surpreendente. Por cá, alguma grande editora podia seguir o exemplo, e esse seria um grande serviço a toda a cultura e língua portuguesas.

Prefixo mega-, de novo

Assim não vamos lá

Depois de andarem há anos a massacrar os leitores com estas formas comezinhas de dizer, ainda assim os jornalistas não dominam a sua escrita: «É o que deve pensar Kate Moss, que pediu perto de 260 mil euros para assistir a um mega-evento de moda no Rio de Janeiro, programado para os dias 5, 6 e 7 de Novembro» («Moss pede milhões para assistir a filme», Davide Pinheiro, Diário de Notícias, 24.09.2008, p. 63). Ao menos que escrevam bem: megaevento.

Estrangeirismos

Era escusado

«O cachet milionário da modelo incluiria ainda uma passagem para o Brasil em primeira classe, estadia em hotel de cinco estrelas e uma limousine sempre ao seu dispor. Em contrapartida, Kate Moss teria que estar sempre presente, para além de encerrar o certame» («Moss pede milhões para assistir a desfile», Davide Pinheiro, Diário de Notícias, 24.09.2008, p. 63). Muito havia a corrigir nestas duas frases, mas fiquemos nisto: depois de os dicionários a registarem, os jornais, como o próprio DN!, a usarem, toda a gente a conhecer, que sentido faz preterir a forma limusina a favor de «limousine»? Nenhuma, claro. Tanto mais que já temos as vacas limusinas.

Dicionário


Homónimos e equívocos

      Eis uma boa notícia para os amantes dos dicionários: a Biblioteca Nacional Digital acaba de pôr à disposição dos leitores a versão digitalizada do Diccionário da Maior Parte dos Termos Homónymos, e Equívocos da Lingua Portugueza, da autoria de António Maria do Couto, publicado em Lisboa em 1842. São 432 páginas numeradas, que podem descarregar aqui.

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