Tradução e legendagem

Desesperos

Canal Hollywood, ontem à noite. Em Romance Perigoso (Out Of Sight, no original), a agente federal Karen Sisco (Jennifer Lopez) diz a Jack Foley (George Clooney) que ele é um desperado. Na legenda, pôde ler-se que era um «cowboy do Velho Oeste». Bem, no Velho Oeste quase todos eram cowboys. Havia uns, porém, dispostos a tudo, desesperados, que faziam trinta por uma linha: os desperados. Independentemente da etimologia da palavra (alteração de um obsoleto desperate ou do espanhol desperado), o certo é que são os próprios dicionários unilingues de inglês que o registam: «a bandit of the western United States in the 19th century».

«Mafia» outra vez


Voltam os mafiosos

O actor Robert De Niro e o realizador Martin Scorsese vão voltar a trabalhar juntos. «Desta vez», lê-se na edição de 11 do corrente da revista Actual/Expresso, «o actor vai vestir a pele de um assassino a soldo da Mafia com mais de 25 mortes no armário» («Estamos juntos», p. 6). Também o Expresso prefere, como eu e o Diário de Notícias, como já aqui vimos, esta forma. Álvaro Gomes não refere esta palavra, mas exemplifica com muitas outras o que chama indeterminação na acentuação, «sem que se tenha chegado», conclui, «a um consenso que não passe pela tolerância de ambas as formas»: estereótipo/estereotipo; Flórida/Florida; Oceânia/Oceania; protótipo/prototipo; túlipa/tulipa, etc. (O Acordo Ortográfico, Francisco Álvaro Gomes. Porto: Edições Flumen/Porto Editora, 2008, p. 51).

Léxico: «semelfactivo»

Semel… quê?

Caro Pedro Pires: o termo correcto é semelfactivo, e pertence à gramática. Habitualmente, opõe-se iterativo (também designado frequentativo), a acção que se repete, a semelfactivo, a acção que só ocorre uma vez (em latim, semel significa uma só vez). Algumas gramáticas e prontuários usam o termo. Por exemplo, o Prontuário Actual da Língua Portuguesa, da autoria de Olívia Figueiredo e Eunice Figueiredo, publicado pela primeira vez em 2005 pela Asa Editores, usa-o na página 342 ao tratar do aspecto verbal.

Ortografia: «primodivisionário»

No mundo do futebolês

Uma aluna perguntou-me ontem como se escrevia: «primo-divisionário» ou «primodivisionário»? É que, argumentou, não encontrara em nenhum dicionário. Tanto quanto sei, não se encontra registado em nenhum dicionário. Usei a analogia para demonstrar como se devia grafar. Em termos morfológicos, a palavra que me ocorreu foi «veterotestamentário», constituída pelo elemento vetero- (do latim vetus, vetĕris, «velho») e pelo adjectivo «testamentário», «relativo a testamento». A MorDebe, comprovei agora, regista «primodivisionário».
A imprensa desportiva, como se sabe, abusa do termo. A propósito, o Livro de Estilo do Público adverte: «futebolês — Uso sistemático de expressões-muleta, algumas ridículas, que redundam numa linguagem pobre e estereotipada, quando se escreve sobre futebol. Use-se uma linguagem mais variada e que mais leitores compreendam. Não se escreva, por exemplo: “apostado em ganhar”, “direccionar”, “denotar sentido de baliza”, “progressão”, “denunciar fome de bola”, “intenção de flanco”, “impedido de penetrar na área adversária”, “faltou objectividade atacante”, “moldura humana”, “muita ofensividade”, “milita nos escalões cimeiros”, “averbar uma clamorosa derrota”, “primodivisionário”, "contra-ataque venenoso”, “postura em campo”, “posicionamento”, “trabalho ao nível do entrosamento”, “tirar do caminho da bola”, “tapete verde”.»

Pronúncia: «ressurreição»

Tudo é recente

      O consultor do Ciberdúvidas F. V. P. da Fonseca afirmou numa consulta datada de 2006 que a pronúncia da palavra «ressurreição» com o e da 1.ª sílaba aberto «é pronúncia viciosa relativamente recente e que se deve evitar». Será mesmo recente? E o que é recente? Desde há dez anos, vinte, trinta? Ou menos? É que, há oitenta anos, nas escolas das missões católicas e nos seminários das nossas antigas colónias africanas a pronúncia dos professores da língua pátria era com a vogal aberta — e os professores iam de Portugal, sobretudo do Norte.

Separador decimal

Qual lei?...

Errado, cara Luísa Pinto: em português, o separador da casa decimal é a vírgula, não o ponto (Portaria n.º 17 052, de 4 de Março de 1959). Tal como é o espaço o separador dos grupos de três algarismos. Uma vez, foi-me dito que a imprensa passou, a determinada altura, a usar, contra legem, o ponto apenas nos números com quatro algarismos, para os distinguir das datas. Posteriormente, passou a fazer-se o mesmo, desnecessariamente então, com quaisquer números, tivessem quatro ou mais algarismos. Importava investigar bem a imprensa portuguesa, ao longo das últimas décadas, para se saber se foi assim e quando aconteceu.

«Detalhar»?

Minúcias íntimas

«Hoje é apresentada uma proposta para um referendo sobre a eutanásia. É um assunto que vamos detalhar ao meio-dia» (José Guerreiro, Antena 1, 14.09.2008, síntese informativa às 11 da manhã). Se embirro, e embirro mesmo, com o vocábulo «detalhe», de «detalhar» nem digo nada. Nos meios de comunicação social, está agora em voga. Recentemente, uma professora de Português dizia-me que sim, senhor, «esse anglicismo é horrível». Pois… Ignorava, coitada, que a língua inglesa integra em si largos milhares de palavras francesas. Ainda no episódio de ontem da série Inimigo à Porta uma personagem usou a expressão francesa agent provocateur.

Topónimo: Abruzos

A Pulha

Dizemos e escrevemos, Diogo. Que entidade portuguesa mais se refere a Itália? A Agência Ecclesia, sem qualquer dúvida: «Bento XVI visitará, a 1 de Setembro, o santuário do Santo Rosto em Manoppello, uma localidade italiana da região dos Abruzos (Abruzzo). No local encontra-se o véu em que, segundo a tradição, teria ficado impresso o rosto de Jesus após ter sido limpo pela Verónica» («Papa visita santuário italiano do Santo Rosto», Octávio Carmo, Agência Ecclesia, 21.08.2006, aqui). Escrevem, como vê, Abruzos, como também escrevem Sicília, Calábria, Sardenha…Puglia é Apúlia. Sim, também nós temos uma Apúlia: fica no concelho de Esposende.

Arquivo do blogue