«Pirilampo»

Divagações entomológicas

      É verdade que há pessoas que não sabem (apesar da campanha!) o que são pirilampos, como pude comprovar recentemente, confundindo-os com gambozinos. (Estou a falar a sério.) Acredito, porém, que é uma minoria. Agora, interessante é ver que «pirilampo» é um composto erudito, grecizante, cunhado nas Conferências Discretas e Eruditas do 4.º conde da Ericeira, D. Francisco Xavier de Menezes (1673-1743), justamente para substituir o popular «caga-lume» (he nome que naõ póde usarse em papeis sérios, justificou o padre Rafael Bluteau). E pirilampo (propozse Pirilampo; achouse affectado) vingou, como se vê pela sobrevivência da palavra.

«Desapontar»?


Aponta e desaponta

Paula Dias, na TSF, 15.30: «A Casa Branca já se mostrou desapontada com estes resultados, mas sublinhou que esta não é uma situação inesperada, dados os problemas que têm afectado a economia dos Estados Unidos.» Cada vez que leio ou ouço a palavra, lembro-me sempre da anedota do indivíduo que, depois de saber que afinal não lhe saíra o Totobola, manda desassar os frangos que mandara assar para festejar… Só não percebo porque é que Rodrigo de Sá Nogueira, no verbete «Desapontamento», manda conferir o verbete «Desinfeliz».

«To estimate»

A esmo

É claro (calma!) que estimar também é avaliar, fazer um cálculo aproximado, mas actualmente, a maioria dos tradutores do inglês quase sempre traduz o verbo inglês estimate por estimar. Já não se calcula nada? Estimo as suas melhoras…

O Opus Dei


Boas obras


      A doutrina divide-se, neste caso. Continuo (opus non est diei unius vel duorum: vide), contudo, a defender a opinião de que se deve dizer o Opus Dei. Apraz-me, pois, que alguns jornais e revistas, como é o caso da Sábado, na edição desta semana, assim escrevam.

Artigo em nomes de localidades

Aguardemos

«Aí está a Azambuja», escreve Almeida Garrett na obra Viagens na Minha Terra, «pequena mas não triste povoação, com visíveis sinais de vida, asseadas e com ar de conforto as suas casas. É a primeira povoação que dá indício de estarmos nas férteis margens do Nilo português.» Das vinte e uma ocorrências do topónimo, só numa delas (e não será, neste caso, erro, pois que vi numa edição moderna?) o autor não o faz anteceder do artigo definido. Ontem, porém, na Antena 1, o repórter João Rosário omitiu sempre o artigo. Não tenho aqui à mão um azambujense fiável que nos informe de como se diz, mas já aparecerá alguém.

Posição dos clíticos

Ora vejamos

Que influência tem a expressão enfática «é que» na posição dos pronomes clíticos? Um consulente do Ciberdúvidas, Orlando Vedor, que também se me dirigiu, quis saber se é correcto fazer a ênclise (ou seja, pospor o pronome átono à forma verbal) na seguinte frase: «Mas talvez saibas (é da tua área, em sentido lato) porquê essa mistura de fiambre e presunto. É que trata-se do mesmo produto, só em duas modalidades: a cozida e a defumada.»
O consultor, depois de uma divagação e usando de analogia, foi claro: «Neste caso, o pronome átono (ou clítico) fica em posição enclítica, isto é, segue-se ao predicado da oração que começa por “é que”.»
Analogia por analogia, vejamos então com outra frase. A Ana fez o jantar, mas a empregada comeu-o. Está certa, não é? E se introduzirmos a expressão enfática «é que», como fica? «A Ana fez o jantar, mas a empregada é que o comeu» ou «A Ana fez o jantar, mas a empregada é que comeu-o»?
A frase não é minha, mas de Lígia Arruda, na página 102 da Gramática de Português para Estrangeiros, publicada pela Porto Editora, e já aqui recomendada neste blogue. A autora dá-a como exemplo de oração em que ocorre próclise. Assim, esta expressão enfática é, pela presença de «que», sempre proclisadora ou dependerá da natureza do verbo? Em ambas as orações, repare-se, o verbo está flexionado.

Roubo e furto

Mais rigor

      Ana Catarina Santos, no noticiário das 5 da tarde na TSF: «Em silêncio, sem fazer disparar alarmes, pela madrugada, conseguiu entrar no edifício da PJ, vasculhou, roubou à vontade.» Os jornalistas são assim, de extremos: ora se encantam a lançar termos técnicos para cima do público, ouvintes, telespectadores, leitores, ora caem na mais rasteira imprecisão popular. O presidente da ASFIC, Carlos Anjos, bem usou o verbo furtar, mas não foi suficiente para a repórter.
      O furto, estabelece o artigo 203.º do Código Penal, consiste em «subtrair coisa móvel alheia», ao passo que o roubo, de acordo com o artigo 210.º do mesmo código, consiste na apropriação de coisa móvel alheia, sim, mas «por meio de violência contra uma pessoa, de ameaça com perigo iminente para a vida ou integridade física». Nada, segundo as insistentes notícias sobre o caso, do que sucedeu esta noite no edifício da Av. José Malhoa.

Frases parentéticas

Morde aqui

Talvez se recordem de um leitor, convenientemente anónimo, que me apontou o uso supostamente agramatical de períodos inteiros dentro de parênteses. Lembram-se? Pois bem, na altura, consultei a Academia Brasileira de Letras (ABL). A resposta desta denota um subtil traço de menosprezo, que remeti por inteiro, como era justo, para o leitor, que estava pela segunda vez a fazer o mesmo comentário. Disse a ABL: «Não há restrição quanto a isso. Leia em boas gramáticas sobre os diversos empregos dos parênteses. É interessante.»
Ando a ler o romance Adolescente Agrilhoado, de José Marmelo e Silva (1911-1991), escritor que tem agora a obra completa, não muito extensa mas altamente recomendável, publicada pela Campo das Letras. Há ali larguíssimas dezenas de frases parentéticas. E não se trata de modernices, não: a obra é de 1958, e a edição que estou a ler e vou citar, a 3.ª, de 1967.
«O cunhado, esforçando-se por reter as lágrimas, respirou, baixou as pálpebras. (Tinham ficado ambos ofegantes.) Decidiu-se, momentos depois, a encará-la severamente» (p. 131).

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