«To estimate»

A esmo

É claro (calma!) que estimar também é avaliar, fazer um cálculo aproximado, mas actualmente, a maioria dos tradutores do inglês quase sempre traduz o verbo inglês estimate por estimar. Já não se calcula nada? Estimo as suas melhoras…

O Opus Dei


Boas obras


      A doutrina divide-se, neste caso. Continuo (opus non est diei unius vel duorum: vide), contudo, a defender a opinião de que se deve dizer o Opus Dei. Apraz-me, pois, que alguns jornais e revistas, como é o caso da Sábado, na edição desta semana, assim escrevam.

Artigo em nomes de localidades

Aguardemos

«Aí está a Azambuja», escreve Almeida Garrett na obra Viagens na Minha Terra, «pequena mas não triste povoação, com visíveis sinais de vida, asseadas e com ar de conforto as suas casas. É a primeira povoação que dá indício de estarmos nas férteis margens do Nilo português.» Das vinte e uma ocorrências do topónimo, só numa delas (e não será, neste caso, erro, pois que vi numa edição moderna?) o autor não o faz anteceder do artigo definido. Ontem, porém, na Antena 1, o repórter João Rosário omitiu sempre o artigo. Não tenho aqui à mão um azambujense fiável que nos informe de como se diz, mas já aparecerá alguém.

Posição dos clíticos

Ora vejamos

Que influência tem a expressão enfática «é que» na posição dos pronomes clíticos? Um consulente do Ciberdúvidas, Orlando Vedor, que também se me dirigiu, quis saber se é correcto fazer a ênclise (ou seja, pospor o pronome átono à forma verbal) na seguinte frase: «Mas talvez saibas (é da tua área, em sentido lato) porquê essa mistura de fiambre e presunto. É que trata-se do mesmo produto, só em duas modalidades: a cozida e a defumada.»
O consultor, depois de uma divagação e usando de analogia, foi claro: «Neste caso, o pronome átono (ou clítico) fica em posição enclítica, isto é, segue-se ao predicado da oração que começa por “é que”.»
Analogia por analogia, vejamos então com outra frase. A Ana fez o jantar, mas a empregada comeu-o. Está certa, não é? E se introduzirmos a expressão enfática «é que», como fica? «A Ana fez o jantar, mas a empregada é que o comeu» ou «A Ana fez o jantar, mas a empregada é que comeu-o»?
A frase não é minha, mas de Lígia Arruda, na página 102 da Gramática de Português para Estrangeiros, publicada pela Porto Editora, e já aqui recomendada neste blogue. A autora dá-a como exemplo de oração em que ocorre próclise. Assim, esta expressão enfática é, pela presença de «que», sempre proclisadora ou dependerá da natureza do verbo? Em ambas as orações, repare-se, o verbo está flexionado.

Roubo e furto

Mais rigor

      Ana Catarina Santos, no noticiário das 5 da tarde na TSF: «Em silêncio, sem fazer disparar alarmes, pela madrugada, conseguiu entrar no edifício da PJ, vasculhou, roubou à vontade.» Os jornalistas são assim, de extremos: ora se encantam a lançar termos técnicos para cima do público, ouvintes, telespectadores, leitores, ora caem na mais rasteira imprecisão popular. O presidente da ASFIC, Carlos Anjos, bem usou o verbo furtar, mas não foi suficiente para a repórter.
      O furto, estabelece o artigo 203.º do Código Penal, consiste em «subtrair coisa móvel alheia», ao passo que o roubo, de acordo com o artigo 210.º do mesmo código, consiste na apropriação de coisa móvel alheia, sim, mas «por meio de violência contra uma pessoa, de ameaça com perigo iminente para a vida ou integridade física». Nada, segundo as insistentes notícias sobre o caso, do que sucedeu esta noite no edifício da Av. José Malhoa.

Frases parentéticas

Morde aqui

Talvez se recordem de um leitor, convenientemente anónimo, que me apontou o uso supostamente agramatical de períodos inteiros dentro de parênteses. Lembram-se? Pois bem, na altura, consultei a Academia Brasileira de Letras (ABL). A resposta desta denota um subtil traço de menosprezo, que remeti por inteiro, como era justo, para o leitor, que estava pela segunda vez a fazer o mesmo comentário. Disse a ABL: «Não há restrição quanto a isso. Leia em boas gramáticas sobre os diversos empregos dos parênteses. É interessante.»
Ando a ler o romance Adolescente Agrilhoado, de José Marmelo e Silva (1911-1991), escritor que tem agora a obra completa, não muito extensa mas altamente recomendável, publicada pela Campo das Letras. Há ali larguíssimas dezenas de frases parentéticas. E não se trata de modernices, não: a obra é de 1958, e a edição que estou a ler e vou citar, a 3.ª, de 1967.
«O cunhado, esforçando-se por reter as lágrimas, respirou, baixou as pálpebras. (Tinham ficado ambos ofegantes.) Decidiu-se, momentos depois, a encará-la severamente» (p. 131).

Construções anafóricas

Mais variedade

Vejo agora muito usada esta construção anafórica (e a pontuação está correcta!): «Foi um jogo interessante, aquele que ontem marcou a visita do Monsanto ao terreno do Nelas.» Bom é variar a forma como escrevemos, lançar mão de outras maneiras de expressão. O árbitro, esse… O jogador, este… O jogo, aquele… não convém usar em todos os textos.

Como se escreve nos jornais

Nada exemplar


      «“Um exemplo”. O adjectivo utilizado aquando da visita da ministra da Educação, Maria de Lurdes Rodrigues, à Escola Básica Integrada da Malagueira, em Évora, referia-se à forma estratégica como a escola tem integrado crianças com necessidades educativas especiais, que estavam, até ao início do passado ano lectivo, colocadas em instituições unicamente dedicadas ao ensino especial» («O exemplo integrado da Escola da Malagueira», Pedro Coimbra do Amaral, Diário de Notícias, 29.09.2008, p. 3).
      Vou ser brando: esta parvoíce só tem a seu favor o não ser inédita, escasso consolo para o leitor. Havia mil e uma formas de redigir correctamente a frase, mas o jornalista foi por ali. Além disso, a segunda frase, pela sua extensão, vai contra tudo o que recomendam os manuais de jornalismo.

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