«Homem das arábias»

Pelo plural

Cara Maria Pereira, será como diz, mas o certo é que Rebelo Gonçalves regista na página 99 do seu Vocabulário da Língua Portuguesa «arábias, el. subst. f. pl. Compon. das exprs. homem das arábias, coisa das arábias, etc.».

Actualização em 3.04.2009

«O músico das arábias [Maurice Jarre (1924–2009)]» (L. A. M., Visão, 2.04.2009, p. 20).

Topónimo


Não se percebe

«Corria na aldeia de Santa-Clara-a-Nova, ao lado de Almodôvar, que ali vivia gente debaixo do chão, imagem construída devido ao facto de as ruínas de povoados romanos aparecerem abaixo do nível do chão» («Escrita do Sudoeste», Ana Machado, Público/P2, 26.09.2008, p. 4). Vá-se lá saber porquê, os topónimos são frequentemente vítimas de maus tratos nos jornais. Neste caso, como o topónimo aparece assim grafado três vezes, é de supor que não se trata de gralha, mas erro. Erro, porque nenhum topónimo português, e não há excepções, em que entre a palavra «santo» esta se liga por hífen à palavra seguinte. Escreve-se, e é fácil confirmar, Santa Clara-a-Nova.

Plural dos nomes próprios

Em 1943

Porque ainda há quem continue a falar na questão, lembro aqui o romance Casa na Duna, de Carlos de Oliveira. («O cuidado na prosa distingue Casa na Duna do neo-realismo rasteiro», lembra Pedro Mexia em recensão publicada no Diário de Notícias.) A narrativa centra-se em Mariano Paulo, proprietário de uma quinta, em Corrocovo, situada no alto de uma duna. Mariano Paulo e o filho Hilário. Logo, são os… Paulo ou Paulos? Vejam o que escreveu o autor (citações da edição da Assírio & Alvim, Lisboa, 2004):

«O povoado cresce sobre a duna que há perto de duzentos anos os pinhais começaram a fixar. No alto, a descer para o poente, fica a quinta dos Paulos.» (p. 8)

«Os Paulos, um após outro, tinham conseguido alargar a quinta, leira sobre leira, num tempo em que os camponeses trocavam a terra a canecas de vinho.» (p. 11)

«Não deixaria escapar nenhuma ocasião de manter intacta a herança dos Paulos.» (p. 93)

«Se os Paulos já mortos andassem por ali, discretos e atentos, pisando a sua velha quinta, sentir-se-iam orgulhosos dele.» (p. 106)

«Uma herança como a dos Paulos tem de perdurar para além das pessoas, de tudo o que passa.» (p. 109)

«A maldição dos Paulos, a névoa dum precipício sobre a profundidade desconhecida.» (p. 121)

Sinónimos rejeitados


Mitos urbanos

No programa O Amor É…, Júlio Machado Vaz acabou de dizer que desde sempre a virgindade foi valorizada, «através de presentes, camelos»… Será «presentes» ou «prendas»? Já vi pessoas serem corrigidas em público por dizerem «prenda» em vez de «presente». São, porém, termos sinónimos. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora diz de «prenda» que é o «objecto que se dá ou recebe como oferta; presente» e de «presente» que é o «que se dá ou recebe como oferta; prenda». Qual a diferença? Talvez através da etimologia se possa estabelecer alguma distinção, de relevância meramente académica, mas o certo é que no dia-a-dia são sinónimos puros. Tanto como «pomada» e «graxa». Recentemente, foi a minha vez de ser corrigido: que não se diz «pomada», mas «graxa». A sério? Mas os dicionários são unânimes em afirmar que a pomada é um «produto para polimento, de consistência pastosa». Tanto assim é que os fabricantes deste produto é a palavra «pomada» — ou nunca leram? — que inscrevem nas embalagens. São os mitos urbanos linguísticos…

Antropónimos


Questão maiúscula




      Lê-se na edição de hoje do Meia Hora: «Fomentar o gosto pela leitura é o objectivo da Comunidade de Leitores Almedina, que vai realizar várias sessões de leitura e debates no Atruim [sic] Saldanha com autores nacionais. Até amanhã, pelo telefone 213570428, pode inscrever-se no encontro com Valter Hugo Mãe» («Leitura Partilhada na Almedina do Saldanha», Meia Hora, 23.09.2008, p. 11).
      Fica a informação. Ah, mas esquecia-me do mais importante. Estão a ver como o jornalista escreveu o nome do escritor? Valter Hugo Mãe. Ora, precisamente ontem, o sólido, centenário e imprescindível Diário de Notícias escrevia: «O escritor valter hugo mãe apresentou sábado na Fnac do Colombo, em Lisboa, o romance, o apocalipse dos trabalhadores, e o projecto musical Cabesssa Lacrau, nascido no final de 2007, da reunião com três músicos: António Rafael, dos Mão Morta e Um Zero Amarelo, Miguel Pedro, também dos Mão Morta e dos Mundo Cão, e Henrique Fernandes, dos Mecanosphere de Adolfo Luxúria Canibal» («valter hugo mãe estreia novo projecto musical», Diário de Notícias, 22.09.2008, p. 52).
      Se tiverem de escrever o meu nome, quase certamente o sobrecarregam com um peso que ele oficialmente não tem: o acento agudo. Na verdade, o meu nome é Helder. Em contrapartida, vergam-se ao capricho de um indivíduo que quer que os outros lhe escrevam o nome com minúsculas. Estão a ver o símbolo que está na imagem acima? É o nome por que, a partir de certa altura, o cantor Prince quis ser conhecido. Imaginem agora que um escritor queria ser conhecido por um espaço em branco. Não seria complicado para os leitores? Vá lá, senhores jornalistas, sensatez.


Como se escreve nos jornais

E isso significa?...

George Michael foi novamente apanhado numa casa de banho pública, e tem sempre alguma coisa na mão. Desta vez foram drogas e aconteceu em Hampstead Heath, Londres. «O cantor teve de prestar declarações na esquadra, tendo-lhe sido imputada a acusação de posse de estupefacientes dos tipos A e C [categorias em que se incluem o crack e a cocaína], disse outra fonte policial» («George Michael detido numa casa de banho», João Paulo Mendes, Diário de Notícias, 22.09.2008, p. 63).
O que significa imputar? Pois atribuir a culpa ou a responsabilidade de um acto a alguém ou, segunda acepção, acusar com deslealdade, assacar. Só uma situação rebuscada, que não é aquela que os factos mostram, poderia justificar tal redacção, no contexto completamente sem sentido. A redacção poderia ter sido algo semelhante a isto: «O cantor teve de prestar declarações na esquadra, tendo sido acusado da posse de estupefacientes dos tipos A e C, disse outra fonte policial.» Não viu o jornalista, não viu o editor, não viu o revisor.

Traduzir do espanhol

Dez milhões

      O Diário de Notícias de ontem refere que duas freiras das Concepcionistas Franciscanas de Segóvia, em Espanha (também estão em Portugal, em Campo Maior, no Mosteiro da Imaculada Conceição), têm um programa televisivo, um reality show, sobre culinária. Humildes, dizem: «“Para nós isto não é o estrelato, mas sim cumprir a vontade de Deus, prestando um serviço à comunidade como qualquer outro que nos tivesse enviado”, diz a irmã Beatriz, a mais veterana. A sua habilidade entre as panelas vem “das antigas mães”, um legado ainda visível na cozinha onde trabalha» («Freiras abrem a porta do convento em ‘reality show’», M. J. E., Diário de Notícias, 22.09.2008, p. 61).
      O que me intrigaria, se não tivesse logo intuído que é má tradução, é a palavra «mães». O artigo não cita fontes (porquê?), mas é quase integralmente mera tradução de um que aparece no sítio do jornal espanhol El Mundo. Eis o trecho acima: «“Para nosotras no ha sido un estrellato, sino cumplir la voluntad de Dios, prestando un servicio a la Comunidad como cualquier otro que nos hubieran mandado, ya que dependemos de la obediencia”, explica sor Beatriz, la más veterana. Su destreza entre fogones viene “de las madres antigas”, un legado aún visible en los anacrónicos calderos y un alicatado sin mácula que horrorizaría a cualquier decorador de platós» («Las ‘grandes hermanas’ de la cocina»).
      É claro que no contexto madres se traduz por «madres» e não por «mães». É que em espanhol madre também é o «título que se da a ciertas religiosas». E mais: «como cualquier otro que nos hubieran mandado» não se traduz por «como qualquer outro que nos tivesse enviado», mas sim por «como qualquer outro que nos tivessem ordenado». A parte final da frase, «un legado aún visible en los anacrónicos calderos y un alicatado sin mácula que horrorizaría a cualquier decorador de platós», ficou prudentemente truncada em «um legado ainda visível na cozinha onde trabalha». Antes assim.

Ortografia: «prazo-limite»

Analogia

Caro Pedro Pires: deveremos escrever prazo-limite, como escrevemos data-limite e data-valor, por exemplo. Em todos os casos, o segundo elemento é um determinante específico, sendo invariável: prazos-limite, datas-limite, datas-valor. Ainda na semana passada se lia no Diário de Notícias: «Os condutores com 50 ou 60 anos vão receber a partir de Outubro avisos a alertá-los para o prazo-limite da renovação da carta de condução, disse à Lusa fonte do Instituto da Mobilidade e Transportes Terrestres» («Condutores recebem avisos em Outubro», Diário de Notícias, 19.09.2008, p. 18).

Arquivo do blogue