Glossário de gíria

Agora já percebo

O Diário de Notícias de ontem publicou um glossário de gíria dos gangues (Diário de Notícias, 20.09.2008, p. 5), numa excelente reportagem assinada por Kátia Catulo. Com a devida vénia, ei-lo:

Glossário


Bago. Termo usado para designar uma munição de arma; bala ou balázio são outras expressões usadas

Batedores. São vigilantes do bairro que estão em pontos (“spots”) estratégicos e dão o alerta sempre que detectam um carro da polícia

Caixa baixa. Expressão usada quando os mais velhos se referem aos miúdos até 16 anos e que ainda não fazem roubos ou assaltos de grande envergadura

Canijo. Significa canavial ou terrenos baldios: locais sem iluminação onde os miúdos do bairro se escondem da polícia

‘Cap’. É a expressão em inglês para boné

Fechar. Termo que significa atacar em grupo um rapaz que entrou sozinho num bairro que não é o dele

Litrolas. É uma garrafa de cerveja de um litro, que os miúdos compram para dividir por todos

Pipoca. Tanto pode significar um polícia (“bófia”) como um carro-patrulha da PSP

‘Street fight’. Expressão inglesa que significa um combate de rua. Trata-se de lutas entre os bairros, em que os miúdos levam tudo o que têm à mão para lutar — tacos, barras de ferro, pedras ou facas

Sócio. Tanto pode ser um companheiro do seu bairro como dos jovens de outras urbanizações

Toques de bairro. Formas de cumprimentar ou saudar os companheiros. Cada bairro tem um “toque” próprio, mas há também “toques” que são comuns a todos

‘Thug life’. Expressão original do rap que significa não ter nada e, mesmo assim, saber ultrapassar os obstáculos. Entre os rapazes da região de Lisboa, no entanto, significa “vida de bandido”

Tropa. São todos os que moram no bairro e que seguem o mesmo código — nunca denunciarem-se uns aos outros

2Pac. É aquele que não mostra medo e que sabe usar a palavra para incitar à rebeldia

‘West side’. Expressão inglesa que os miúdos usam para designar os bairros sociais da zona ocidental da região de Lisboa

Ortografia: «paraolímpico»

Finalmente

     
      Depois de muitas semanas a ver a defesa da forma «paraolímpico», já ansiava por que alguém usasse, na imprensa, a forma recomendada. Aconteceu ontem: «Agora, a sua vida voltou a dar uma volta de 180 graus: foi fotografada a andar de skate com a sua filha Victoria Frederica, liderou a delegação espanhola na cerimónia de abertura dos jogos paraolímpicos de Pequim, carregou a bandeira espanhola e gritou entusiasmada pela sua equipa e voltou a acordar todos os dias cedo para praticar uma hora de equitação» («A nova vida da infanta Elena de Espanha», Rita Roby Gonçalves, Diário de Notícias, 20.09.2008, p. 65).

Grafia dos prosónimos

Por intuição, pois…

      Bem, caro A. M., emendo para Cidade Berço porque também escrevo Arco Atlântico, Capital do Móvel, Celeste Império, Cidade Condal, Cidade das Acácias, Cidade dos Arcebispos, Cidade dos Doutores, Cidade dos Pináculos Sonhadores, Cidade dos Ventos, Cidade Ferroviária, Cidade Invicta, Cidade Luz, Cidade Maravilhosa, Continente Negro, Hexágono, Lusa Atenas, Meca do Cinema, Nação Arco-Íris, Novo Continente, Novo Mundo, País das Pampas, País das Montanhas, País das Tulipas, País dos Cedros, Planeta Vermelho, Riviera Inglesa, Tecto do Mundo, Terras de Sua Majestade, Tigres Asiáticos, Velho Continente, Velho Mundo, etc. São todos eles prosónimos, já ouviu falar? São nomes próprios que servem de cognome ou apodo. No caso, estão em vez de topónimos, e estes, lembra-se?, grafam-se com inicial maiúscula. Regista o Vocabulário da Língua Portuguesa (1966), de Rebelo Gonçalves, na página 250: «cidade, s. f. Locs. substs. fs.: cidade livre, cidade universitária, etc.; locs. pros. fs.: Cidade Eterna, Cidade Invicta, Cidade Maravilhosa, etc.

Ortografia


Para ficar só na anatomia

Claro que lhe posso chamar tendão calcâneo, mas não é isso que está em causa. É só uma divagação: porque é que, por um lado, se escreve cova-do-ladrão e maçã-de-adão, e, por outro, tendão de Aquiles e monte de Vénus?

Revisão III

Frasicida

Gostava de ter uma rubrica sobre as frases que poderiam existir se eu não estivesse lá para as matar à nascença. Mas não posso, claro. A antológica de ontem seria esta: «Apesar de tudo, é uma fase difícil para Tarik, dado que o extremo é adepto do Ramadão e cumpre todas as regras nesta fase.» «Adepto do Ramadão»? Não aderi, a frase não vingou. Ah, este texto soa-me, já li isto em qualquer lado…

«Fast food» ou «fast-food»?

Imagem: http://scruss.com/blog/tag/sign/

Pronto-a-comer


      «Dos portugueses residentes no continente que têm entre 15 e 64 anos, quase dois terços (65 por cento) consumiram pelo menos uma refeição de fast food durante o último ano» («Portugueses comem tanta fast food como os alemães», Inês Sequeira, Público, 18.09.2008, p. 8).
      No Ciberdúvidas não têm dúvidas: «A palavra inglesa fast-food deve grafar-se com hífen e, como se trata de uma palavra estrangeira, em itálico ou entre aspas.» Contudo, uma consulta a dicionários de língua inglesa deixa-nos outra certeza: fast food é substantivo e fast-food é adjectivo. E há quase unanimidade na afirmação. Seguindo a norma, no artigo citado do Público, nem todas as ocorrências do termo se grafariam sem hífen, como sucede.


Tradução: «short-selling»

Opções venda curta

«A actual turbulência dos mercados, com gigantes bolsistas a verem derreter o seu valor em poucos dias, levou a autoridade supervisora dos mercados norte-americanos, a Securities and Exchange Commission (SEC), a alterar as vendas de acções a descoberto (short-selling). Este mecanismo, que permite aos especuladores ganhar dinheiro nos momentos de queda dos mercados, consiste em vender acções que ainda não se detêm, para as recomprar pouco tempo depois, mas mais baratas» («Deixa de ser possível vender acções que não se detêm», Raquel Almeida Correia, Público, 18.09.2008, p. 30).
O Banco Big chama-lhes opções venda curta, como podem ver aqui.

Uso da maiúscula. Basónimos

Pois é

«“O problema do homo sapiens é ser apenas humano. As pessoas e as instituições cometem erros e os cristãos e a igreja não são excepções», admite Malcolm Brown no site da igreja anglicana» («Anglicanos pedem desculpa a Darwin», D. M., Diário de Notícias, 16.09.2008, p. 32). Quanto aos basónimos, estamos conversados, tanto mais que o jornalista parece ter-se limitado a copiar o que se lê no sítio da Igreja Anglicana: «The trouble with homo sapiens is that we’re only human. People, and institutions, make mistakes and Christian people and churches are no exception.» De resto, não acham que faltam ali maiúsculas iniciais?

Arquivo do blogue