Léxico: «marketing viral»

Como um vírus

«Qualquer português pode ser capa da revista Caras. Esta é [a] lógica da acção de marketing viral que a revista do social do grupo de Pinto Balsemão lança hoje online» («‘Caras’ dá exclusivo ao seu leitor», P. B., Diário de Notícias, 17.09.2008, p. 62). Viral porque actua como um vírus: as pessoas em contacto com a mensagem acham-na tão apelativa, que a transmitem a terceiros, espalhando-se assim rapidamente.

Ortografia: «megassucesso»

Mais megas

«Ainda não escrevera [Gabriel García Márquez] o megasucesso que haveria de ser Cem Anos de Solidão, ainda não escrevera o emocionante O Amor Nos tempos de Cólera» («Antes de ‘Cem Anos de Solidão’ veio ‘A Hora Má’ agora reeditada», Isabel Lucas, Diário de Notícias, 17.09.2008, p. 51). Muito bem, o elemento nominal de composição mega- solda-se sempre ao elemento seguinte. Contudo, se este começa por s, como é o caso, dobra-se a consoante: megassucesso. Ou não, cara Isabel Lucas?

Nélson e Nelson, de novo

Como calha

Eu disse aqui que o Diário de Notícias escreve sempre «Nélson Évora»? Bem, não é exactamente assim: é mais como calha. «Entre eles, os medalhados olímpicos em Pequim, Nelson Évora, ouro no salto em comprimento, e Vanessa Fernandes, prata no triatlo» («‘Vice’ do Benfica Fernando Tavares pede demissão», Diário de Notícias, 17.09.2008, p. 64).

Ortografia: «comandante-chefe»

Francesias

      «Dois bombardeiros estratégicos russos TU-160 efectuaram patrulhas sobre as águas internacionais da costa oriental da América Latina, anunciou o porta-voz do comandante em chefe da Força Aérea, Vladimir Drik» («Bombardeiros russos sobrevoam América Latina», Diário de Notícias, 17.09.2008, p. 31). Por esta altura, já toda a gente devia saber que em português se escreve comandante-chefe, pois comandante em chefe é galicismo. «En chef. En fonction de chef. Rédacteur, ingénieur, général en chef» (in TLFI).

Tradução do inglês

Isso bem traduzido

Até podemos desconhecer o que se faz na Universidade de Verão do PSD, mas todos sabemos que John McCain was trained as a fighter pilot, tenho a certeza. Mas só o dizemos assim, com o artigo indefinido, em inglês, ou não, caro Hugo Coelho? «McCain era um piloto da Marinha americana no Vietname quando foi preso» («John McCain recebe o inesperado apoio do seu carcereiro comunista», Hugo Coelho, Diário de Notícias, 16.09.2008, p. 28).

Pontuação

Frases espinhosas

Atentem neste pedaço de prosa sobrevirgulada: «Mergulhadores dos bombeiros recuperaram ontem, na Albufeira do Ermal, em Vieira do Minho, o corpo de Bruno Araújo, de 18 anos que, anteontem, desapareceu naquelas águas fluviais» («Mergulhadores resgatam corpo de jovem afogado», Susana Pinheiro, Diário de Notícias, 16.09.2008, p. 24). É como comer uma castanha com o ouriço. Cara Susana Pinheiro: não precisava de tantas vírgulas, acredite. Use somente as necessárias, nem mais uma. No jornal, boa parte do que faço é atirar vírgulas para o caixote do lixo. Ainda ontem: «Os capões recebem, hoje, pelas 16 horas, em jogo-treino, o FC Maia.» E que tal sem nenhuma vírgula? «Os capões recebem hoje pelas 16 horas em jogo-treino o FC Maia.»

Personagem

Mentes criminosas

Entrando na mente do criminoso… Então, se percebo, cara Luísa Pinto, essas criaturas aceitam escrever a personagem se a personagem é do sexo feminino. Se se tratar de uma pessoa do sexo masculino, de um cocheiro, por exemplo, já não aceitam que seja outra coisa a não ser o personagem. É isso? Até tremo, de tanto riso. (Mas também, oh diabo, 12.38, pode ser da fome.)

Revisão

Entendam-se

A propósito de Diário de Notícias. Neste jornal ainda andam em negociações para saber se devem escrever «blog» ou «blogue». Escreviam ontem: «Saramago iniciou participação em ‘blog’» (Diário de Notícias, 16.09.2008, p. 48). Há dois anos, contudo, optavam por escrever: «Em carta ao executivo, os subscritores, aos quais se associam também a Associação Lisboa Verde e o blogue Sétima Colina, apelam a que o perfil romântico ainda relativamente intocado do Príncipe Real seja mantido e que, a ser dado um uso hoteleiro ao Palacete Ribeiro da Cunha, dentro do conceito de unidade de charme, ele se desenvolva num modelo polinucleado» («Contestada a conversão em hotel de palacete do Príncipe Real», Maria João Pinto, 31.05.2006, p. 38). E não foi apenas uma vez, pois: «A deliberação está já a ser alvo de críticas. No blogue Dizpositivo, o juiz Paulo Ramos de Faria (o mesmo que exigiu o estudo sobre as férias ao ministro da Justiça) equipara esta situação à dos deputados, em relação a quem, em tempos, se ponderou também a obrigatoriedade de apresentarem relatório das suas missões no estrangeiro» («CSM vigia deslocações dos juízes ao estrangeiro», Inês David Bastos, 31.05.2006, p. 48).
Como noutros jornais, o problema decorre ou da falta de diálogo entre os revisores ou da ausência de directivas das chefias. No caso, compreendia muito mais facilmente se tivessem começado por escrever «blog» e agora tivessem optado por «blogue».

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